A Bíblia diz que Jesus viu uma grande multidão e teve grande compaixão para com ela, e os seus discípulos aproximaram-se dEle, não para auxiliá-lo, mas para Ele despedir a multidão para que fosse pelas aldeias e comprasse comida para si. Mas Jesus, sentido a fome da multidão, disse: "Dai-lhes de comer".
Devemos pedir ao Senhor que nos dê sua audição para ouvir o clamor das almas, que nos dê o seu amor para amarmos o mundo sem Deus. Para que nos dê sua visão, a fim de vermos as grandes necessidades dos povos que precisam ser alcançados para Deus.
Missão e missões
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Há vários paradigmas e modelos de missão ao longo da história. O momento histórico e a diversidade geográfica, de um lado, e a teologia subjacente, do outro, são variáveis fundamentais para entendermos as convergências ou as continuidades e, também, as diversidades e as descontinuidades. Há algumas constantes que perpassam a espiritualidade missionária, como podem ser vistas a partir da vida de muitos missionários e missionárias. Uma característica da espiritualidade missionária, e certamente ocupando o lugar central, é a paixão pelo Cristo vivo e pelo Reino.
A pessoa de Cristo inspirou e continua motivando a opção profunda dos missionários e das missionárias. Não é possível que alguém trilhe este caminho sem ter sido arrebatado pelo Cristo Pascal. Somente quem tem um vínculo e uma intimidade excepcional com o Mestre pode percorrer o caminho da missão sem retorno. A busca e a construção desta intimidade podem ser diferenciadas. Os caminhos da proximidade com o Mestre podem seguir diferentes métodos, mas ninguém pode se aventurar no empreendimento da missão sem ter sido arrebatado pelo amor do Senhor. Cada vocação, e especialmente a missionária, pressupõe um chamado íntimo e radical por parte do Mestre. Este chamado decorre de uma experiência e de um encontro transformador da vida. É este o ponto de partida para o caminho da missão e que explica a adesão radical do discípulo. Em todas as figuras e as testemunhas que vemos ao longo da história, a paixão pelo Cristo missionário é o eixo motivador da própria espiritualidade.
É um Cristo, no entanto que está situado e caminha junto com os pobres deste mundo. Os deserdados, os danados da terra, os sem esperança, os feridos no caminho revelam o rosto sofrido de Cristo. Qualquer experiência de Jesus que não passa através da solidariedade com os abandonados, faz da experiência religiosa uma aventura romântica e intimista, mas não atinge o núcleo da experiência religiosa cristã. Dar a vida, como Jesus, é preciso, fazendo-se companheiro dos despossuídos. A ótica do Reino e a paixão pelo sonho de Jesus fazem da espiritualidade missionária um caminho sem retorno. Historicamente, a aventura missionária nem sempre teve uma perspectiva reino-cêntrica. Hoje, após o Concílio Vaticano II, ficou clara a origem trinitária da missão, como fonte, método e fim, e, também, o serviço aos valores do Reino. Na história da missão, no entanto, vários modelos focalizaram diferentemente o objetivo da missão. É conhecido o modelo da "salvação das almas", a qualquer custo. Várias testemunhas, inseridas nesta teologia da missão, sonhavam "salvar uma alma e depois morrer". Pouco atentos ao contexto histórico que era o seu, transplantavam um modelo de evangelização e fundamentavam-se na exclusividade do batismo, como horizonte primeiro. Muitas vezes, ingenuamente, os missionários andavam de mãos dadas com os vários processos de colonização.
Mais tarde, a perspectiva da implantação da Igreja (plantatio Ecclesiae) absorveu toda a ação missionária. Formaram-se, assim, muitas comunidade cristãs espalhadas no mundo todo. No fundo, este modelo continuava sendo muito eclesiocêntrico. A perspectiva do Reino, com toda sua aproximação metodológica, é algo de muito recente e está re-focalizando o caminho da missão. O profetismo também nunca esteve ausente do caminho da missão, sendo mesmo seu núcleo central . Há, também, o sentido do envio e da saída, sobretudo física, da própria terra de origem. A missão é um longo caminho que não tem mais retorno. O sentido do "sair da própria terra" significa a radicalidade de pertencer somente a Deus e ao seu projeto. Quem conduz a missão é Deus . Não há outro projeto a ser implementado se não o Reino de Deus. É ele que toma conta completamente da vida dos missionários e das missionárias para conduzi-los aonde ele quer e segundo a maneira que ele quer.
Esta radicalidade é revelada através do ato de entrega e do fato de não pertencer mais a si mesmo. Concretamente, traduz-se no processo de deixar tudo, a pátria, os amigos, os pais, as pessoas mais queridas e os lugares mais familiares para ser conduzidos pelo Mestre. Em época de "globalização, quando parece que as distâncias se encurtam e as divisões territoriais não são tão rígidas como aos tempos do surgimento dos Estados Nacionais, há a necessidade de manter vivo o sentido do "além fronteiras", também geográficas, para significar a entrega total ao projeto do mestre. A exemplo de Abraão, o pai da fé de algumas grandes religiões, continua explicito o sentido da saída, sem saber aonde se vai e sem conhecer tudo sobre o que fazer.
Confia-se somente na promessa de Deus. O mesmo Jesus, movimentando-se ao interior da Palestina e sem ter saído fisicamente de seu contexto cultural, indica a categoria do deslocamento e o abandono nas mãos de Deus como processo radical do seguimento. O sentido do caminho de Jesus, como enviado e primeiro grande missionário, começa quando deixou o lugar que lhe pertencia, como Deus, e se encarnou no meio de nós, pondo sua tenda no meio dos seres humanos. Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até a morte." (Fil. 2. 6-8).
A primeira grande epopéia missionária começou com a Igreja primitiva. Em poucos anos houve cristãos que se espalharam para todo o mundo conhecido, testemunhando a universalidade da mensagem de Jesus. Os Atos dos Apóstolos representam a atividade e a consciência missionária das primeiras comunidades cristãs.Sem saída, portanto, não há missão. Quem retiver a própria vida vai perde-la, mas que a oferecer, irá ganha-la para sempre.

O cristão e o mundo
Gloecir Bianco
"Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade." (João 17:15 a 17)
Não é nada fácil viver neste mundo. O Cristão sofre angústias, tribulações, problemas financeiros, doenças, miséria, fome, desemprego etc. Tudo que o mundo sofre. Qual será o propósito de Jesus para seus seguidores neste mundo, já que ele pede abertamente ao Pai no texto citado, que não nos tire do mundo? Parece contraditório, entretanto, é exatamente este o propósito. O Cristão precisa ser sal "Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens." (Mateus 5:13) e precisa ser luz: "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa." (Mateus 5:14 e 15) Não tem jeito, a interferência do Cristão precisa ser no mundo a fim de "restaurar o sabor" a fim de "alumiar a todos".
Certa ocasião o Senhor Jesus foi visto na companhia de muitos pecadores, imaginem, para o evangelista chamá-los de pecadores é porque a fama destas pessoas era declarada, todos os conheciam como pecadores. Os que procuravam condenar a Jesus e para isto viviam procurando argumentos, logo questionaram: "Por que come vosso Mestre com publicanos e pecadores?" e "Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes." (Mateus 9:10 a 13)
Durante muitos séculos o homem sofreu muito com interpretações errôneas, equivocadas e até extremas desta realidade e como sabemos, tentou viver isolado para assim servir a Deus de maneira "santa". Isolou-se em mosteiros, conventos e ordens religiosas, tendo como única finalidade estudar a Bíblia e orar. Que fracasso, que frustração descobrir o que Jesus disse e está registrado à nossa disposição nos evangelhos: "vocês têm que estar no mundo a fim de restaurar-lhe o sabor", "vocês vão ter que se expor a fim de alumiar a todos".
Como é difícil estar inserido neste mundo e fazendo diferença no trabalho, na escola, na vizinhança, na rua, nas férias, nas viagens. Não podemos nos enclausurar em "mosteiros", em "igrejas", somente com amigos Cristãos. Precisamos "restaurar o sabor de nossos amigos no trabalho, na escola, na vizinhança, na rua, durante nossos momentos de lazer" é assim que tem que ser.
A principal missão da Igreja de Cristo no mundo é evangelizar, promovendo a conversão dos descrentes pelo exemplo de nossa própria vida transformada. O amor ao próximo deve levar o Cristão à prática de obras de misericórdia em favor de todas as pessoas, tanto crentes como descrentes. E sem dúvida o mais difícil: Os Cristãos são chamados a cumprir sua "missão cultural", que Deus lhes deu na criação (Gênesis 1:28 a 30 e Salmos 8:6 a 8). A humanidade foi criada para administrar o mundo de Deus, e essa administração é parte da vocação humana em Cristo, tendo por alvo a honra de Deus e o bem dos outros. A "ética do trabalho" Cristão é, essencialmente, uma disciplina religiosa, o cumprimento de um "chamamento" divino para administrar a criação de Deus.
Como tem sido nossa interferência neste mundo de Deus, você tem administrado a criação de Deus com ética, responsabilidade, amor ou tem se escondido em "mosteiros"?, Lembre-se: os Cristãos devem envolver-se em todas as formas de atividades humanas lícitas e agir de acordo com os valores Cristãos, tornando-se sal (agente profilático) e luz (mostrar o caminho) na comunidade humana, somente quando cumprirmos nossa vocação dessa maneira, poderemos transformar as culturas ao nosso redor.

O ensino na igreja missionária
Josué Adam Lazier
Tito 2.7-8

Introdução
A Igreja Metodista destaca em sua doutrina de missão os seguintes aspectos: testemunho (martiria), que é a razão de ser da Igreja e que se expressa na solidariedade, na evangelização, no discipulado, no apoio, no cuidado, na sinalização do Reino de Deus, etc.; serviço (diakonia), onde todos os membros participam do cumprimento da missão; comunhão (koinonia), fundamental para que a integração entre os diversos ministérios seja pautado no amor, no perdão, no apoio mútuo, na solidariedade, na valorização, no relacionamento e no reconhecimento do dom e do ministério do outro. O ensino é ação ministerial que alimenta estes aspectos da missão da Igreja e prepara a membresia para atuar no cumprimento integral do Evangelho de Jesus Cristo
O texto de Tito 2.7-8 nos inspira nesta linha de reflexão. Ele está num bloco de recomendações ministeriais para a liderança da Igreja. O texto começa com a expressão tu, porém, denotando os contornos do ministério exercido pela liderança (Tt 2.1). A orientação é para que os líderes ensinem em todo tempo a sã doutrina para os diversos grupos presentes na igreja, em destaque os idosos (2.2), as idosas (2.3-5), os jovens (2.6) e os servos (2.9-10). Paulo faz várias recomendações usando esta expressão (I Tm 6.11; II Tm 1.14; 2.1; 3.10; 3.14; 4.5 e Tt 2.1). Elas apresentam as características que devem acompanhar a vida e o ministério daqueles e daquelas que foram alcançados pela graça de Deus.

O ensino cristão
Os falsos mestres que atuavam na igreja desviavam as pessoas do caminho da cruz. Tito deveria contrastar estes ensinos falsos falando da sã doutrina (2.1) e enfatizando o ensino bíblico no seu ministério (2.7).
No meio da relação dos deveres das diversas classes, é destacado o papel da liderança que deve ser padrão das boas obras e ser modelo no ensino (didaquê). Ao usar a palavra grega didaquê, o apóstolo está se referindo as ações de Tito como mestre no Corpo de Cristo. Se os falsos mestres ensinavam doutrinas equivocadas ele deveria ser um mestre que educava os membros da igreja fundamentado na Palavra de Deus.
O vocábulo mestre vem do termo grego didaskalos, que quer dizer "professor", "mestre" ou "aquele/a que transmite um conhecimento". Em I Coríntios 12.28, didaskalos aparece como o terceiro dom espiritual de um grupo de três. Era o ofício na Igreja Primitiva de explicar aos outros a fé cristã e providenciar uma exposição cristã do Antigo Testamento.
O ensino foi fundamental na preparação dos novos membros para o batismo. Foi fundamental também para a transmissão da tradição cristã, que se constituía das palavras, ensinos e atos de Jesus Cristo. Para a compreensão de muitas coisas que Jesus disse e ensinou o uso do Antigo Testamento foi necessário e determinante. Isso dá evidência de que algum método de ensino foi usado e de que a educação cristã na igreja foi observada com bastante rigor.
Vemos, portanto, que a função de ser mestre é um dom (ou talento) dado por Deus para a edificação do Corpo de Cristo (I Co 12.28, Rm 12.6-8 e Ef 4.11).

Modelo de ensino
Paulo desenvolveu a ação docente na instalação de novas igrejas. Em Colossenses 1.28 encontramos uma tríade paulina sobre a estratégia usada para a edificação da igreja em Colossos: “anunciamos, advertimos e ensinamos”. O primeiro verbo vem do grego kataggélo, que quer dizer proclamar, anunciar. O segundo vem do termo noutheteo, que indica a instrução, recomendação, aconselhamento e admoestação. O terceiro vem do grego didasko e indica a educação.
A ação educativa deveria ser exercida de forma a ser modelo, sobretudo para os mais jovens. Trata-se de uma orientação para todos, pois o “estar apto para ensinar é uma qualidade que todos os homens e mulheres podem desenvolver, para atingirem a maturidade cristã". Para assinalar a importância do ensino algumas qualidades são relacionadas ao mesmo:

Integridade
Quer dizer ausência de qualquer interesse outro que não a edificação na vida cristã. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza; etc. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso; etc.

Reverência
Indica o zelo e a seriedade com que o ensino é desenvolvido na vida do líder.

Linguagem sadia
Indica a doutrina dos profetas e dos apóstolos, ou seja, o que foi ensinado e que se constitui na essência do fundamento da Igreja, a sã doutrina, a Palavra de Deus.

Irrepreensível
Denota a prática do ensino, ou seja, Tito não deveria “ensinar aos moços uma coisa e viver algo diferente”.

Para que os falsos mestres sejam envergonhados
Os falsos pregadores e mestres, as falsas doutrinas e os adversários da igreja seriam envergonhados diante do ensino e da vivência da Palavra de Deus. Em outras palavras, Tito deveria “combinar uma motivação pura com uma exposição sadia e com um comportamento sério. Isso para que, como Paulo lhe disse, aqueles que se opõem fiquem envergonhados por não poderem falar mal de nós”.

Conclusão
A educação cristã é mais do que simplesmente a informação bíblica e o acúmulo de conhecimentos. Implica no ensino prático para atender as necessidades dos membros da igreja, na capacitação para o trabalho, no treinamento para o exercício dos ministérios, etc. Numa igreja ministerial e missionária o ensino é fundamental para o processo de preparação e de envio. Encontramos na Bíblia vários termos que nos apontam para isto. Vejamos:

1. Ensinar - uma palavra muito freqüente no NT é o verbo didasko, que quer dizer ensinar. Ele era usado para referir-se a instrução verbal e prática. Ex.: Mt 4.23, 5.2, 9.35, 13.54, Mc 1.21, 4.1, 6.34, Lc 4.15, 5.3, etc.
“Em Efésios 4.11-16 aprendemos que a principal função dos líderes pastorais do povo de Deus é a capacitação desse povo para a realização dos ministérios (v.12). Nas pastorais, Paulo alista características que devem compor a identidade dos ministros e ministras do Evangelho – todas no âmbito da ética e dos relacionamentos, com exceção de uma, relativa à função ministerial, que é a do ensino da Palavra de Deus em todas as suas dimensões (I Tm 3.1-7; Tito 1.6-9)”.
2. Educar - palavra usada para referir-se a educação de crianças (Atos 7.22, 22.3) e no sentido de disciplina e correção (I Co 11.32, I Tim 1.20, II Tim 2.25, Tito 2.12).
3. Aprender - palavra usada para falar do conhecimento já adquirido. Pode ser a capacidade de reconhecer entre o bem e o mal ou capacidade de discernir (Gn 3.22, 39.6, I Sm 28.9, etc.).
4. Conhecer - várias palavras gregas são traduzidas por "conhecer". Está implícito nesta palavra o conhecimento, a compreensão, o saber fazer ou ser capaz de fazer, etc. (M. 12.33, Lc 12.47, Lc 18.34, I Ts 4.4, etc.).
5. Seguir - palavra que designa o seguimento de Cristo e quer dizer comunhão de vida com Jesus. Seguir a Jesus significa colocar-se a serviço do Reino de Deus. Esta palavra é usada pelos Evangelistas para relatar os discípulos "seguindo" a Cristo. Marcos (3.14) explica melhor o que significa este "seguir". Ele usa a expressão "andar com ele". Segundo os Evangelhos, Jesus dedicou mais tempo a seus discípulos, ensinando-os e preparando-os para o cumprimento da missão.
Neste sentido, a educação desenvolvida no ambiente eclesiástico e no lar, o estudo bíblico e a aula na Escola Dominical são atividades que acompanham o carisma apostólico dos diversos dons e ministérios, sobretudo do ministério pastoral.


O desafio missionário da igreja
Sérgio Fonseca
“Quão amáveis são os teus tabernáculos... Bem-aventurados, Senhor os que habitam em tua casa: louvam-te perpetuamente” (Salmo 84). Que privilégio nosso estarmos na casa do Senhor experimentando uma deliciosa comunhão com Ele. Aqui, na casa do Senhor, em cada culto vamos sendo tratados, consolados, renovados, fortificados, exortados a luz das Escrituras. Estar na igreja e fazer parte da igreja é bom demais!
Apesar desta maravilhosa realidade, trago comigo uma preocupação que aos meus olhos caracteriza a igreja evangélica brasileira nesses últimos tempos: introversão. Uma igreja voltada para si mesma. Nela encontramos homens e mulheres preocupados somente com suas questões existenciais, familiares, profissionais e por aí em diante. Uma igreja muito mais voltada para o seu próprio coração, do que para o que está no coração de Deus. Será que estamos perdendo a nossa consciência missionária? Será que estamos perdendo nosso ardor na proclamação do evangelho? A igreja precisa aprender a se desprender mais das suas questões intimistas. A igreja precisa sair da igreja!
Creio que eu não sou o primeiro a dizer que Deus tem um coração missionário, mas gostaria que você constatasse isso comigo nas páginas das Escrituras em três momentos:
“Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3).
Em Gênesis nos deparamos com Deus chamando, separando e vocacionando um homem - Abraão, que mais tarde seria a nação de Israel, para abençoar todos os povos da terra. Nesta passagem temos a inauguração oficial das atividades missionárias na Bíblia.
Quando analisamos a história de Israel podemos constatar que ela tem um caráter eminentemente missionário. Tanto Abraão como Israel foram abençoados para abençoar. Daí o porque das manifestações divinas no meio do povo: “Para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte, a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias” (Josué 4:24).
“Assim como o Pai me enviou...” (João 20: 21).
Temos na colocação acima o ápice do envio missionário na pessoa do próprio Senhor Jesus. Ele não somente assumiu a forma humana como nos diz em Filipenses 2:6 a 7,mas também assumiu um estilo de vida missionária, deixando-nos o maior exemplo.
Na segunda parte da colocação feita por Jesus em João 20:21, “...eu também vos envio”, somos chamados a uma responsabilidade; somos chamados em Jesus para testemunhar: “...e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados, a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas” (Lucas 24:46 a 48).
“Vós, porém, sois raça eleita... a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou...” (I Pedro 2:9). A Igreja, comissionada e autorizada por Jesus, tem a responsabilidade de dar continuidade às atividades missionárias, visando o cumprimento do plano de Deus que é abençoar os povos da terra. E quando nos referimos a Igreja não entendemos simplesmente que é uma responsabilidade “institucional”, mas também responsabilidade de cada membro do Corpo de Cristo, portanto, individual.
Podemos ver no texto da grande comissão em Mateus 28:18 a 20 Jesus transmitindo aos discípulos uma responsabilidade: “Ide, portanto, fazei discípulos”. Esse comissionamento por sua vez geraria novos discípulos e assim sucessivamente, comprometendo-os a fazer discípulos de todas as nações.
É verdade que cada um de nós traz sua história pessoal. Todos nós temos nossas dores, problemas e questões particulares que pela misericórdia do Senhor vão sendo tratadas em sua presença. No entanto, as nossas questões pessoais não devem nos fazer perder a nossa consciência daquilo que o Senhor deseja realizar através de nós como membros do Corpo de Cristo dentro e fora da igreja.

Igreja em missão
Ricardo da Mota Leite
Definir “Igreja” pode ser simples. Poderíamos, dogmaticamente, dizer que igreja consiste no número dos eleitos, reunidos num só “Corpo”, tendo Jesus Cristo como a “Cabeça”. Todavia, se pensarmos em “Igreja” não apenas de forma dogmática mais pragmática, talvez nos situaríamos sociologicamente e espiritualmente melhor. Entender igreja apenas de forma teórica leva-nos a mesmice e improdutibilidade. A teoria deve estar associada à prática para sua própria sobrevivência. Teoria sem prática perde-se na história ou, pior ainda, pode produzir vaidade e ufanismo. Sim, a Igreja se denomina efetivamente à medida que vive, em missão, seu projeto original.
O corpo humano é um organismo que cresce e se fortalece conforme se movimenta. Certamente, também por isso, a metáfora é usada para definir o que é “Igreja”. Igreja é um corpo, que cresce e se fortalece quando se movimenta. A “missão” da igreja é o seu movimento, se movimentar é sua vocação. Conforme a ordem já dada pela “Cabeça”, o Corpo deve obedecer. O cumprimento de sua missão garantirá seu crescimento e fortalecimento. A missão foi claramente enfatizada, a saber: testemunhar. O testemunho, missão da igreja, é movido pelo amor, como movido pelo amor, foi Deus ao movimentar-se em encontro ao perdido.
A grande tentação da igreja é acomodar-se nos braços institucionais. As instituições religiosas, ainda que importantes, são apenas alguns dos instrumentos que podem ser usados no cumprimento da missão. A institucionalização da igreja tem sido a grande falácia histórica e teológica que cumpre-nos combater. A instituição religiosa pode ser uma bênção de Deus se não viver voltada para si mesma e sim, para os outros.
A Igreja, Corpo de Cristo, em missão. Os membros desse corpo se reúnem com o objetivo de louvarem a Deus, exaltando a Jesus Cristo, e promovendo através do compartilhar dos dons, a edificação e fortalecimento uns dos outros. Assim, bem ajustado, o Corpo se fortalece e cresce. Os crentes vão sendo equipados e equipando uns aos outros, tendo como instrutor maior o Espírito Santo. Recebendo o poder do Espírito Santo, a igreja vai ao mundo testemunhar.
Com o ajuntamento dos crentes de forma organizada e ordeira, a comunidade dos santos se mobiliza em projetos de amor que sinalizam para o mundo a missão da Igreja. O testemunho ao mundo se dá por meio da proclamação e da ação amorosa em direção ao perdido. A ação da Igreja salvará o perdido do poder do pecado, o libertará das opressões do Diabo, da miséria sócio-religiosa e o curará de suas enfermidades. Por sua vez, o neófito, deve integrar-se ao grupo dos remidos para que também viva em missão. Mas em qual instituição ele deverá se filiar? Bom, sua decisão será muito mais sociológica do que espiritual.
Não podemos é supervalorizar as instituições como sendo elas portadoras de um tipo de franquia do Reino de Deus.
Nosso grande desafio como membros da igreja, o Corpo de Cristo, é apenas testemunhar com fidelidade. Caso não façamos isso, acabaremos criando modismos, fazendo com que a instituição passe a ser um tipo de empresa prestadora de serviços “franqueados” e as pessoas como clientes vitimados de um sistema sociológico doentio. Aproveitar a “demanda de mercado” e explorar tais pessoas impondo-lhes taxas, seria muito leviano de nossa parte. Tão somente, cumpramos nossa missão, testemunhemos sobre Jesus.
Cristianismo e cultura
Henrique Alves da Silva
Nos mêses de julho comemora-se o aniversário do Congresso Internacional de Evangelização, que aconteceu na cidade suíça de Lausanne. O evento representou um marco na história das missões contemporâneas e alavancou a evangelização ao redor do Planeta. Ao final do Congresso foi produzido um documento conhecido como "O Pacto de Lausanne", que consta de 15 Artigos e uma Conclusão. É uma autêntica confissão de fé moderna, que reafirma as crenças básicas do Cristianismo, com forte ênfase na evangelização. O Pacto é também um tributo à unidade da igreja. Quero destacar, do Artigo 10 uma crítica muito sugestiva:
As missões, muitas vezes, têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras.
Os redatores do Pacto mexeram em casa de marimbondos. É fato que, ao ser transmitido, o evangelho carrega muito da cultura do transmissor. Nada de mais se dermos um desconto às ambigüidades humanas. Mas a situação se complica quando a avaliação do que é evangelho passa pela reprodução, tintim por tintim, do modelo cultural recebido. Nesse caso os evangelizados são também colonizados ao tentarem reproduzir os hábitos e costumes dos missionários. Podemos verificar um tal desvio comportamental em muitas de nossas igrejas. Por vezes nos esquecemos que somos latinos tropicais e assumirmos uma cosmovisão euro-americana. Tem igreja que é pouco mais do que uma estação repetidora das centrais difusoras do Norte. Esquecemos que somos bandeirantes e não pioneiros; meridionais e não setentrionais; brasileiros e não ianques.
Não proponho que sujemos o prato em que comemos. Devemos reconhecer o esforço missionário do outro hemisfério. Entretanto, o preço desse reconhecimento não nos pode tornar culturalmente alienados. Quer queiramos ou não, somos parte de um caldo cultural tupiniquim. O que seria de nós, só pra imaginar, se tivéssemos sido evangelizados por esquimós? Já sei: estaríamos cultuando em iglus, usando peles de foca e cantando hinos com melodias polares! Nada mais estranho, não?
Pois bem, que contornos culturais envolvem o evangelho que vivemos? Cultura por cultura, prefiro a nossa. É mais nossa. Que a deles fique com eles! O tempo da tutela já passou. Se o evangelho tem de ter cores , que sejam as nossas. Com decência e ordem podemos expressar a fé de um modo mais nosso, mais brazuca, mais caldo de cana, menos coca-cola.

A cidade edificada sobre o monte
Ed René Kivitz
Este mundo vai de mal a pior, e aqueles que acreditam que o mundo vai melhorar precisam ler a Bíblia outra vez. Ou fazer teologia novamente. Quem acredita que "o dia de justiça, o dia de verdade, o dia em que haverá na terra paz, em que será vencida a morte pela vida, e a escravidão enfim acabará" refere-se às possibilidades de estruturação social está iludido.

A teologia da missão integral da Igreja deu passos significativos para que o assistencialismo evoluísse para a solidariedade emancipadora. Na verdade, a bandeira da responsabilidade social da Igreja levantada pelo movimento chamado evangelical foi além do velho paradigma "dar o peixe e ensinar a pescar" e profetizou a necessidade da transformação das estruturas sociais, isto é, lutar pela igualdade de condições entre os pescadores: instrução a respeito de pescaria, acesso aos apetrechos de pesca e às margens dos rios. A visão sistêmica que compreende a interação entre o indivíduo e a sociedade não dá margem para outra postura que não a implicação social da evangelização. Ponto para os herdeiros de Lausanne.*
Os discursos a respeito da Igreja como agência de transformação histórica e os apelos para que as cidades sejam conquistadas para Cristo foram, entretanto, inseridos nas agendas dos políticos cristãos, distorcendo o próprio propósito do Senhor Jesus para sua Igreja e seu Reino. Boa parte da chamada Igreja Evangélica brasileira (cada dia gosto menos desta expressão) padece de um crasso erro hermenêutico, a saber, a transposição simples das promessas do Velho Testamento para o contexto social e histórico atual.
Quero dizer que a promessa de Deus ao povo de Israel ("Se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu e sararei a sua terra") jamais pode ser aplicada ao Brasil e significar que a terra a ser sarada é a nação brasileira. Deus tinha um povo, e o seu povo tinha uma terra, um projeto de Estado, uma ética social e uma agenda litúrgica em unidade coerente. Isto é, o povo de Israel, habitando na terra da promessa, organizado num Estado regido pela Lei divina em suas múltiplas dimensões e sujeito ao único e verdadeiro Deus, seria luz para todas as nações.
Hoje, Deus ainda tem um povo: a Igreja (e se você ainda acredita que o povo de Deus é a nação de Israel, leia Gálatas novamente). Mas este povo, a Igreja, não tem uma terra delimitada como espaço geográfico, tipo território nacional. Mais do que isso, quando o povo de Deus fala em "organização social", não está falando de um estado de direito, uma ordem social temporal, mas sim do Reino eterno de Deus. E o Reino de Deus não é um reino a ser instaurado na história, mas sim sinalizado na história.
A Igreja não vive sob a promessa de que a sociedade pode ser sarada. A Igreja vive sob o imperativo de oferecer-se ao mundo como humanidade e sociedade redimida, que se estrutura, de maneira alternativa, e através de suas relações internas anuncia profeticamente o Reino que virá. Como aprendi com os evangelicais, a Igreja é responsável por manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino que será estabelecido ali e além. Mas esta manifestação histórica do Reino de Deus, entretanto, não se dá pela cristianização da sociedade ou, como pretendem alguns, pela tomada do poder temporal pela Igreja Evangélica.
A igreja, leia-se comunidade cristã local, é uma cidade edificada sobre o monte, uma luz na escuridão, que, inserida na sociedade corrompida e vivendo em meio a uma geração perversa, que se opõe a Deus e é inimiga da cruz, funciona como um sinal do Reino que virá. Não se iluda, esperando que o Brasil inteiro um dia fique iluminado. Ele, assim como todo o mundo, continuará em trevas. Mas em meio a estas trevas, viva em comunidade, uma comunidade que "vive o que prega para que possa pregar o que vive".
Isso significa que os cristãos devem se recolher de sua inserção social? Eu não disse isso. Aliás, o Senhor Jesus disse que a luz acesa não pode ser colocada embaixo da cama.

Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de Tillich
Carlos Eduardo B. Calvani
Toda vez que membros da igreja se encontram com aqueles que estão fora da igreja, são missionários da igreja, voluntária ou involuntariamente. Seu próprio ser é missionário” (Paul Tillich)
A igreja de Cristo nasceu com forte impulso missionário. Tal como Jesus espalhara a mensagem do Reino por onde passava, em palavras e atos libertadores, também era desejo dos apóstolos espalhar a boa mensagem por todos os lugares. A primeira atividade missionária registrada no livro dos Atos acontece já no dia de Pentecostes, quando Pedro prega aos judeus e um grande número de pessoas aceita a Palavra e recebe o santo batismo. A proclamação começa com a interpretação dos escritos judaicos a partir da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Mas a missão continua através de outros atos: o testemunho de vida comunitária (At 2.42-47) que despertava a simpatia das pessoas e as atraía ao convívio da primeira comunidade; a restituição de mobilidade a um coxo na porta do Templo, que motiva outra pregação pública e a primeira prisão dos apóstolos (At 3 e 4) e prossegue nos muitos relatos de “sinais e prodígios” dos apóstolos, sempre visando o bem do povo. O testemunho missionário começa em Jerusalém e derredores, alcança a Samaria (At 8) e, após a conversão de Saulo se espalha até chegar à Europa. A estratégia de Paulo em sua primeira viagem missionária era de anunciar o evangelho a partir das sinagogas e tradições judaicas. Mas logo o apóstolo compreendeu que o evangelho não é apenas para uma etnia ou para um povo privilegiado, mas para toda humanidade e, com a intensificação das perseguições judaicas, passa a anunciar a mensagem libertadora aos não-judeus. O ingresso desses na igreja marcou a primeira grande instabilidade na comunidade dos seguidores de Cristo. Chegou-se a um acordo mais ou menos pacífico no concílio de Jerusalém (Atos 15) onde o testemunho de Pedro foi decisivo (At 15.7-11), evocando, certamente, sua própria admiração com a ação livre de Deus na casa do centurião Cornélio, um romano “piedoso e temente a Deus” (At 10 e 11).
Desde então, a mensagem do evangelho se espalhou pelo mundo de diversas formas, pela coragem, desprendimento, ousadia e dedicação de mulheres e homens. A história das missões narrada pelo bispo Stephen Neill [1] traz inúmeros relatos sobre essa atividade. A era missionária não começou, como querem alguns, com os movimentos reavivalistas e evangelicais do século XIX. Naturalmente, houve diferentes interpretações de missão e, em muitos casos, uma desastrosa simbiose entre a mensagem eterna do evangelho e as formas culturais daqueles que o transmitiam. Hoje em dia, praticamente todas as denominações que compõem a Igreja cristã têm departamentos ou secretarias com orçamento e funcionários dedicados à tarefa missionária. Em alguns casos essa ainda é compreendida como implantação de igrejas num determinado local, onde se colocará a placa da denominação. Há também quem compreenda a missão como um esforço para persuadir pessoas a abandonarem uma determinada igreja e se filiarem a outra, onde supostamente o evangelho é pregado com integridade e os benefícios espirituais e materiais são superiores aos oferecidos pelo outro grupo. Tais questões nos remetem à urgência de refletirmos sobre alguns aspectos da missiologia à luz de alguns desafios e problemas atuais, tais como: a incontornável necessidade de conviver com pessoas de diferentes religiões (ou mesmo com pessoas sem-religião) num mesmo espaço social; a identificação do modo como agem os poderes demoníacos em nosso mundo globalizado e capitalizado e, finalmente, o tipo de testemunho dado pelos cristãos de diferentes igrejas, o que nos remete à questão ecumênica. Esses assuntos não são de competência exclusiva dos missiólogos, mas merecem ser abordados a partir de outras perspectivas. Neste artigo, pretendo apresentar algumas pistas oferecidas por Paul Tillich.
Falecido em 1965, Tillich é mais conhecido no Brasil pela obra Teologia Sistemática. Mas ele também escreveu sobre outros assuntos e de vez em quando fazia inserções na Pastoral. Seus livros de sermões se tornaram best-sellers nos EUA nos anos 60 e alguns de seus artigos sobre cultura, política, educação cristã e missões têm sido redescobertos e relidos nos últimos anos. Ele nunca escreveu uma obra específica sobre missiologia e seria esforço inócuo tentar apresentar a “missiologia de Tillich”. O máximo que podemos fazer é recolher aqui e ali pinceladas sobre o assunto, apresentadas em artigos curtos ou em trechos de palestras sobre diálogo inter-religioso. Selecionei três artigos ainda não traduzidos para o português e desconhecidos da maior parte dos estudantes de missiologia no Brasil que serão analisados cronologicamente, bem como algumas menções sobre o assunto na Teologia Sistemática. Perceberemos nesses textos, uma argumentação por vezes ambígua e paradoxal, oscilando entre a ingenuidade e a lucidez, as convicções de fé pessoais de Tillich e uma grande abertura ao diálogo macro-ecumênico.

Missão como transformação
O primeiro texto é um artigo intitulado “Missions and World History ”, publicado originalmente no jornal “Occasional Bulletin of the Missionary Research Library”, vol. V, n.10, (10 de agosto de 1954) e posteriormente no artigo que estou usando como fonte, que é um dos capítulos do livro editado por Gerald Anderson, com prefácio do bispo Lesslie Newbigin e que contou com a colaboração de alguns dos principais teólogos e biblistas protestantes da época (G. E. Wright, J. Blauw, O. Cullman, K. Barth, H. Lindsell entre outros). Nesse texto, Tillich segue o método da correlação, abordando o tema da missão a partir de sua teologia do Reino de Deus como resposta às questões da história humana. Em linhas gerais, a construção de sua argumentação segue os seguintes passos:
a. A agência que representa o Reino de Deus na história é a Igreja cristã. Esta, porém, não é o Reino de Deus, mas sua antecipação fragmentária;
b. O momento no qual o sentido da história tornou-se plenamente manifesto e que é, por isso, o centro da história, foi o aparecimento do Novo Ser em Jesus como o Cristo;
c. A partir de Cristo, a história é dividida em “antes e depois dele”. Tillich dá a esse detalhe cronológico uma importância teológica: “muitas pessoas, mesmo hoje, ainda vivem antes do evento de Jesus como o Cristo”. Desse modo, o período que antecede a manifestação ou o reconhecimento de Jesus como o Cristo, seja em indivíduos ou culturas, é o período de latência da Igreja: “isso se aplica ao paganismo, judaísmo ou humanismo. Em todos esses grupos e formas de existência humana, a Igreja ainda não está manifesta, mas está presente de forma latente”.
A partir dessa argumentação, Tillich propõe sua definição de missões: “são todas as atividades da Igreja, pelas quais ela age em prol da transformação de si mesma onde quer que ela se encontre em estado de latência, para seu estado manifesto – a recepção do Novo Ser em Jesus como o Cristo”. Essa definição traz algumas implicações, dentre as quais destaca: (a) missão não é simplesmente a tentativa de salvar da condenação eterna o maior número possível de indivíduos dentre as nações do mundo. Essa visão pressupõe separa o indivíduo do grupo social ao qual pertence; (b) missão não é mera função cultural de fertilização das culturas pelo Evangelho; (c) missão também não é a tentativa de unir diferentes religiões, pois isso faria de Cristo algo menos que o centro da história. Missão é, simplesmente, “a tentativa de transformar a Igreja latente – que está presente em todas as religiões mundiais – em algo novo: a Nova Realidade em Jesus como o Cristo. Missão significa Transformação e, por isso é uma função que pertence à Igreja e é o elemento básico de sua vida (...) essa transformação de algo latente em algo manifesto refere-se não apenas a nações e grupos fora da Cristandade, mas também às próprias nações e grupos nominalmente cristãos”.
Tillich não usa a palavra conversion (conversão), mas, “transformation”. Mas o que significa, propriamente, “transformação”? Ele observa que um tema muito discutido no período final do liberalismo clássico foi o do caráter absoluto da religião cristã em relação às demais religiões do mundo. Para muitos teólogos liberais, o cristianismo era parte integrante do mundo ocidental e não deveria interferir no desenvolvimento religioso das culturas orientais. Porém, para Tillich, essa opinião “nega a reivindicação de que Jesus é o Cristo, o portador do Novo Ser. Tal pensamento torna obsoleta tal afirmação, pois aquele que traz o Novo Ser não é uma figura relativa, mas uma figura absoluta e única. O Novo Ser é um, como o Ser-em-si é um”.
Porém, é bom observar que Tillich nunca confunde o Novo Ser, tal como revelado em Cristo, com as expressões históricas e culturais do cristianismo. Ele se recusa a utilizar a expressão “caráter absoluto do Cristianismo”, optando por “universalidade do Cristianismo”, mas reconhece que essa universalidade não pode ser comprovada por argumentos teóricos, pois esses não provam nada – simplesmente reforçam a crença daqueles que já fazem parte do círculo cristão. Isso significa que não é por argumentos teóricos ou mesmo teológicos que se prova a universalidade do cristianismo. Essa prova deve ser pragmática (“It is a pragmatic proof”): “Só a própria atividade missionária pode provar que a Igreja é agente através da qual o Reino de Deus continuamente se atualiza na história”. Isso acontece quando reconhecemos, valorizamos e respeitamos as manifestações religiosas de cada cultura como sinais do estado de latência da Igreja. Tillich reconhece que os símbolos religiosos de todas as culturas revelam um tipo de relacionamento com o Sagrado. É isso que torna possível a missão cristã entre as nações.
Finalmente, Tillich dirige sua atenção para um problema de sua época: o humanismo presente nas sociedades cristãs em suas expressões mais secularizadas. Para ele, todas as críticas humanistas ou seculares que se dirigem contra a Igreja acontecem porque “tudo o que está latente deve tornar-se manifesto, e há, freqüentemente, um forte desejo da parte das pessoas que pertencem à Igreja latente, de se tornarem membros da Igreja manifesta. Isso poderá acontecer, somente se a Igreja manifesta aceitar o criticismo proveniente da Igreja latente”. Isso significa, para ele, que missão é uma via de mão-dupla. Ou seja, não há somente a missão cristã entre não-cristãos, mas também está em curso um processo de transformação da Igreja manifesta por parte daqueles que, tradicionalmente, são alvo da missão promovida pela Cristandade. Em outras palavras, as críticas contra as igrejas cristãs provenientes de religiões não-cristãs, de grupos humanistas ou agnósticos, devem ser levadas em consideração, por serem expressões da “igreja latente”.
Tillich conclui daí, que o que as missões cristãs têm a oferecer não é o cristianismo americanizado, germanizado ou britanizado, mas a mensagem de Jesus como o Cristo, o Novo Ser, pois o centro da história não é o cristianismo nem a Igreja cristã: “O objetivo das missões é proporcionar a mediação de uma realidade que é o critério para toda história humana e não apenas para o judaísmo, o paganismo ou o humanismo. É um critério também contra o cristianismo organizado, pois toda humanidade está sob o julgamento do Novo Ser em Cristo”.
Tillich insere ainda, um último parágrafo, que não estava presente no artigo original de 1954, sobre o que, na época, era denominado “igrejas-novas”, ou seja, grupos cristãos que surgiam à margem das igrejas tradicionais e que hoje conhecemos como igrejas pentecostais, neo-pentecostais, pós-pentecostais ou qualquer outra terminologia. Para Tillich, esses grupos que se organizam de forma livre, criticam a arrogância das igrejas tradicionais e, provam que Jesus é o centro da história: “O fato de que são igrejas novas que desenvolvem sua independência e resistem à identificação do reino de Deus com qualquer forma específica e tradicional de cristianismo, talvez seja o maior triunfo da missão cristã”.
Já observei em outro texto que o uso que Tillich faz das categorias da ontologia aristotélica (“estado latente” e “estado manifesto”) pode suscitar críticas por teólogos tanto de linha conservadora como por teólogos mais liberais por diferentes razões: “Para alguns, tais categorias relativizam a mensagem do Evangelho; outros, por sua vez, dizem que essa definição permanece condicionada ao preconceito que coloca o cristianismo como centro e referencial de plenitude para, a partir daí, julgar as demais religiões como estágios imperfeitos que ainda hão de alcançar aquilo que já alcançamos. É uma crítica que deve ser levada em conta, mas sem nos esquecermos de que, se Cristo deixa de ser nosso centro e referencial, dificilmente poderíamos continuar fazendo teologia cristã”, pois, como afirma o teólogo, Jesus não é uma figura relativa, mas uma figura absoluta e única.
Mas algumas de suas declarações encontraram eco na reflexão missiológica a partir dos anos setenta. Por exemplo, ao afirmar que a “transformação” refere-se não apenas a grupos não-cristãos, mas também às próprias nações e grupos cristãos, Tillich retira das igrejas a pretensão de administrar a Missio Dei ou de ter exclusividade sobre essa. Sendo primeiramente, missão de Deus, ela também se dirige à igreja, pois no contato com o diferente, a Igreja não tem só coisas a transmitir e ensinar, mas também a aprender. Isso aconteceu com a igreja primitiva. Inicialmente restrita aos judeus que aceitavam Jesus, a Igreja posteriormente se universaliza quando entra em contato com os não-judeus. Atos 10 conta que Pedro estava muito reticente quando foi ao encontro de Cornélio. Seus preconceitos eram fortes, mas Deus usou o pagão Cornélio para que o apóstolo - e posteriormente toda igreja - aprendesse o significado da palavra “universalidade”. A Bíblia afirma que o Espírito Santo se manifestou entre os gentios na casa de Cornélio “enquanto Pedro ainda pregava” (At 10.44), o que muito admirou os companheiros do apóstolo. E isso aconteceu antes do batismo de Cornélio. Como era possível? Quando o próprio Pedro relata essa visita no capítulo seguinte, essa mesma surpresa – do agir do Espírito entre os gentios – é reforçada: “Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio... se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” (At 11.15,17). Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: “desculpem... não sei como aconteceu... mas o Espírito já estava lá... nem foi preciso que eu pregasse muito”. A partir de então começa um processo gradativo de abertura da comunidade judaico-cristã aos gentios. Ou seja, houve “transformação”, não apenas em Cornélio, mas também em Pedro e na Igreja. Em todo contato missionário, Deus sempre nos precede e está à nossa espera, no outro.
Missão entre a apologética e o diálogo inter-religioso.
O segundo texto no qual Tillich tece considerações missiológicas é um pequeno livro que reúne quatro palestras (“Bampton Lectures”) apresentadas em 1961 na Universidade de Columbia em 1962. Não é um texto específico sobre missiologia, mas sobre o relacionamento do cristianismo com outras religiões. Os comentários seguintes são baseados na edição em francês .
O primeiro capítulo, intitulado La situation présente: Les religions, Les quase-religions et leurs affrontements, tem como ponto de partida o conceito específico de religião desenvolvido anteriormente por Tillich, como a condição de estar tomado por uma preocupação última que ofereça resposta à questão do sentido da vida. Essa preocupação comporta uma seriedade incondicional e exige o sacrifício de toda preocupação preliminar. A designação religiosa mais comum para o conteúdo de tal preocupação é o termo “Deus”, seja um Deus ou deuses. A partir daí, ele observa que, em nosso mundo, essa preocupação se expressa em diferentes formas, nas religiões mono ou politeístas, nas religiões “não-teístas” e nas “quase-religiões”. Na sua opinião, o que caracterizava a situação das grandes religiões do mundo em sua época era o fato de terem que conviver e enfrentar as “quase-religiões” como os nacionalismos fascistas e o comunismo que exigiam aceitação incondicional e absoluta de símbolos escatológicos que negam suas próprias ambigüidades e distorções, como o Reino de mil anos do 3o Reich ou a sociedade sem classes, por exemplo: “considero o nacionalismo sob a forma radicalizada de fascismo e o socialismo sob a forma radicalizada de comunismo, como os exemplos mais significativos de movimentos quase-religiosos em nosso tempo”. Deve ser lembrado, porém, que a crítica de Tillich ao comunismo soviético e chinês nunca anulou suas firmes convicções socialistas, declaradas desde sua inserção no movimento do Socialismo Cristão quando ainda morava na Alemanha.
Tillich analisa o desenvolvimento tecnológico e o secularismo como armas principais da ofensiva das “quase-religiões” contra as religiões tradicionais, por sua capacidade de enfraquecer tradições culturais e religiosas e cita, como exemplos, o desenvolvimento técnico-industrial do Japão e o fascismo japonês, referindo-se, naturalmente, à aliança japonesa com a Alemanha e a Itália na 2a guerra mundial e, mais à frente, o surgimento do nacionalismo indiano. Nos anos seguintes, o nacionalismo e o desenvolvimento tecnológico cresceram muito na Índia e no Paquistão. Apesar da pobreza extrema da maior parte da população, Índia e Paquistão fazem parte do restrito grupo de países com arsenal atômico e convivem em estado de permanente tensão política. No caso do secularismo, seu efeito cultural mais visível é a indiferença religiosa. As religiões tradicionais perdem seu vigor e se enfraquecem em uma de suas funções sociais que é dar coesão e unidade ao grupo. A conseqüência desse processo é que as práticas religiosas passam para o âmbito privado, sendo compartilhadas por pequenos grupos. Assim, o caminho fica preparado para as “quase-religiões” que se oferecem para preencher o vazio das tradições religiosas, exaltando a um nível absoluto, valores necessários à auto-estima de todo grupo social, como a idéia de Nação. Ele observa que, na época pré-secular, a idéia de Nação estava unida à de Religião – a coesão social era garantida pela uniformidade religiosa. Nação e religião não se distinguiam, por exemplo, no Império Bizantino, na Igreja Ortodoxa grega e russa, em certas regiões da Alemanha luterana, no xintoísmo, confucionismo, etc, algo que foi separado com o conceito de estado-leigo. Na reforma inglesa, o rei se tornou chefe supremo da Igreja e durante um tempo, somente os anglicanos podiam desfrutar de certos privilégios políticos.
Tillich reconhece que há dois elementos que determinam uma nação: a afirmação de sua natureza e a consciência de sua vocação. Os dois juntos formam o nacionalismo. O perigo é a perversão desse nacionalismo. O nacionalismo deturpado torna-se uma “quase-religião” fascista. Como exemplos, ele cita Grécia, Alemanha, os judeus (a idéia da Aliança), França, China e os EUA com sua idéia de liberdade. Diga-se de passagem, hoje em dia é comum referir-se à “religião civil americana”, fortalecida na era Reagan e atualmente liderada por George Bush. Algo semelhante ocorre com o comunismo – tem raízes religiosas (profetismo e escatologia) que o faz atacar sistemas sacramentais oferecendo propostas éticas e sociais de mudança na história. Todos esses movimentos são ameaças à paz mundial.
Tillich inicia o segundo capítulo (Principes d’un jugement chrétien sur les religions non chrétiennes) com uma afirmação de ordem geral que ele considera fundamental para todas as religiões e grupos sociais: a de que, se um grupo – ou um indivíduo – crê possuir uma verdade, ele recusará por princípio, toda afirmação de uma verdade que se oponha à dele e esse é um direito que não pode ser negado. Portanto, “é natural e inevitável que o cristão proclame a afirmação fundamental do cristianismo de que Jesus é o Cristo e que ele recuse tudo o que contradiga essa doutrina (...) isso significa que o cristianismo, no seu encontro com as outras religiões e com as quase-religiões, deve rejeitar suas afirmações à medida que elas se opõem, implícita ou explicitamente, ao princípio cristão”.
A questão é saber qual a natureza dessa rejeição, se total ou parcial. A rejeição total impossibilita qualquer relação. Na rejeição parcial há mais tolerância, mas continuam a existir pontos intocáveis e a conseqüência é que a relação torna-se geralmente superficial. Ele propõe uma relação de “união dialética de recusa e reconhecimento recíprocos, com todas as tensões, incertezas e flutuações que tal dialética implica”. Para ele, se considerarmos a história do cristianismo como um todo, observaremos uma predominância dessa última posição na atitude cristã em relação às religiões não-cristãs. Essa observação contradiz a opinião geral de que o cristianismo tem uma atitude exclusivamente negativa em relação a outras religiões. Ele busca exemplos dessa atitude já na tradição judaica que afirmava ser Javé superior aos outros deuses porque era o Deus da justiça e na autocrítica profética que ameaçava o povo de Israel por sua injustiça. Isso significa que “o monoteísmo exclusivo da religião profética não é a afirmação do caráter absoluto de um deus particular contra os outros, mas a afirmação do valor universal da justiça (...), um princípio que transcende todas as religiões particulares”. Isso é reafirmado por Jesus em Mateus 25 e na parábola do bom-samaritano.
Na seqüência, Tillich cita o evangelho joanino e o apóstolo Paulo, argumentando que João sublinha mais que os sinóticos o caráter único de Cristo, mas o faz à luz da idéia mais universal de sua época: o Logos. Desse modo, “a pessoa de Jesus é libertada de um particularismo que a teria tornado propriedade de um grupo religioso específico”. Paulo, por sua vez, transcende o legalismo judaico e a libertinagem pagã, incluindo ambos na escravidão do pecado e na necessidade de redenção. Porém, “esta redenção não provém de uma nova religião que seria a religião cristã, mas de um evento da história que julga todas as religiões, inclusive a própria religião cristã”. Esse evento é a manifestação do Novo Ser em Cristo. Da Patrística, Tillich destaca a importância da doutrina do Logos, o Verbo, presente em todas as culturas, preparando-as para sua manifestação definitiva numa pessoa histórica, o Cristo. Essa atitude deu ao cristianismo primitivo uma característica sem precedentes – de não rejeitar absolutamente as demais religiões e, ao mesmo tempo, não aceitá-las sem reservas.
Percorrendo a tradição cristã, Tillich destaca a utilização de conceitos de outras culturas e religiões (especialmente o helenismo) pela teologia cristã e observa que esses conceitos não eram meramente filosóficos, mas também religiosos (physis, hypostasis, ousia, prosopon, Logos, etc). Para ele, o cristianismo primitivo nunca se considerou sob o prisma da exclusividade. Ao contrário, via-se como religião universal, pois a verdade, não importa sua procedência, é cristã. Ele observa que a igreja primitiva moldou suas estruturas litúrgicas a partir de moldes judaicos e das religiões de mistério e organizou-se sob formas jurídicas romanas. A partir daí, propõe traduzir as palavras de Jesus, “sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito”, por “sede universais, como vosso Pai Celeste é universal” e observa, na nota de rodapé, que a palavra “Universal” deve ser entendida como “inclusiva”, ou seja, “que inclui todos e não exclui ninguém”.
É bom observar que, para Tillich, esse universalismo não é sincretismo, pois há um critério último: a afirmação de que Jesus é o Cristo. Ele afirma que, durante séculos, o cristianismo foi universal na Europa e que essa atitude só mudou depois do século XII, quando se intensificaram os conflitos com o Islamismo. A insegurança motivou as cruzadas e o retrocesso posterior, quando o cristianismo fechou-se e fanatizou-se, desenvolvendo um sentimento de medo para com tudo que fosse estranho e passando a encarar com desconfiança tudo que lhe fosse externo. Particularmente, considero essa afirmação bastante discutível, pois muito antes do século XII, as missões cristãs nas ilhas britânicas lutaram fervorosamente para exterminar a religião celta e o mesmo aconteceu em outras regiões.
Mas, em apoio a essa tese, Tillich apresenta uma linha de pensamento que reconhece a existência de uma revelação além dos limites do judaísmo e do cristianismo: Nicolau de Cusa, Erasmo, Zwínglio (que admitia a presença do Espírito além das fronteiras da Igreja cristã), os socinianos que foram os predecessores dos unitarianos e até certo ponto, da teologia protestante liberal, ensinando a existência de uma revelação universal operando em todas as épocas da história, Locke, Hume e Kant, que julgaram o cristianismo à luz do critério da Razão e se serviram do mesmo critério para julgar as demais religiões, o que permitiu o surgimento da filosofia da religião. Cita ainda Schleiermacher e seu mestre, Troeltsch, para quem o cristianismo é a realização de tudo o que há de positivo nas demais religiões. Por outro lado, reconhece que sempre houve também quem enfatizasse o caráter particular e absoluto do cristianismo. Essa linha predominou na teologia de alguns reformadores, na ortodoxia protestante, no pietismo e culminou na neo-ortodoxia de Barth. Embora reconheça que a posição de Barth estava relacionada ao seu confronto com o nazismo, afirma que “o preço que ele (Barth) teve que pagar por essa resistência coroada de sucesso foi a estreiteza teológica e eclesiástica” porque Barth e toda sua escola abandonaram a doutrina clássica do Logos. A conclusão desse capítulo é que ”o cristianismo não pode se contentar em recusar pura e simplesmente as religiões ou quase-religiões com as quais convive. A relação com elas deve ser essencialmente dialética, e isso demonstra, não a fraqueza do cristianismo, mas, ao contrário, sua grandeza”.
A partir dessas premissas, Tillich esboça no capítulo seguinte, um exercício de diálogo entre cristianismo e budismo (Un dialogue entre chrétiens et bouddhistes), servindo-se do método dialético da correlação. Trata-se de um capítulo bastante delicado e até diríamos, ingênuo, pois na verdade, não se trata propriamente de “diálogo”, mas de monólogo, posto que não há um interlocutor budista. Tillich trabalha com “tipos ideais” de cristianismo e budismo. Esses “tipos” são idéias que nos ajudam a compreender e distinguir religiões, mas não existem efetivamente no tempo e no espaço devido às variações particulares de indivíduos e grupos. Ou seja, os tipos não são estáticos, sobretudo num mundo onde há cada vez mais interações culturais e todos os sistemas religiosos acabam se permeando e se influenciando mutuamente. Ele chega até mesmo a estabelecer (sozinho!) os pressupostos para esse “diálogo”, que seriam os seguintes:
a. Cada participante do diálogo deve reconhecer o valor das convicções religiosas do outro e concordar que, em última análise, ela se fundamenta numa experiência revelatória;
b. Os participantes devem representar posições essenciais de maneira convicta para que o diálogo seja uma confrontação série, e não algo superficial;
c. As duas partes devem estar abertas à crítica do outro;
d. Deve-se manter como pano-de-fundo, a referência contínua ao secularismo e às quase-religiões. Assim, o diálogo ultrapassaria o nível das discussões sobre sutilezas dogmáticas e se aprofundaria em problemas comuns a ambas as religiões à luz da situação mundial.
A partir daí, Tillich inicia reconhecendo que a pergunta à qual todas as religiões e quase-religiões oferecem uma resposta é a do fim inerente a toda existência – o telos. É a partir dessa pergunta e resposta que deve se estabelecer o diálogo, e não a partir da comparação de conceitos divergentes sobre Deus, o ser humano ou a salvação. No cristianismo, o telos é a realização de todas as coisas (ser humano e natureza) no Reino de Deus; no budismo, o telos é a unificação de todas as coisas no Nirvana. São duas expressões simbólicas. Reino de Deus é um símbolo social, político e pessoal, enquanto Nirvana é um símbolo ontológico. Contudo, o diálogo é possível porque as duas representações se fundamentam numa apreciação negativa da existência. O Reino de Deus se estabelece em oposição aos reinos deste mundo e contradiz as estruturas de poder demoníaco que dominam a história e a vida pessoal; o Nirvana opõe ao mundo das aparências, a verdadeira realidade da qual procedem todas as coisas e à qual tudo deve retornar.
Mas apesar dessa base comum, há algumas diferenças essenciais: o cristianismo vê o mundo como criação de Deus e o considera essencialmente bom (ou seja, o julgamento negativo do cristianismo sobre ao mundo refere-se às condições da existência e não à sua essência), enquanto o budismo considera o mundo na ótica da queda ontológica na finitude. As conseqüências dessas duas perspectivas são fundamentais – no Cristianismo, o absoluto é simbolizado a partir de categorias pessoais, enquanto os símbolos budistas são transpessoais; o cristianismo responsabiliza o ser humano pela queda, enquanto no budismo, o ser humano é considerado prisioneiro do movimento circular da vida, que produz cegueira e sofrimento. Ainda assim, Tillich vê amplas possibilidades de diálogo se dermos atenção a certas nuances de cada religião. Por exemplo, na doutrina cristã clássica, o termo “Deus” designa o Último, o Incondicional e o Infinito, que jamais pode ser identificado como um ente condicionado à existência.
O diálogo pode se desenvolver também no plano ontológico, por exemplo: subjacentes às expressões Reino de Deus e Nirvana, encontramos dois princípios ontológicos diferentes, mas não necessariamente antagônicos: “participação” e “identificação”. A escatologia paulina fala da consumação de todas as coisas em Deus, quando Deus for tudo em todos e o símbolo joanino “vida eterna” pode ser entendido como a participação individual na eterna alegria divina, perspectiva semelhante à esperança budista de felicidade eterna além da história. O símbolo cristão fala mais em “participação” (participamos, como indivíduos, do Reino de Deus e, enquanto indivíduos, desfrutamos a felicidade eterna). Já o símbolo budista prioriza a “identificação” de todas as formas de existência no Nirvana.
Esses princípios produzem atitudes diferentes em relação à natureza, à sociedade e à história, mas que convergem em alguns momentos. Com relação à natureza, a tradição judaico-cristã, ao considerar o ser humano “coroa da criação”, favoreceu uma atitude de distanciamento que impulsionou a manipulação da natureza e o desenvolvimento da tecnologia, com conseqüências desastrosas do ponto de vista ecológico. Mas essa mesma tradição cristã dá testemunho de atitudes de identificação do ser humano com a criação, como no caso da mística franciscana e o romantismo alemão. Em termos de ética social, o conceito de “participação” conduz ao ágape (viver, historicamente, a antecipação do amor divino na sociedade), enquanto o conceito de “identificação” conduz à compaixão (“sofrer com”). Em relação à história, onde predomina o símbolo Reino de Deus, a história é compreendida não apenas como o cenário no qual se decide o destino dos indivíduos, mas como o movimento no qual se cria o novo e que se dirige para uma novidade absoluta que é simbolizada pela expressão “novos céus e nova terra”. Ou seja, o Reino de Deus é um símbolo com potencial revolucionário e se o cristianismo tomar esse símbolo com seriedade, manifestará uma vontade revolucionária de transformar radicalmente a sociedade. Para Tillich, “não há nada análogo no budismo. O objetivo do budismo não é transformar a realidade, mas libertar-se dela (...) é impossível derivar da idéia de Nirvana a idéia de criar algo novo na história ou qualquer impulso de transformação da sociedade”.
A meu ver, a leitura desse capítulo serve-nos apenas para compreender um pouco da metodologia teológica de Tillich na análise que faz de uma outra religião tentando identificar pontos de contato com a mensagem cristã. Porém, por mais que tenha se esforçado por estabelecer um diálogo frutífero com o budismo, o capítulo é muito apologético. Não se trata de um diálogo real, pois falta um interlocutor budista para responder a Tillich (e eu, particularmente, desconheço qualquer resposta budista posterior a esse texto). Na verdade, ao invés de “diálogo”, trata-se de um monólogo a partir de seus próprios referenciais, conduzido num tom bastante apologético, visando apresentar ao “tipo-ideal” de budismo que ele conhecia, a superioridade do símbolo cristão do Reino de Deus em relação ao Nirvana.
No quarto capítulo, (Le jugement que le christianisme porte sur lui-même à lumière de sa rencontre avec les grandes religon”) Tillich afirma que, no contato com outras religiões, o cristianismo tem sido julgado e enriquecido e passa a esboçar algumas idéias com o objetivo de identificar de que modo o diálogo inter-religioso pode ajudar o cristianismo a se auto-criticar. Ele relembra alguns pontos já apresentados anteriormente, sobretudo sua convicção de que, o cristianismo, por sua natureza, é aberto a todas as contribuições e essa abertura revela sua grandeza. Ao mesmo tempo, reconhece que há dois fatores que contribuem para limitar essa disposição do cristianismo em acolher críticas externas: a hierarquia das igrejas e as polêmicas doutrinárias, porque essas, ao definir dogmas sempre geram retrocessos, aumentam a disposição para condenar e diminuem a capacidade de aceitar críticas externas uma vez que fecham as portas para o diálogo. Aqui aparece uma consideração missiológica. Conforme Tillich, a maioria dos empreendimentos missionários contribuiu para conduzir o cristianismo a ocupar o lugar de uma religião entre as outras, ao invés de permanecer como um centro de catalisação de elementos positivos das mesmas: “à medida que o cristianismo negligenciou a aplicação do julgamento da cruz de Cristo contra si mesmo, desenvolveu-se como uma religião particular ao lado das outras”.
Na visão de Tillich, se o cristianismo não quer se considerar como uma religião ao lado das outras, deve combater aqueles elementos que lhe caracterizam como uma religião: os mitos e cultos. Ele vê sinais dessa “luta por Deus contra a religião” nos profetas do Antigo Testamento contra o próprio culto judaico e as tendências politeístas da religião nacional. Essa atividade profética “foi uma espécie de ‘desmitologização’ que elevou Deus à categoria de Deus do universo, face aos deuses das nações que são ‘nada’ (...) Deus recusou ser um deus”. Esse processo continuou no Novo Testamento, particularmente na crítica de Jesus contra o Templo e em sua reinterpretação da Lei; na afirmação paulina de que os rituais da lei foram abolidos pela revelação em Cristo e na visão joanina de que a “vida eterna” é aqui e agora e que o juízo se realiza quando acolhemos ou rejeitamos a luz. Tillich interpreta essas afirmações como a mensagem de um “Deus acima de Deus” e identifica a continuidade desse processo na resistência dos pais da Igreja em aceitar qualquer representação de Deus que o fizesse semelhante aos deuses contra os quais lutavam, na convicção dos reformadores de que Deus está presente mesmo nos domínios profanos e no Iluminismo que rejeitou mitos e cultos, ficando apenas com um conceito filosófico de Deus como garantia do imperativo categórico. Tudo indica que aqui o teólogo chega a um impasse, pois em seguida ele mesmo reconhece a impossibilidade de eliminar os mitos e ritos da experiência cristã na história: “não é possível eliminar o mito e o rito, apesar de todas as tentativas de desmitologização e desritualização. Eles ressurgem sempre (...) a luta por Deus contra a religião é travada na situação paradoxal de nos servirmos da religião para combater a própria religião”.
Na conclusão, Tillich observa que a única possibilidade de testemunho cristão junto às religiões não-cristãs é renunciar à estratégia da conversão em prol do diálogo. Esse diálogo poderá se desenvolver a partir de uma ameaça comum a todas as religiões: a insegurança frente ao adiantado processo de secularização e desumanização. Esse diálogo não implica em uma fusão de religiões porque isso destruiria as características peculiares que dão a cada religião seu dinamismo; também não se trata de propor a supremacia de uma religião particular sobre as outras. Tampouco devemos esperar que as religiões morram por si só, pois a questão do sentido último da vida sempre acompanhará os seres humanos. No que se refere ao cristianismo, Tillich rejeita a proposta de abandonar nossa própria tradição religiosa em prol de uma “idéia universal” que não seria mais que uma abstração. O caminho seria outro: o aprofundamento em nossa própria tradição religiosa através da oração, meditação, reflexão e ação, porque “na profundidade de toda religião viva há um ponto onde a religião como tal perde sua importância, rompe a particularidade e se eleva a uma liberdade espiritual que lhe dá uma visão da presença do divino em todas as expressões do sentido último da vida humana”.
Esse talvez seja um dos textos mais ambíguos de Tillich. Ao mesmo tempo em que se esforça de modo sincero por estabelecer um diálogo com outras religiões, ele mesmo não consegue abandonar suas convicções de que o cristianismo representa um tipo superior de atitude religiosa, que se autocritica e que está sempre aberto a se enriquecer de outras influências religiosas. Por outro lado, há instigantes provocações em seu texto que mereceriam melhor consideração, como por exemplo, a afirmação de que o cristianismo é capaz de absorver e reinterpretar influências de outras religiões. De fato, o cristianismo é uma das poucas tradições religiosas capaz de aceitar e incorporar como escritura sagrada de caráter revelatório, o texto de outra religião, no caso o judaísmo. O que nós, cristãos, chamamos “Antigo Testamento” continua a ser a escritura sagrada do judaísmo. O cristianismo relê esse texto à luz da experiência de Jesus Cristo como revelação plena de Deus e o tem como “Palavra de Deus”. Esse processo desenvolveu-se de modo natural na história da Igreja cristã, que usou amplamente o Antigo Testamento até que o próprio cânon cristão estivesse definido. Porém, a canonização dos escritos que hoje compõem o Novo Testamento, infelizmente pôs fim a esse processo, ao mesmo tempo em que excluiu escritos cristãos tão antigos quanto os que hoje fazem parte do Novo Testamento. Seria muito bom se hoje o cânon do Novo Testamento fosse reconsiderado incluindo outros evangelhos e escritos primitivos. Mais desafiante ainda seria compreender que a Palavra de Deus, o seu Logos eterno, não se limita à tradição judaico-cristã. Desse modo, poderíamos aceitar a revelação divina transmitida em textos de outras religiões como o Bhagavad-Gita, Upanishades, etc e aprendermos com eles, pois “Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras” (Hb 1.1).

Missão como representação do Reino de Deus
Cronologicamente, o terceiro texto que nos interessa é o terceiro volume da Teologia Sistemática, publicado em 1963, onde ele trata daquilo que, tradicionalmente chamamos pneumatologia, eclesiologia e escatologia. É na parte II, intitulada “A Presença Espiritual”, que encontramos algumas referências missiológicas. O argumento é construído da seguinte maneira: o Espírito é a resposta às ambigüidades da vida (sejam individuais ou comunitárias). A Presença Espiritual se manifesta no espírito humano, levando ao reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo e cria a Comunidade Espiritual, que vive sob o impacto criativo desse evento central. Essa comunidade é “invisível”, “escondida”, “aberta somente à percepção da fé”, mas apesar disso real, irresistivelmente real (TS: 500). Porém, essa comunidade não é idêntica às igrejas cristãs. Essa Comunidade está latente antes do encontro com a revelação central, e está manifesta depois desse encontro e do reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo. “As igrejas representam a Comunidade Espiritual numa auto-expressão religiosa manifesta, enquanto que os outros representam a Comunidade Espiritual em latência secular” (TS: 502). Esses “outros” são “alianças de jovens, grupos de amizade, movimentos educacionais, artísticos, políticos, e mesmo de forma óbvia, indivíduos, sem qualquer relação visível uns com os outros nos quais é sentido o impacto da Presença Espiritual, embora sejam indiferentes ou hostis às expressões visíveis de religião. Eles não pertencem a uma igreja, mas não estão excluídos da Comunidade Espiritual”. (TS: 502).
Num capítulo anterior, Tillich já tratara da “Presença Espiritual e a antecipação do Novo Ser nas religiões”. Ele retoma agora as mesmas idéias, argumentando em favor de uma Comunidade Espiritual “latente” no povo de Israel, no islamismo, nas comunidades adoradoras dos grandes deuses mitológicos, nos grupos sacerdotais esotéricos, no misticismo clássico da Ásia, etc. O estado é de latência porque “o critério último, a fé e o amor do Cristo ainda não apareceu àqueles grupos... eles são dirigidos inconscientemente ao Cristo, mesmo quando o rejeitam caso ele seja apresentado a eles mediante a pregação e as ações das igrejas cristãs” (TS: 503).
Como se dá o relacionamento entre os membros da Comunidade Espiritual manifesta (os cristãos) e os da Comunidade Espiritual latente? A resposta é dada de modo bastante natural: “Toda vez que membros da igreja se encontram com aqueles que estão fora da igreja, são missionários da igreja, voluntária ou involuntariamente. Seu próprio ser é missionário” (TS: 532). Trata-se aqui, muito mais de testemunho visando a transformação daquela Comunidade Espiritual latente em Comunidade manifesta.
Tillich reconhece, porém, que é difícil para qualquer igreja separar a mensagem cristã da cultura particular dentro da qual é pregada. “Num certo sentido é impossível, porque não existe mensagem cristã abstrata. Ela está sempre incorporada a uma cultura particular” (TS: 553). Em todo caso, há de ser sempre um esforço pautado pelo reconhecimento prévio de todo cristão de que não se dirige aos não-cristãos para levar-lhes algo que não tenham, mas em testemunhar em amor e serviço, o poder do Novo Ser manifesto em Jesus, a fim de que os “cristãos latentes” o reconheçam. É uma posição semelhante à esboçada por Karl Rahner, da “presença de Cristo nas religiões”. Mas não é idêntica, pois o conceito de Rahner mais popularizado foi o de “cristãos anônimos” - todos que aceitam livremente a oferta da autocomunicação de Deus, mediante a fé, a esperança e a caridade, mesmo que do ponto de vista social (através do batismo e da filiação à Igreja) e de sua consciência objetiva (através de uma fé explícita, nascida da escuta da mensagem cristã) não tenham formalmente assumido o cristianismo. Porém, Tillich aqui evita usar o termo “cristãos latentes” ou mesmo “Igreja latente”, como fizera no primeiro artigo citado. Ou seja, nessa parte da Teologia Sistemática não há uma identificação tão clara e explícita da Comunidade Espiritual manifesta com as igrejas cristãs, mas sim com o reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo, embora na parte V, essa identificação volte a ocorrer parcialmente. Outra diferença está no fato de que, a posição de Rahner foi acusada de comodista por von Balthasar, por esquivar-se da tarefa missionária, enquanto que, para Tillich, trata-se de um elemento imprescindível da Comunidade Espiritual nascida do Pentecostes - “o impulso missionário daqueles que foram tomados pela Presença Espiritual. Era-lhes impossível não passar adiante a mensagem daquilo que lhes tinha acontecido, a todo mundo, porque o Novo Ser se a humanidade como um todo e mesmo o próprio universo não estivessem incluídos nele. À luz do elemento de universalidade no relato de Pentecostes devemos dizer que não existe Comunidade Espiritual sem abertura a todos os indivíduos, grupos e coisas e o impulso de incorporá-los a si” (TS: 501).
Na Teologia Sistemática temos então um movimento que evita centralizar a posse da mensagem salvífica na Igreja. Essa mensagem é o poder do Novo Ser em Cristo, capaz de vencer as ambigüidades da religião, da cultura e da moral e oferecer fragmentariamente (embora de modo real) a vitória sobre as diversas marcas da alienação através da regeneração (participação no Novo Ser), justificação (aceitação por parte Novo Ser) e santificação (transformação pelo Novo Ser). Essas palavras são definidas por Tillich da seguinte maneira: “Regeneração... é o novo estado de coisas, o novo eon, que foi trazido pelo Cristo; o indivíduo ‘entra’nele, e ao fazê-lo, ele próprio participa dele e é renascido mediante essa participação... regeneração e conversão, entendidas nesse sentido, tem pouco coisa em comum com a tentativa de criar reações emocionais apelando ao individuo em sua subjetividade. Regeneração é o estado de haver sido transportado para a nova realidade manifesta em Jesus como o Cristo. As conseqüências subjetivas são fragmentárias e ambíguas e não constituem a base para reivindicar participação no Cristo. Mas a fé que aceita Jesus como o portador do Novo Ser é essa base” (TS: 380). Justificação “significa literalmente, ‘tornar justo’, a saber, tornar o homem aquilo que ele é essencialmente e do qual está separado... é um ato de Deus que não é dependente do homem, um ato pelo qual Ele aceita aquele que é inaceitável... não existe nada no homem que obrigue Deus a aceitá-lo. Mas o homem deve aceitar exatamente isso. Ele deve aceitar que é aceito; ele deve aceitar a aceitação. E a questão é: como é possível isso, apesar da culpa que o torna hostil a Deus? A resposta tradicional é: ‘por causa de Cristo’”. (TS: 381). Santificação, “é o processo no qual o poder do Novo Ser transforma a personalidade e a comunidade, dentro e fora da Igreja” (TS: 382).
Qual seria então a função das igrejas enquanto Comunidades Espirituais manifestas, que reconhecem o poder salvífico de Deus em Cristo e que vivem desse poder? Algumas pistas são dadas na parte V da Teologia Sistemática, seção II.B.1. As igrejas são representantes do Reino de Deus na história. O símbolo “Reino de Deus” é, para Tillich, “o mais importante e o mais difícil do pensamento cristão e um dos mais críticos, tanto para o absolutismo político quanto eclesiástico” (TS: 658). É um símbolo de conotações políticas, sociais (inclui as idéias de paz e justiça), pessoais (confere sentido eterno ao indivíduo com a promessa de participar das bênçãos desse reino) e universais (não é um reino apenas para os seres humanos, mas envolve a realização da vida sob todas as dimensões). As igrejas, para Tillich, são representantes do Reino de Deus na história, apesar de todas as ambigüidades eclesiásticas: “A representação do Reino de Deus pelas igrejas é tão ambígua como a incorporação da Comunidade Espiritual nas igrejas”. (TS: 671).
Aqui são necessários alguns esclarecimentos que lançam luzes sobre o relacionamento entre cristãos e não-cristãos. Tillich argumenta que “não existiam igrejas manifestas antes da manifestação central do Novo Ser no evento sobre o qual se baseia a igreja cristã, mas havia e há igreja latente em toda a história, antes e depois desse evento... portanto, se dizemos que as igrejas são forças de vanguarda no impulso em direção à plenitude da história, devemos incluir a igreja latente nesse julgamento. E podemos dizer que o Reino de Deus na história é representado por aqueles grupos e indivíduos em que a igreja latente é efetiva” (TS: 672). Isso significa que, todo movimento missionário cristão em direção a grupos não-cristãos implica na abertura para que também sejamos abençoados pela Presença Espiritual nesses grupos.

Missão como aprofundamento na mística e despertamento da profecia
O quarto texto no qual Tillich nos oferece algumas impressões a respeito do relacionamento do cristianismo com as outras religiões é o último artigo por ele escrito, uma conferência apresentada em 12/10/1965 para um simpósio sobre história das religiões, organizado por Mircea Eliade na Universidade de Chicago. [30] É um texto relativamente curto, no qual Tillich, logo no início, evita duas possíveis abordagens sobre esse tema: a dos teólogos que rejeitam todas as demais religiões, com exceção daquela da qual ele é teólogo (exemplifica citando Barth e Brunner) e a dos teólogos radicais da secularização. Ele usa a expressão “teologia-sem-Deus”, referindo-se, provavelmente, a um movimento que fez certo estardalhaço nos círculos norte-americanos da década de sessenta e que ficou conhecido como “Teologia da morte de Deus”, “Teologia do ateísmo cristão” ou simplesmente “Teologia radical”. Os mais conhecidos representantes desse círculo são Paul van Buren, William Hamilton, Gabriel Vahanian e Thomas Altizer. Há quem associe também Harvey Cox a esse movimento, sobretudo por seu livro The Secular City. Os pressupostos anunciados por Tillich no início da conferência são os seguintes:
1. As experiências revelatórias são universalmente humanas. Existe revelação em todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si mesmo;
2. O ser humano recebe a revelação no contexto de sua finitude humana. Devido a nossas limitações biológicas, psicológicas e sociológicas, a recepção dessa revelação sempre será distorcida, especialmente se a religião toma a revelação como um meio para atingir um fim e não como um fim em si mesma;
3. Não há experiências revelatórias isoladas na história humana, mas todo um processo revelatório, no qual os limites da adaptação e os erros da distorção estão sujeitos à crítica mística, profética e secular.
4. Pode haver um acontecimento central na história das religiões que uma os resultados positivos das diferentes recepções da revelação. Tal acontecimento possibilitaria uma teologia concreta de significado universal.
5. A história das religiões não se desenvolve dentro da história da cultura, mas em seus subterrâneos, ou em suas profundezas.
Para Tillich, o teólogo que aceita esses pressupostos poderá defender, com seriedade, a importância da história das religiões para a teologia contra os representantes das duas abordagens supracitadas (a barthiana e a da teologia radical), embora possa - e deva! - aceitar a crítica da secularização. O teólogo deve, também, assumir o fato de que a religião, como uma estrutura de símbolos intuitivos e ativos (que implica em mitos e ritos) estará sempre presente na história humana, mesmo nas culturas mais secularizadas, pois o espírito sempre busca corporificar-se, a fim de se manifestar como algo concreto e efetivo. Essa atitude implica em enfrentar com seriedade a ortodoxia exclusivista e o secularismo radical, porque ambos são reducionistas e tendem a eliminar todos os elementos religiosos do cristianismo, com exceção, talvez, da pessoa de Jesus – “o grupo neo-ortodoxo faz de Jesus o único lugar onde se pode ouvir a palavra da revelação; o grupo secular procede do mesmo modo, transformando-o no mais perfeito representante da secularização. Trata-se de uma redução drástica tanto da imagem como da mensagem de Jesus. Esta se limitaria a ser uma corporificação do chamado ético ou de uma função social e, por conseguinte, isso seria a única coisa que restaria da mensagem de Cristo”.
Ao mesmo tempo em que rejeita a visão ortodoxa tradicional de que as religiões não-cristãs são perversões de uma espécie de revelação original, carentes de valor para a teologia cristã por não serem portadoras da revelação ou da salvação, Tillich busca um ponto de equilíbrio entre a valorização positiva da revelação universal e a crítica secular. Ele reconhece a influência positiva em seus tempos de estudante da antiga Escola da História das Religiões, que lhe mostrou como a tradição bíblica foi enriquecida pelas religiões pagas e lhe abriu os olhos para compreender a revelação progressiva na história rumo ao kairos, a plenitude do tempo, com a manifestação de Jesus como o Cristo. Isso lhe abre a brecha para levantar a pergunta sobre a existência de outros kairoi na história das religiões.
Tillich chama sua abordagem de “dinâmico-tipológica”, reconhecendo que “não existe (na história) um desenvolvimento progressivo que evolua de maneira constante, mas há elementos da experiência do Sagrado que sempre estão presentes”. Quando esses elementos predominam numa cultura, criam um estilo religioso particular. Por isso, todas as religiões repousam sobre uma base sacramental: a experiência do Sagrado em seu caráter misterioso.
Mas há também um segundo elemento, presente em muitas religiões, a saber, tendências críticas contra a demonização do sacramental, transformando-o em objetos manipuláveis. O primeiro desses elementos críticos é o místico, ou seja, a recusa a conformar-se com expressões concretas do Último, do Transcendente. Todos os movimentos místicos compreendem as corporificações culturais do Sagrado como secundárias e busca transcendê-las rumo ao mais elevado, ao Último. Outro elemento é o profético que rejeita a sacramentalização por causa de suas conseqüências demoníacas, tais como a negação da justiça em nome da santidade. Mas Tillich reconhece que se o elemento profético suprimir totalmente o sacramental e o místico, se transformará em puro moralismo e secularismo. Por isso, é preciso unir esses três elementos (sacramental, místico e profético) numa religião que não se identifica com nenhuma das religiões particulares, nem mesmo o cristianismo e que ele chama “Religião do Espírito Concreto”.
Apesar da hesitação em identificar essa tal “Religião do Espírito Concreto” com o cristianismo, Tillich refaz o mesmo movimento de avanço-e-retrocesso do texto Le Christianisme et les religions. Dá um grande passo macro-ecumênico e, de repente, retorna ao particularismo cristão: “Atrevo-me a dizer (logicamente, na qualidade de teólogo protestante) que não existe exemplo maior de uma síntese desses três elementos que a doutrina paulina do Espírito. Ali temos os dois elementos fundamentais: a união do extático e do racional. Há êxtase, mas sua expressão máxima é o amor no sentido de ágape. Há êxtase, mas sua outra criação é a gnosis, o conhecimento de Deus”.
Assim, toda história da religião é contemplada a partir daí: uma luta em prol da Religião do Espírito Concreto; uma luta de Deus a partir da religião e contra ela. Como cristãos, vemos a vitória decisiva dessa luta na manifestação de Jesus como o Cristo e em sua vitória na cruz e ressurreição sobre os poderes demoníacos. Esse seria o critério maior do cristianismo - a própria cruz de Cristo: “Aquilo que se produziu ali de maneira simbólica, que nos outorga o critério, também ocorre, de modo fragmentário, em outros lugares, em outros momentos, e continuará acontecendo mesmo quando estes outros lugares não estejam conectados histórica ou empiricamente com a cruz”. A partir dessas pistas, Tillich finaliza sua conferência anunciando seu desejo de reconstruir sua Teologia Sistemática a partir do diálogo inter-religioso e não mais a partir do confronto com os poderes da secularização. Essa era sua esperança quanto ao futuro da teologia.
A “Religião do Espírito Concreto” seria o telos da história das religiões, de características teônomas. É a unidade do que foi descrito como “elementos” na experiência do Sagrado (a base sacramental, o elemento místico e o profético). Embora nessa palestra, Tillich afirme que ela não se confunde com o cristianismo, sabemos que em outra palestra anterior, nunca publicada ele tenha sugerido que o Cristianismo é a única religião que combina esses três elementos.
Sempre é possível aprender algo de Tillich. Nessa que foi sua última palestra, a principal contribuição para os missiólogos está na defesa de que as experiências revelatórias a partir das quais nascem as religiões são universalmente humanas e que é preciso identificar a revelação em todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si mesmo; a recepção e transmissão cultural dessa revelação, porém, sempre permanecerá distorcida devido às limitações humanas. Resta, então, ao missionário cristão em contato com outras religiões, evitar o confronto teológico e dialogar a partir de dois pólos: o místico e o profético. Ou seja, aprofundar-se na própria mística cristã, a fim de perceber que, no seu conteúdo último, a experiência mística cristã não difere da experiência mística de outra religião e, ao mesmo tempo, identificar e valorizar os elementos proféticos da outra religião.

Pistas para uma reflexão missiológica
Nos estudos atuais sobre o relacionamento do cristianismo com outras religiões há, pelo menos três diferentes atitudes que têm sido identificadas como “exclusivismo, inclusivismo e paralelismo”. O exclusivismo se funda sobre um conceito de verdade que reduz a revelação e a salvação de Deus à linguagem e às formas unívocas da tradição cristã. O clássico axioma extra ecclesiam nulla salus (fora da Igreja não há salvação) traduz muito bem essa posição no campo católico. No campo evangélico, essa posição se expressa na missiologia do Pacto de Lausanne e na perspectiva fundamentalista da escola de missões do Seminário Fuller. A posição inclusivista descobre valores positivos e verdades fora da própria tradição religiosa e procura reduzir as diferenças (J. Daniélou, H. de Lubac, Karl Rahner), mas está constantemente sob o risco de degenerar em hybris, devido à pretensão explícita de ter o privilégio do julgamento final e dos critérios claros de discernimento do que ocorre nas outras religiões. Conforme Panikkar, “a partir do momento em que é só você quem tem o privilégio de uma visão que abarca tudo, e de uma atitude tolerante, é você quem determina o posto que os outros devem assumir no universo”. No paralelismo (Paul Knitter, John Hick, Hans Küng), as religiões correm caminhos paralelos rumo ao mesmo fim (telos) onde todas se encontrarão. O caminho de cada religião deve ser respeitado e não sofrer interferências externas. É uma posição que “evita sincretismos e ecletismos que tentam harmonizar as religiões entre si, ao mesmo tempo em que assume uma posição tolerante e de respeito pela religião do outro”.
A posição de Tillich certamente não é exclusivista e também não chega ao paralelismo, pois ele sempre retorna a Cristo como a manifestação plena do Novo Ser e critério para cristãos e não-cristãos. Talvez prefiram classificá-lo como “inclusivista”. Essa atitude pode ser identificada no segundo texto que analisamos de Tillich, particularmente no capítulo que propõe o diálogo entre cristianismo e budismo. Ali, o teólogo pressupõe conhecer com relativa segurança a teologia budista do Nirvana e, em todas as suas comparações, o símbolo cristão do Reino de Deus sempre prevalece como superior ao símbolo do Nirvana. Sem referir-se especificamente a Tillich ou ao texto em questão, Bartholo afirma: “essa soberba inclusivista é a pretensão do crente ser proprietário de uma verdade plena e absoluta e, portanto, apto a identificar nos outros, mas nunca em si mesmo, apenas verdades parciais e relativas”. Mas é preciso reconhecer que Tillich é coerente com sua convicção de que o poder salvífico de Deus se manifestou plenamente em Jesus como o Cristo. Esse poder, quando reconhecido e aceito pelos seres humanos, causa impactos decisivos na vida pessoal e social, criando a Comunidade Espiritual manifesta, que se tornará, por suas palavras e atos, testemunho e representação do Reino de Deus.
Embora critique o inclusivismo, algumas afirmações de Panikkar podem nos ajudar a compreender melhor Tillich. Panikkar reconhece, por exemplo, que a vivência religiosa está no campo das paixões e adesões pessoais e não das escolhas racionais e, por isso, toda epoché fenomenológica que pretenda colocar “entre parêntesis” a própria fé no momento do diálogo, se revela fonte de erro e falsidade. Para Pannikar, a epoché inclusivista seria “psicologicamente impraticável, fenomenologicamente inapropriada, filosoficamente carente, teologicamente débil e religiosamente estéril”. Isso talvez explique a fragilidade do pretenso “diálogo” cristão-budista esboçado por Tillich.
Que contribuições os missiólogos podem extrair das observações de Tillich e da discussão atual sobre paralelismo, inclusivismo ou exclusivismo?
Recentemente foi publicada no Brasil a obra de um dos mais conhecidos e respeitados missiólogos de nosso tempo, o sul-africano David Bosch. Em muitos pontos, a obra de Bosch aproxima-se da perspectiva tillichiana, sobretudo em sua pressuposto básico de que a fé cristã é uma fé missionária com uma perspectiva intrinsecamente universal e ecumênica. Bosch argumenta que o evangelho é universal, que Deus é missionário e a missio Dei (singular) antecipa, fundamenta e critica as missiones ecclesiae (plural). Nessa perspectiva, a Igreja perde seu lugar de relevo e passa a um “segundo plano” porque se reconhece como realidade descentrada de si e concentrada no Reino.
As atividades missionárias levadas a cabo pela igreja devem estar submetidas ao propósito maior do reinado de Deus no mundo. Isso significa que é preciso falar primeiro de Reino de Deus e só depois da Igreja, enfatizar o caráter escatológico da missão e o papel provisório da igreja como agente do reino. Na América Latina, a chave hermenêutica para compreender a missão, não é a igreja enquanto instituição, mas o reinado de Deus. A igreja não inicia nem controla a missão de Deus, pois ela é, também, resultado dessa missão. Portanto, a implantação de igrejas em todos os lugares ou o crescimento da denominação numa sociedade, por mais desejável que seja, não é o fim último da missão. O mandato de Jesus é “ide e pregai...” e não “ide e implantai igrejas”.
Outro ponto de contato entre Bosch e Tillich é a defesa de que Deus continua a realizar a nova realidade que foi inaugurada e manifesta na vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo – o seu reinado de vida, amor, dignidade, justiça e paz. Embora esse reinado pareça oculto, está presente na história como fermento, sal e luz em diversos grupos. A igreja participa na missão de Deus na medida em que busca identificar os sinais atuais do reinado de Deus agora e para sempre. A igreja-em-missão é um sinal da intenção de Deus para a humanidade e a criação, “ela é chamada a encarnar, já no aqui e agora, algo das condições que hão de prevalecer no reinado de Deus”.
Bosch, tal como Tillich, também dá atenção a um paradoxo incontornável na vida da Igreja em sua missão: o de ser, ao mesmo tempo, uma comunidade exclusiva, com senso de pertença a um reino próprio, mas que deve abrir-se ao mundo num movimento inclusivo. Isso conduz ambos a propor a estratégia do testemunho e do diálogo com adeptos de outras religiões. Novamente, Bosch retoma algumas idéias de Tillich, afirmando que, quando nos predispomos ao diálogo missionário, é preciso aceitar de boa vontade e sem relutância a coexistência de crenças diferentes no mesmo espaço social; que todo diálogo autêntico pressupõe compromisso confessional dos dois lados; que os cristãos devem predispor-se ao diálogo não apenas com a tentativa de vencer uma batalha argumentativa, mas de encontrar o Deus que nos precede, que nos espera e que está preparando pessoas para o contato. Nas palavras de Queiruga, “a missão cristã... chega sempre a uma casa já habitada pelo Senhor e o que faz é oferecer seu novo e plenário modo de compreendê-lo como único e comum a todos”.
Mas Bosch e Tillich concordam também que o diálogo não é um substituto nem um subtefúrgio para a missão. A fé cristã não pode deixar de falar do que vimos e ouvimos e do que nos contaram nossos pais. Ela é intrinsecamente missionária, universal e inclusiva, embora não absoluta: “Conhecemos apenas em parte, mas conhecemos. E cremos que a fé que professamos é tanto verdadeira quanto justa e deve ser proclamada. Não o fazemos, todavia, como juízes ou advogados, mas como testemunhas; não como soldados, mas como mensageiros da paz; não como vendedores persuasivos, mas como embaixadores do Senhor Servo”.
Um dos efeitos do fenômeno da globalização foi colocar em contato bastante próximo pessoas de diferentes orientações religiosas numa mesma sociedade. A despeito da supremacia histórica do cristianismo católico no Brasil, as religiões indígenas e africanas nunca foram completamente extintas, mas sobreviveram, em alguns casos com adaptações sincréticas. No século XX o protestantismo que aqui se implantou acompanhava o otimismo do Atlântico-Norte, propondo “a evangelização do mundo nesta geração” e grupos mais pentecostais pretendiam salvar “o Brasil para Cristo”. Esses diferentes empreendimentos cresceram, se solidificaram e se estabeleceram na sociedade, mas o mundo não foi evangelizado no século XX e tampouco o Brasil se converteu para Cristo. Algumas dessas comunidades protestantes e pentecostais transformaram-se em espécies de abrigos para refugiados que não se sentem à vontade num mundo que passa por rápidas mutações. No final do século XX, o fenômeno neopentecostal cresceu bastante, propondo um tipo de cristianismo diferente dos conhecidos até então.
Nos últimos anos, as igrejas protestantes tradicionais no Brasil passaram a falar muito em missão. Houve até mesmo uma febre de “conferências missionárias” em todas as denominações, inclusive na IEAB com a Confelíder. Porém, a boa intenção missionária de alguns organizadores às vezes era contaminada pelo interesse de outros no crescimento denominacional. Em muitos casos, o conceito de missão permanecia subordinado ao objetivo do crescimento e expansão da igreja cristã. Isso acaba servindo muito bem para bispos, pastores e líderes personalistas que conseguiram multiplicar o número de membros de suas paróquias e dioceses que fazem dos números, armas ideológicas para criticar regiões da igreja onde a ênfase não é o crescimento quantitativo, mas o testemunho evangélico e o acompanhamento pastoral como sinais do Reino.
O conceito teológico “Reino de Deus” merece ser mais aprofundado por todos, pois ele é o referencial da missão. Toda e qualquer discussão sobre missões deve ser impulsionada pelo objetivo da proclamação do Reino (com suas implicações políticas, sociais e universais) e o testemunho da Presença Espiritual e não na Igreja. A criação de comunidades cristãs filiadas a uma denominação cristã deve ser esperada como uma conseqüência da missão, e não exigida como objetivo, porque a igreja não vive para si, mas para os outros em prol do Reino. Em alguns casos, o compromisso com o Reino, ao invés de produzir crescimento do grupo, poderá levá-lo à extinção. O critério para medir o grau de fidelidade de um grupo cristão ao Evangelho não é a expansão e o crescimento. Já observei, alhures, que “se usarmos esse mesmo critério para algumas comunidades neotestamentárias, verificaremos que muitas delas não conseguiram sobreviver às perseguições em algumas cidades. Simplesmente foram extintas à força da espada ou tiveram que se mudar em movimentos migratórios de fuga para outras regiões menos hostis. Tais fatos não desqualificam em nenhum momento o grau de fidelidade daquelas igrejas a Cristo. Ao contrário, algumas comunidades acabaram porque acompanhavam o fluxo do sangue dos mártires. Sua fidelidade residia exatamente no martírio e na morte, como grão que morre debaixo da terra para produzir vida. A morte de algumas comunidades não significa a morte do cristianismo”.
A missão deve ser a contínua atividade da igreja no mundo, identificando a ação salvadora e libertadora de Deus que produz vida, unindo-se a ela e fortalecendo-a, mesmo quando essa ação está sendo empreendida e vivida por grupos não-cristãos. Em termos aristotélico-tillichianos, seria o encontro da “comunidade manifesta” com a “comunidade latente”. Esse encontro enriquecerá ambos e poderá levar a “comunidade latente” a encantar-se com o testemunho de amor, serviço e justiça da comunidade manifesta, feitos em nome e no poder de Jesus Cristo. Isso não significa que não seja mais necessário evangelizar explicitamente. Quem foi impactado pelo poder salvífico do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo, sempre se sentirá motivado a compartilhar as bênçãos da salvação. Mas o processo de crescer no conhecimento e amor de Cristo nos universaliza a ponto de sairmos ao mundo com a boa notícia de que Deus está em toda parte, em missão, criando comunidades espirituais que sejam sinais do seu Reino. Quando a missão se torna testemunho em favor do Reino, “a Igreja não perde sua singularidade e importância, mas é provocada a viver sua identidade com um novo estilo, em que a dinâmica do testemunho e do serviço passa para um plano de maior importância”.
A partir de Tillich, podemos identificar grandes desafios para a missão transformadora hoje. Alguns grupos cristãos ainda se preocupam muito em investir energias no trabalho missionário junto a povos não-cristãos (culturas orientais, indígenas, africanas, etc), mas pouco fazem contra as “quase-religiões”. No seu tempo, Tillich as identificava no fascismo, nazismo e comunismo, em todo totalitarismo político de pretensões globais. Hoje costumamos falar em “religião do mercado” e estamos sempre dispostos a denunciar seus efeitos visíveis no desemprego e miséria. A religião do mercado é idolátrica porque faz do dinheiro e da prosperidade o seu deus. Mas há muitos grupos cristãos que se aliaram ao mercado. Boa parte das grandes agências missionárias tem aplicações no mercado financeiro, sem contar os grupos cristãos que associam evangelho com prosperidade. Não deveriam eles também ser alvo de nosso testemunho missionário de serviço, desprendimento, justiça e solidariedade?
Essas reflexões oferecidas para discussão não têm como objetivo esfriar o ardor missionário de nenhum grupo, nem tampouco menosprezar o dever de proclamar a salvação em Jesus Cristo. Ele, o Logos que ilumina todo ser humano e que nos transforma dia-a-dia à sua semelhança, é uma boa notícia que deve ser ouvida por todos. E sob a inspiração do seu poder, comunidades podem ser criadas para preservarem sua memória, nutrirem-se de seu corpo e sangue, anunciarem e viverem o Reino, pois esse era o conteúdo central da mensagem de Jesus.


Missão, evangelização e proselitismo
Steven Hayes
Uma das mais importantes questões que a missão ortodoxa enfrenta, diz respeito à evangelização e o proselitismo e a diferença entre ambos. Alguns tem dito que não há diferença entre ambos. Se as pessoas falam a respeito da necessidade de evangelização, eles encontram a resposta: "A Igreja Ortodoxa não promove conversões", como se evangelização e proselitismo fossem a mesma coisa.
Outros estão mais preocupados com o proselitismo que vem de fora da Ortodoxia - de missionários que desde o fim do comunismo tem se apressado em converter a Rússia, Bulgária, Romênia e outras terras tradicionalmente ortodoxas, para sua forma de pensamento.
Os cristãos do Ocidente tendem a pensar que o Oriente Ortodoxo não é "missionário". O século XX, depois da Primeira Guerra Mundial, tem sido o período de contato "ecumênico" entre os cristãos de diferentes tradições. Porém, a metade do séc. XX, de 1920-1970, foi o período quando as atividades missionárias da Igreja Ortodoxa atingiu seu ponto mais baixo. Após a Queda de Constantinopla para os turcos, em 1453, a Rússia era realmente o único centro da missão ortodoxa, e a Revolução Bolchevique colocou um fim a isso.
O renascimento da missão ortodoxa em nosso tempo é resultado de sementes plantadas por pessoas como o Arcebispo Yannoulatos da Albânia, cuja publicação "Porefthendes" apela para uma renovação da visão missionária, já nos anos 1950 e 1960. Na África, muitas pessoas estavam pedindo para se unir à Igreja Ortodoxa em 1930, e trouxeram uma nova visão missionária para a ortodoxia no Leste Africano após a Segunda Guerra Mundial.
Mais recentemente, pessoas em outros lugares foram levados à Ortodoxia, não por missionários ortodoxos que viajam fazendo proselitismo, mas, porque eles acreditaram que Deus os chamava para tornarem-se cristãos ortodoxos. Houve muitas conversões de evangélicos à Ortodoxia na América e em outros lugares como Portugal e Filipinas.
Este processo de pessoas vindo para a Ortodoxia levou alguns a afirmar que a missão ortodoxa não é "centrífuga" mas "centrípeta". Ao invés de missionários partirem, a Igreja espera que as pessoas venham até ela. Mas isso não é bem verdade. Se olharmos para a história da missão ortodoxa, há muitos momentos em que os missionários buscaram povos de diferentes culturas, ou quem vive em diferentes partes do mundo. Santo Cirilo e Metódio, Santo Estevão de Perm, Santo Inocêncio de Alaska e São Nicolau do Japão, são justamente alguns exemplos de tais missionários.
A diferença entre evangelização e proselitismo não é a mesma que a diferença entre missão centrífuga e centrípeta, embora essa talvez possa ser uma pista para tal.
Em lugares como a Rússia e a Romênia onde a Igreja Ortodoxa ficou bem estabelecida, mas no último par de gerações foi perseguida, também há uma grande tarefa de evangelização. Lugares como a Rússia e a Romênia precisam ser re-evangelizadas. Será que esta pode ser a diferença entre evangelização e proselitismo? É "evangelização" quando feita por cristãos ortodoxos no interior de um país tradicionalmente ortodoxo, e "proselitismo" quando feito para não-ortodoxos de fora? Não penso que seja assim.
Evangelização, dentro do uso do termo (em inglês), significa dizer ou espalhar a Boa-nova. Os quatro Evangelhos falam das boas novas sobre Jesus Cristo. Quando nós, como cristãos, dizemos aos outros o que Deus fez em Jesus Cristo, nós estamos evangelizando.
Proselitismo, de outro lado, significa "trazer pessoas para dentro", fazendo-as mudar suas convicções, seu partido, suas opiniões ou sua religião. No proselitismo há uma forte tendência de dizer às pessoas o quão ruim ou erradas são suas crenças atuais. Dizer às pessoas que suas crenças são más ou erradas não parece ser "Boa-nova". Se nós evangelizamos, não estamos dizendo "nossa religião é melhor que a sua religião". Não estamos nos colocando como seres moralmente ou espiritualmente superiores, e tentando conquistar pessoas para deixar sua religião juntando-se a nós, de forma que se sintam tão superiores como nós. Quando evangelizamos, dizemos, de fato, que Deus fez grandes coisas. Alguém descreveu uma vez a evangelização como "um mendigo dizendo a outro mendigo aonde conseguir pão". Para um mendigo faminto, esta é uma "boa-nova". E um mendigo transmitindo a outro mendigo tais "boas notícias" não pode se sentir vangloriado ou superior por este motivo.
Quando missionários budistas primeiro saíram da Índia para ir a outros lugares, chegando ao novo local, disseram apenas dois tipos de coisas: "Isto é o que fazemos" e "Isto é o que não fazemos". Eles não fizeram nenhum comentário sobre o que as pessoas lá já estavam fazendo em sua religião ou filosofia. Não criticaram ou condenaram as crenças e práticas das pessoas. E este pode ser um bom exemplo para os missionários cristãos também seguirem. Se agirmos assim, então estaremos evangelizando e não fazendo proselitismo. Muitos missionários ortodoxos seguiram seguem este exemplo.
Se as pessoas que ouvem a Sagrada Escritura dizem que querem seguir Cristo e ser batizados, então, é claro, haverá mais o que aprender. Se eles quiserem realmente seguir Cristo, então vão querer também aprender mais a respeito da fé cristã e sua aplicação em suas próprias vidas e comportamento. Às vezes eles surpreendem os missionários com seu fervor. Quando o Príncipe Vladimir de Ruskiev se tornou cristão em 988, ele surpreendeu os missionários bizantinos ao buscar abolir a principal punição em seu reino. Houve uma mudança radical em seu estilo de vida.
Necessariamente, as pessoas não se tornam cristãs simplesmente mudando seu estilo de vida, especialmente se elas mudaram através da força ou fraude. Forçar tais mudanças nas pessoas é proselitismo e não evangelização. Evangelização é feita com espírito de humildade e amor, enquanto o proselitismo é caracterizado pela arrogância e orgulho. É muito mais fácil fazer proselitismo do que evangelizar; entretanto, somos chamados a evangelizar.
Tentei, neste artigo, indicar onde, segundo penso, residem as principais diferenças entre evangelização e proselitismo. A diferença é importante e acredito que é uma das mais sérias questões que os estudiosos de missiologia da Igreja Ortodoxa enfrentam nos dias de hoje. Se não enfrentamos, nós, cristãos ortodoxos, podemos nos deparar fazendo críticas às ações que nós próprios praticamos, e condenando o que, em certos lugares e situações, relevamos e perdoamos.

Os desafios do cristianismo
Robinson Cavalcanti
O cristianismo, hoje em dia, positivamente, cada vez se universaliza mais. Está presente na maioria dos países, etnias e classes sociais, e sua força missionária está em expansão. No entanto, o cristianismo atual tem de enfrentar sérios desafios e obstáculos, tanto externos quanto internos.
Não se pode menosprezar o desafio do Islã, que se expande, não aceita a laicidade do Estado, a liberdade religiosa com igualdade perante a lei. Os Estados islâmicos são espaços de restrição, discriminação e repressão ao cristianismo missionário. A imigração a partir deles já afeta a cultura européia. O zelo expansionista desses Estados, alimentado pelos petrodólares, é real e crescente. O nacionalismo bramânico, na Índia, ou o budista, em Myanmar (ex-Birmânia), também atestam o endurecimento das outras grandes religiões em relação à fé cristã.
No Ocidente — historicamente um espaço geopolítico do cristianismo — sofremos a violenta devastação causada pelo secularismo. Assistimos à drástica redução do número de freqüentadores dos cultos, à indiferença, ao materialismo prático consumista e à negação de valores cristãos. Uma minoria de praticantes exerce uma religiosidade individualista e subjetiva, sem impacto na vida cultural. Essa falha vem sendo preenchida por diversos tipos de misticismo.
Internamente, o cristianismo sofre de dois grandes males: o liberalismo e o neofundamentalismo.
O liberalismo moderno — filho do racionalismo e neto do iluminismo — cede, rapidamente, lugar ao liberalismo pós-moderno, ou revisionismo. A verdade não mais é atingida apenas pela razão; simplesmente ela não pode ser atingida. Não há verdade revelada; não há verdade objetiva e universal, mas apenas o relativismo da verdade de cada um. A autoridade das Sagradas Escrituras e da tradição apostólica, o caráter único da Igreja como agência do reino, e a unicidade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador são negados e combatidos. Portanto, morrer pela boca dos leões ou pela mão dos gladiadores se torna algo exótico ou ridículo.
O neofundamentalismo possui uma eclesiologia débil e equivocada, baseada na sociologia e não na teologia. Fragmenta de forma trágica e interminável as “denominações”, dilacerando o Corpo de Cristo — Igreja una, santa, católica e apostólica — ao promover o espírito sectário e intolerante, o antiintelectualismo, o legalismo, o moralismo, a irresponsabilidade social e cívica, e a proliferação de distorções doutrinárias (e de usos e costumes). Esses males adoecem os membros da comunidade de fé, que deveria ser terapêutica e agência de transformação histórica. A liderança da Igreja — rígida, autofágica, ambiciosa, carreirista, narcisista, triunfalista — abandona os seus soldados feridos, foge dos riscos. É incapaz de se unir, de expressar gestos de solidariedade, ou de elaborar respostas adequadas aos desafios atuais.
Mea culpa, mea maxima culpa . Que o Senhor da Igreja tenha piedade de nós. Que ele purifique e reavive o seu Corpo, ilumine o nosso discernimento, a nossa dependência do Espírito Santo, o nosso conhecimento e compromisso com a Palavra, e aumente a nossa paixão missionária. Que faça, poderosamente, florescer entre nós uma ortodoxia com compaixão.


A missão segundo o modelo de Jesus Cristo
Júlio Zabatiero
Introdução
O modelo missionário a ser seguido pela Igreja é o praticado pelo nosso Senhor Jesus Cristo. As características básicas da missão de Jesus Cristo foram: (1) Enviado pelo Pai, como Seu representante na terra, a fim de revelar a Sua graça e demonstrar a Sua justiça (Jo 1,12-14; Rm 3,21-26), Jesus viveu praticando a vontade do Pai, sendo fiel a Ele e rejeitando o caminho de Satanás (Mt 4,1-11); (2) Ungido, guiado e dirigido pelo Espírito Santo (Lc 4,18-21), de quem recebia a energia e o poder para servir ao Pai e à humanidade, e em cujo poder foi ressureto (Rm 1,1-4); e (3) Encarnado como ser humano, dentro da cultura e sociedade judaicas (Jo 1,1-11), e assumindo a condição de escravo, sendo obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2,5-11), Jesus tornou-se plenamente solidário com a humanidade em sua necessidade e sofrimento, sem, porém, pecar (Hb 2,14-18).
• A pós-modernidade como a face “deste presente século” (Rm 12,1-2)
Assim como Jesus, enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito, encarnou-se na sociedade e cultura de seu tempo, também a Igreja deve se encarnar na sociedade e cultura de seu próprio tempo. A cultura de nosso tempo é a forma de vida chamada de “pós-modernidade”. Como a cultura no tempo de Jesus, ela oferece oportunidades e desafios para a missão da Igreja. Seguindo o exemplo de Jesus, a Igreja deve se encarnar de forma crítica na pós-modernidade. As duas características básicas da encarnação missionária são: (a) o discernimento do Espírito (Cl 1,9-11), a fim de podermos distinguir entre o pecado e a justiça, o certo e o errado, o bem e o mal, a verdade e o erro em nossa cultura e sociedade; e (b) a compaixão (Mc 6,34), para podermos anunciar o Evangelho da salvação às pessoas que estão escravizados pelos poderes do pecado e da morte, e que caminham cegas, como ovelhas perdidas, sem pastor.

1. O desafio da fidelidade
1.1. A religiosidade peregrina e perambulante
A forma predominante da religiosidade pós-moderna é a da peregrinação. A religião é vista pelas pessoas como um meio para conseguir resolver os problemas que a ciência, a técnica e a política não conseguem resolver. As necessidades de saúde física, saúde emocional, amor e companheirismo não são supridas adequadamente na sociedade pós-moderna. Por isso, as pessoas buscam religiões que satisfaçam essas necessidades. Entretanto, como somente Jesus Cristo pode satisfazer plenamente as necessidades humanas – e transformar o nosso ser interior – a pessoa sedenta busca resposta nas várias religiões que se apresentam no “mercado de bens simbólicos” – dá uma passeadinha pelo caminho de São Tiago, toma um chazinho do Santo Daime, vai pedir a bênção da Mãe Tereza, ou do Pai João, entrega um dinheirinho na Universal, pega uma águinha benta na Catedral ... A religiosidade pós-moderna não sabe o que é fidelidade, a não ser a fidelidade ao interesse próprio, que pode ser chamada de egoísmo. E até no meio evangélico já se começa a ver a penetração dessa perambulação pós-moderna, com os crentes assistindo a todos os programas de TV e rádio, ouvindo todos os CDs que consegue comprar, freqüentando todas as reuniões de diferentes igrejas, etc. Onde houver uma oferta de bênção, aí também o crente estará. A fidelidade a Deus começa em casa. Para podermos dar testemunho aos peregrinos pós-modernos, precisamos aprender a fidelidade, seguindo o exemplo de Jesus!

1.2. A pregação do Deus dinheiro e a vida sacrificial
A outra face da religiosidade pós-moderna não tem “cara” de religião. Por isso mesmo, é muito mais perigosa, porque muitos não a reconhecem. A religiosidade pós-moderna tem como seu grande “deus” o dinheiro – seja na forma de Capital, seja na forma de lucro, seja na forma de desejo dele – que cobra uma séria e rigorosa disciplina sacrificial de vida. Para que as economias funcionem bem, os países exigem “sacrifícios” de seus cidadãos (desemprego, apertar os cintos, corte de gastos com saúde, educação, transporte, moradia; privatizações sem fim ...), e na expectativa de ter dinheiro para poder consumir, as pessoas se submetem ao estilo de vida sacrificial exigido pelo Mercado. Nesse estilo de vida sacrificial, a compaixão e a solidariedade não têm lugar. É cada um por si, e o “deus” dinheiro por todos. Só que o deus dinheiro e seu profeta, o mercado, são deuses rigorosos que não conhecem a compaixão. Não aceitam as pessoas que não conseguem competir e vencer. Eles as excluem – do acesso à saúde, à moradia, à vida, à dignidade, e exigem total fidelidade – mesmo excluídos, têm de aceitar a sua condição e reconhecer o seu “pecado capital”. Quem não consegue “vencer” é sacrificado no altar do lucro, da produtividade e da qualidade total. Lembremo-nos do que ensinava Jesus: “ninguém pode servir a dois senhores ...” (Mt 6,24)

1.3. A fidelidade ao verdadeiro Deus e a Seu povo
O primeiro grande desafio missionário da pós-modernidade é o da fidelidade ao Deus verdadeiro. Só pode fazer missão o povo que anda na presença de Deus e procura fazer a sua vontade. Nas palavras de Jesus, “buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). Somente quando o povo de Deus se submete ao reinado de Deus e tem a Sua justiça como critério de vida e missão, é que pode fazer frente ao caráter peregrino e sacrificial da religiosidade pós-moderna. Neste tempo em que as informações voam distâncias e tempo através dos satélites e televisões, rádios, Internet ... Neste tempo em que temos um volume de informações imenso, mas pouco sabemos realmente de importante, é fundamental a fidelidade ao verdadeiro Deus. Doutra forma, nossa mensagem cairá no vazio do excesso de informações. As pessoas só crerão no Deus verdadeiro se virem a Sua verdade amorosa, justa e compassiva em ação na vida dos filhos e filhas de Deus. Como diz uma canção brasileira a respeito do culto: “E ao sairmos daqui, que poderemos fazer? Deixar que o mundo veja em nós a Cristo e o Seu poder.” Para fazer missão na pós-modernidade, é preciso que nossa vida seja missionária, que nosso comportamento seja semelhante ao de Jesus Cristo, que recusou todas as tentações satânicas, todas as tentações de dinheiro, prestígio, consumo e poder, e foi fiel ao envio do Pai, e submisso à direção do Espírito Santo. Como Jesus, precisamos conhecer a Palavra de Deus para vencer as tentações (Mt 4,1-11).

2. O desafio do discernimento
2.1. A vida não refletida, apenas sentida ...
Uma das características fundamentais da chamada pós-modernidade é o abandono da reflexão crítica racional. Reconhecendo a incapacidade da razão resolver todos os problemas humanos, as pessoas que aderem ao novo modo de ser pós-moderno preferem levar a vida a partir dos sentimentos e desejos, e não da reflexão, ou, em linguagem bíblica, do discernimento. Sentir é mais importante do que saber, e sentir-se bem é o que realmente importa para o indivíduo pós-moderno. Essa ausência de reflexão é conseqüência da negação das utopias (propostas de transformação social e econômica) e da afirmação do “fim da história” (a crença de que o estágio atual do capitalismo neo-liberal é a forma mais completa da evolução humana). Se nada há adiante de nós, se já alcançamos a forma mais evoluída possível de organização social, econômica e política, para que refletir criticamente sobre a realidade? Basta viver, e curtir a vida. Basta sentir e deixar-se levar pelos sentimentos. Para que pensar, se os governantes irão fazer o que for necessário para a vida melhorar? Para que pensar, se o mercado “livre” é capaz de organizar a atividade das pessoas, distribuir oportunidades e castigos? Vamos aproveitar a vida! Ou, nas palavras de um antigo filósofo, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”! Precisamos de uma renovação de nossa vida litúrgica, que está cedendo ao irracionalismo pós-moderno. Como conseqüência do irracionalismo, na vida da igreja, nossos cultos têm cada vez menos conteúdo e cada vez mais emoção. Cada vez menos Palavra de Deus, e cada vez mais desejos e sonhos humanos. Cada vez procuramos menos agradar a Deus, e mais a nós mesmos – afinal, “o culto não é para a gente se sentir bem?” Liturgias irracionais não ajudam a Igreja a enfrentar a pós-modernidade. A rejeição da razão não é a solução para os males da racionalidade moderna, voltada inteiramente para a técnica e a eficácia. Ao invés de vivermos levados pelos sentimentos, precisamos de uma racionalidade ampla, humana, plena. Precisamos de uma “razão comunicativa”, que, ao invés de se centrar na técnica e eficácia, tenha seu eixo na relação pessoal e social com o “outro” (próximo, na linguagem bíblica). Como cristãos, em particular, precisamos de uma inteligência crítica, que nos torne capazes de “dar a razão da nossa esperança a quem nos perguntar” (I Pedro 3,15).

2.2. A vida sem integridade, apenas com interesses e desejos
Uma vida vivida em função dos sentimentos, além de negar a capacidade humana de crítica e pensamento construtivo, também nos torna fáceis presas de nossos interesses e desejos pecaminosos. Vários são os sintomas da crise da razão e do reinado do sentimentalismo. Por exemplo: a desestruturação da vida familiar, em função de uma visão meramente romântica do amor, mediante a qual “João ama Maria, que gosta de José, que ama Antônia, que prefere Pedro, mas está triste porque ele ama José ...”. Outra causa da desestruturação familiar é o afastamento cada vez maior entre pais e filhos, a falta de comunicação eficaz entre as gerações dentro de casa, a tentativa de cada lado impor a sua vontade e seus desejos. Além da desestruturação da vida familiar, outro exemplo da crise da razão é o abandono da integridade como padrão ético de comportamento. Tudo vale para a realização dos desejos pessoais – uma mentirinha, um jeitinho, uma fezinha ... A palavra não precisa ser cumprida, os compromissos não são levados a sério, os relacionamentos pessoais servem apenas enquanto se “leva vantagem”; entre os adolescentes e jovens a moda é “ficar”, pois quem “fica” não se compromete com a outra pessoa. Não há integridade nos negócios, nas relações pessoais, na política, no exercício do poder público. Neste sentido, a pós-modernidade não é tão “pós” assim, pois a falta de integridade é uma característica da pecaminosidade humana. Todavia, em nossos dias, como nos tempos de Paulo, a ausência de integridade tem se tornado o ponto mais crítico da ética individual e social (cp. Rm 1,28-33). O mais preocupante, porém, é a penetração da falta de integridade nos meios evangélicos! Líderes internacionais de missões e pastoral, como Frank Dietz e Warren Wiersbe têm escrito livros defendendo a necessidade da volta da integridade à vida cristã, particularmente entre os líderes do povo de Deus. Como poderá Deus nos escutar se não vivemos de forma íntegra a Sua vontade? (cf. Amós 5,21a-24). Como anunciar o Deus da justiça sem integridade? Como crerão se não virem em nós a verdade de Deus em ação?

2.3. A vida cheia do Espírito Santo, refletindo e crescendo no saber de Deus
Contra o irracionalismo da pós-modernidade, a resposta bíblica é a vida cheia do Espírito Santo. Em sua exortação aos efésios, Paulo disse: “Sede verdadeiramente atentos a vosso modo de viver: não vos mostreis insensatos (sem juízo, sem razão), sede, antes, pessoas sensatas, que põem a render o tempo presente, pois os dias são maus. Não sejais portanto sem juízo, mas compreendei bem qual é a vontade do Senhor ... sede cheios do Espírito Santo” (Ef 5,15-18). A exortação paulina é muito apropriada para os nossos dias. Precisamos de uma renovação da vida intelectual da Igreja. Precisamos de que o povo de Deus assuma a sua função de teólogos e teólogas! Pois é isso que Paulo está pedindo de nós. Estar atentos a nosso modo de viver, sermos sensatos, significa refletirmos sobre a nossa realidade à luz da Palavra de Deus, movidos pelo Espírito. E a teologia é exatamente isso! Na modernidade, a teologia era rejeitada em troca da “prática”, na pós-modernidade ela é rejeitada em troca da “beleza”. Mas nós precisamos urgentemente dela. De uma teologia prática, bela, racional e cheia do Espírito Santo. Precisamos de uma teologia baseada no discernimento do Espírito, que nos faça andar de modo digno do Senhor, que nos faça crescer no conhecimento de Deus, que nos faça transbordar em boas obras missionárias (cf. Cl 1,9-11). Nossas igrejas precisam redescobrir o valor da reflexão séria e profunda sobre a vida baseada na Palavra de Deus. Precisamos de pastores que devolvam ao púlpito o seu vigor teológico, precisamos de mestres que devolvam à educação cristã seu vigor pedagógico e reflexivo. Precisamos de renovação de nossa vida eclesial, de nossos programas e encontros, de forma que a reflexão ocupe um lugar tão importante quanto a comunhão, a oração e a adoração a Deus. A renovação da vida dos “leigos” é fundamental para que a Igreja possa realizar sua missão no mundo pós-moderno. O primeiro grande desafio para o laicato pós-moderno é a vida de discernimento. Precisamos de um povo cheio do Espírito Santo, capaz de refletir sobre a vida sensatamente, capaz de interpretar a Bíblia fielmente, capaz de anunciar a Palavra inteligentemente!

3. O desafio da compaixão
3.1. Vivendo em uma sociedade e economia sem compaixão
A sociedade capitalista neo-liberal pós-moderna é perversa e sem compaixão. Nela só há lugar para as pessoas capazes e competentes, que conseguem cumprir todas as exigências do mercado de trabalho e de consumo. Cada vez mais as empresas exigem maior qualificação para seus trabalhadores, e cada vez mais as máquinas substituem as pessoas no desempenho de funções e realização de serviços – e com isso aumenta o desemprego, a economia informal e a marginalidade. Todavia, o capitalismo neo-liberal afirma que esse é o único caminho para a prosperidade das nações! Decretando o “fim da história” o capitalismo neo-liberal tomou o lugar do marxismo como a religião messiânica sem Deus. Nas pertinentes palavras de um teólogo brasileiro, “não nos esqueçamos que o sistema de mercado, para conseguir totalizar-se como ‘único caminho’ para o bem comum ... exigia ser considerado como societas perfecta (sociedade perfeita) e ‘única religião verdadeira’, fora da qual não há salvação para ninguém, ainda que a condenação lhes tocasse a muitos. Para tanto era necessário um deus absconditus (deus oculto) de uma infinitude realmente ‘perversa’, quer dizer, que virasse tudo ao revés (per-verter) e direcionasse tido em uma mesma direção: a autovalorização, sem limite, do Capital. Já não se trata, obviamente, da simples acumulação de dinheiro e riquezas. Estamos diante de um deus infinitamente insaciável, para o qual todos os sacrifícios serão insuficientes.” (Hugo Assmann, Clamor do Pobres e ‘Racionalidade’ Econômica, pp. 44s.) A sociedade pós-moderna, dominada pelo “deus Capital” gera um sistema social de exclusão, mediante o qual um número cada vez maior de pessoas é excluído do mercado de trabalho, da educação, da saúde, da dignidade, da própria vida! As pessoas excluídas são os “bodes expiatórios” dos pecados da ineficiência econômica e da falta de competitividade produtiva. Em primeiro lugar o bem-estar da economia, depois, cuidemos das pessoas ... A chamada “globalização” da economia traz consigo uma perversa globalização da miséria e do sofrimento humano. Só tem valor aquilo que dá lucro, aquilo que aumenta a produtividade e a qualidade, aquilo que é “total”. Nessa sociedade “qualidade total” pouco lugar há para os seres humanos, que são parciais, incompletos, pecadores. Recusados, ou elogiados, pelo “deus escondido”, as pessoas cada vez mais se refugiam nas drogas, na violência, nas religiões sem compromisso, no sexo sem amor, no individualismo, no consumismo; ou simplesmente caem para o submundo da miséria, da fome da marginalidade. É a todas essas pessoas que iremos pregar o Evangelho, pessoas sacrificadas ao altar do Capital, submissas ao mando do seu profeta, o Mercado. Pessoas sem compaixão, porque acreditam que a competitividade é o melhor meio de eliminar a pobreza e o sofrimento humano. Pessoas sem compaixão, porque são vítimas sacrificiais de uma economia perversa, e se tornaram brutalizadas pelo sofrimento. Neste contexto, o segundo grande desafio para a Igreja é a vida de compaixão!

3.2. Compaixão e solidariedade na proclamação do Evangelho
Precisamos de compaixão e solidariedade para proclamar o Evangelho! Ao olhar para as pessoas e para as multidões de seus dias, Jesus as via como “ovelhas sem pastor” e demonstrava-lhes compaixão. A compaixão (solidariedade) era o motor de suas ações a favor das pessoas (v. Mt 9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Mc 6,34; 8,2; Lc 7,13, etc.). Jesus demonstrava, através de seus atos, a compaixão de Deus pelos seus filhos e filhas escravizados ao pecado; demonstrava a solidariedade do Deus encarnado para com a humanidade pecadora (cf. Hb 2,14-17; 4,15-16). Para pregar o Evangelho não posso ver o “outro” como adversário – a batalha espiritual não pode gerar inimigos, mas, sim, pessoas reconciliadas com Deus e, conseqüentemente conosco e com elas mesmas – geramos, com a pregação do Evangelho, amigos e amigas de Jesus Cristo (15,14-15). Para pregarmos o Evangelho precisamos resistir à tendência desumanizadora e brutalizante de nossa sociedade pós-moderna; precisamos resistir à tentação de vivermos apenas em função de nós mesmos e de nossos interesses e desejos. Precisamos de solidariedade, compaixão: sentir o sofrimento do outro, como o nosso próprio sofrimento. Participar na libertação do outro, como se a nossa própria libertação disso dependesse. Se somos amigos e amigas de Cristo, fazemos o que Ele manda. E o que Ele manda? “Eu vos escolhi para irdes produzir frutos e para que o vosso fruto permaneça ... O que eu vos ordeno é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,16-17). A Igreja existe para anunciar o Evangelho – essa é a grande comissão de Jesus (Mt 28,18-20 e paralelos), e esse é o poder do Espírito (At 1,8) – e se ela não o faz, deixa de ser povo de Deus, e se identifica com o mundo; torna-se sal sem sabor, não prestando para nada. O maior adversário da proclamação do Evangelho na pós-modernidade não é Satanás, mas a falta de compaixão, a falta de solidariedade para com os pecadores, a falta de amor uns para com os outros. O problema da evangelização não está nas técnicas, nos projetos, nas estratégias, nos recursos financeiros. Há muitas formas diferentes de se evangelizar e fazer missões. O problema é que não temos recursos humanos. Não temos crentes dispostos a viver compassiva e solidariamente, fazendo da pregação do Evangelho uma parte natural de seu dia-a-dia. Deus chama a Seu povo, nestes dias do mundo pós-moderno, para viver em compaixão e solidariedade para com os pecadores e pecadoras de nosso tempo. Sejamos solidários com os pobres e excluídos que clamam por socorro. A partir dessa solidariedade, tenhamos compaixão de todas as pessoas. Anunciemos, com toda força de nossos pulmões, o Evangelho de Jesus Cristo, a boa notícia de que Deus reina e pode mudar a vida das pessoas e das nações!

3.3. Compaixão e solidariedade na diaconia cristã
Assim como Jesus fez acompanhar sua pregação de sinais visíveis do amor de Deus pelos pecadores, também a Igreja compassiva, na pós-modernidade, fará sua pregação da salvação ser acompanhada dos sinais do Reino. Quem ama, é compassivo e solidário com a pessoa toda, não faz divisão entre “alma” e “corpo”, pregando para salvar “a alma” e deixar o “corpo” morrer. Jesus cuidava das doenças do corpo, das doenças espirituais, dos problemas econômicos e sociais. Paulo, o evangelista aos gentios, recebeu a recomendação de “nos lembrar dos pobres, o que eu tive muito cuidado de fazer” (Gl 2,10). A diaconia cristã é a expressão concreta da compaixão evangelizadora da Igreja. A diaconia é o meio pelo qual a Igreja pratica as boas-obras para as quais cada cristão foi chamado por Deus (Ef 2,10). Na pós-modernidade, precisamos discernir quais são as boas-obras mais urgentes, ou quais as formas mais importantes de ação diaconal. No âmbito da economia, por exemplo, a esmola já perdeu a sua eficácia (que tinha em períodos muito antigos na história econômica da humanidade). O socorro econômico através da esmola é insuficiente para livrar os pobres da miséria. É preciso ações mais eficazes. Por exemplo: projetos sociais de capacitação profissional, projetos sociais de desenvolvimento comunitário; movimentos sociais de luta contra o desemprego, contra a fome; movimentos políticos pela adoção de mecanismos de defesa econômica dos cidadãos, garantidos pelo Estado – por exemplo: renda mínima, salário educação, etc. No âmbito da saúde, é preciso também atuar através de projetos de desenvolvimento (ambulatórios, clínicas voluntárias, etc.), e de movimentos sociais e políticos (campanhas contra certos tipos de câncer, instituições especializadas no atendimento a certos tipos de doenças e deficiências, etc.; movimentos políticos que visem forçar o Estado a cumprir as metas de saúde pública mínimas para garantir a dignidade dos cidadãos). No âmbito da cultura, é preciso que as Igrejas atuem no despertamento de formas criativas de ação cultural – seja na música, no teatro, nas artes plásticas, na literatura, etc. É importante atuar em movimentos que visem o controle, pela sociedade, dos bens culturais produzidos e difundidos pelos meios de comunicação de massa (TV, rádio, cinema, etc.). Em uma palavra, é preciso que a Igreja atue de forma a contribuir para que a cidadania seja uma verdade prática, e não apenas um direito constitucional. Para que a mensagem do Reino pregada pela Igreja seja entendida, é necessário que a Igreja demonstre os sinais do Reino através de sua vida e da vida de seus membros. Na pós-modernidade, em que a pessoa só é vista como consumidora, ou como produtora de bens, precisamos ajudar a resgatar a condição cidadã das pessoas, com todas as implicações sociais, econômicas e políticas da cidadania. Como cidadãos do Reino de Deus, somos chamados a lutar para sermos cidadãos de um país justo e livre e para demonstrar solidariedade plena para com os não-cidadãos! Para isso o Espírito que ungiu Jesus, também pode nos ungir (cf. Lc 4,18-21; 7,18-23)

Conclusão
A pós-modernidade apresenta à Igreja problemas e oportunidades imensos. Para superar os problemas e aproveitar as oportunidades, precisamos do discernimento do Espírito e da compaixão de Jesus. Por isso, o primeiro desafio da missão da Igreja na pós-modernidade é a qualificação da Igreja como povo de pessoas cheias do Espírito Santo, que sabem discernir e ser solidárias. Como povo de ministros e ministras de Deus, discernindo a vontade de Deus e sendo solidários com os pecadores, atuaremos no mundo como testemunhas de Jesus Cristo. Nossa pregação e nossas obras demonstrarão verdade e o caminho do Reino de Deus, e farão com que as pessoas desejem servir a Cristo e não a Mamon!

Textos extraidos................


História de Missões Mundiais
INTRODUÇÃO
“... e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. At 1.8b.
Segundos antes da ascensão do Senhor Jesus Cristo, os discípulos ali reunidos ouviram de seus lábios a ordem de anunciá-lo até os limites da terra. Contudo, quase 2000 anos passaram-se e essa tarefa é ainda inacabada. Observamos nos últimos anos, o despertar de nossas igrejas por Missões e grande procura de livros, que possam criar uma visão mais bíblica e global do trabalho missionário transcultural. Excelentes livros têm sido escritos sobre este tema, mas é muito difícil documentar tudo, pois houve pessoas anônimas que foram usadas por Deus para serem canal de benção que não temos nenhum dado.
Neste trabalho de pesquisa, falaremos sobre o avanço do cristianismo ao redor do mundo e abordaremos também, a HISTÓRIA DAS MISSÕES.
Três religiões denominam-se desde o começo, missionária e universalista: “Budismo”, “Cristianismo”, e o “Islamismo”.
O Budismo tem sido sempre uma religião oriental. Extinguindo-se na sua terra de origem, a Índia. Difundiu-se à Norte, Sul, Leste e muito pouco à Oeste.
O Islamismo, desde o princípio é a religião do deserto, destacando-se no Oriente Médio, prolongando-se em todas as direções, de Marrocos à China Ocidental, da Albânia à Indonésia e de uma forma eficaz na África Tropical.
O Cristianismo foi à única religião que realmente conseguiu transforma-se em universal. Contudo, isto não significa, que todas as pessoas da terra se tenham tornado cristãs.
Embora saibamos essa verdade, temos de afirmar também, que não existe nenhuma religião no mundo, que não haja vista partidários seus converterem-se ao Cristianismo.
A igreja primitiva era do tipo genuinamente missionária. Havia os que trabalhavam de tempo completo, como Paulo e Barnabé, destinados a liderar a obra missionária._Paulo tinha seus auxiliares, aos que ensinava e que por sua vez fundavam Igrejas. Ex. Epáfras em Colossos, Cl 1.7.
Em virtude da perseguição após a morte de Estevão, espalharam a pregação pelo mundo, Atos 8.4. Mas, não eram estes os únicos missionários voluntários. Quando Paulo chegou a Roma, foi recebido por crentes e não sabemos como eles surgiram na cidade. Alguns dos cristãos eram escravos, como sabemos pelas epístolas de Paulo, estes eram deslocados por toda à parte, acompanhando as comitivas dos seus senhores. Outros eram mercadores e viajavam em razão do interesse de seus negócios. Sabe-se com certeza, que cada cristão era uma testemunha de Cristo. Onde existisse um cristão, havia uma fé ardente, viva e em breve uma comunidade cristã em expansão.
No segundo século, havia três centros importantes de vida cristã no mediterrâneo:
Antioquia, Roma e Alexandria. Acerca da fundação da Igreja de Antioquia, Lucas não menciona nenhum nome. A Igreja de Roma, provavelmente tenha sido organizada por Pedro e Paulo. Em relação à Igreja de Alexandria, alguém afirma ser o Evangelista Marcos, seu fundador. Porém até agora existe qualquer prova histórica neste sentido.
Indiscutivelmente, Missões foi a maior glória da igreja dos primeiros tempos. A igreja era o corpo de Cristo, habitado pelo Espírito Santo. E aquilo que Cristo começou a fazer continuou, com o objetivo de ao longo dos dias chegar aos recantos mais longínquos da terra.
AS DEZ ERAS DA HISTÓRIA REDENTIVA
Encontramos no livro de Gênesis em seus onze capítulos iniciais três fatos, a saber:
1.1. Uma criação original, gloriosa e boa, Gn 1.31;
1.2. A entrada de um poder rebelde, maligno e sobre humano, Gn 3.1-13;
1.3. O envolvimento do homem nesta rebeldia e mantido sobre o poder deste mal, Gn 6.1-7.
Porém, em todo o restante da Bíblia, até Apocalipse, deparamos com um único drama: A entrada do reino, do poder e da glória de Deus dentro deste território ocupado pelo inimigo. Neste trabalho redentivo de Deus para a humanidade, vemos as dez eras, as quais chamamos de “As dez Eras da História Redentiva”, trazendo consigo o seguinte tema: “A graça de Deus que intervém na história a fim de derrotar o inimigo”.
Atentaremos rapidamente para o que ocorreu em cada uma das dez eras, sabendo que todas somam um período de 4.000 anos.
a. Na 1a era: Abrão foi escolhido em Gn 12.1-3. O mesmo mandamento foi dado à Isaque em Gn 26.1-5, à Jacó em Gn 28.10,15, e José tranqüilizou seus irmãos dizendo: “ Vocês me venderam, mas Deus me enviou”, Gn 4.4 -8. Ele se tornou uma Bênção para o Egito.
Até mesmo faraó reconheceu, que José estava cheio do Espírito Santo, Gn 41.38. Porém, esta não foi à obediência missionária intencional que Deus desejava.
b. Na 2a era, dá-se o cativeiro, 70 anos Israel é escravizado pelo rei da babilônia, Nabucodonozor, Jr 25.9-11; 29.1,4,10; 2Cr 36.18-21; Ed 5.12.
c. Na 3a era, Deus começa a usar os Juizes para lutar em favor do povo, Jz 1.16;
d. Na 4a era, Deus começa a contar com reis em Israel, 1Sm 8; 2Cr 36;
e. Na 5a era, dá-se o segundo cativeiro e a diáspora;
f. Na 6a era, Roma foi conquistada, mas não estendeu o evangelho aos povos bárbaros, celtas e godos. Quase por castigo, Roma foi invadida pelos godos e toda parte ocidental do império foi desmoronada.
g. Na 7a era, os godos foram evangelizados, mas não levaram o evangelho mais ao Norte;
h. Na 8a era, novamente quase por castigo os vikings invadiram a região dos celtas e godos cristãos e os vikings se tornaram cristãos em meio a esse processo.
i. Na 9a era, a Europa, pela primeira vez mudou na fé cristã, se lançou a um exercício de pseudomissão aos serracenos e se dirigiu ao oriente mais distante como conseqüência do grande fracasso das cruzadas.
Na 10a era, a Europa atingiu então aos confins da terra, mas com motivações muito confusas.
“Deus realiza sua vontade através da obediência voluntária de seu povo, mas quando necessário realiza o seu querer através de meios involuntários”.
José, Jonas, Ezequiel, Gideão, são exemplos da obra missionária involuntária na Igreja no Antigo Testamento.
Notamos em cada era, Deus preocupado em levar avante sua missão, com ou sem interesse da sua Igreja. A nação escolhida por Deus para receber e mediar bênção, Ex 19.3-8; Dt 28.8-14; Sl 67.1,2; 96.1-3; Is 49.6, se afastaram bastante desse ideal. Havia em Jerusalém muitos estudantes fanáticos da Bíblia, contudo o objetivo principal de cada um era muito mais sustentar e proteger a nação de Israel do que ser uma bênção para as demais nações. Elas não se preocupavam com que seus convertidos fossem circuncidados no coração, Jr 9.24-26; Rm 2.28,29.
“Os que são abençoados não parecem muito ansiosos em compartilhar as bênçãos recebidas, porém, se insistirmos em guardar para nós as bênçãos ao invés de compartilhá-las, então, da mesma maneira que Deus agiu com as nações negligentes, teremos que perder nossas bênçãos para os outros. Deus continua no propósito de usar sua igreja para alcançar o mundo. O reino não poderá parar por nossa causa” - Mt 24.14.

PERÍODO DA HISTÓRIA MISSIONÁRIA
Os evangélicos têm refletido bastante sobre tendências na história e sobre o relacionamento deles com acontecimentos vindouros. Notamos que as pessoas estão abertas a uma maneira de encarar a vida, a de viver do tipo, “p ara onde vamos”. Todavia, os cristãos ainda fazem pouquíssima ligação entre o debate sobre profecias e eventos futuros e o debate sobre missões. Eles vêem a Bíblia como um livro de profecias, tanto em relação ao passado como ao futuro.“ A Bíblia toda é um livro missionário... o ponto central do enredo e que une todas as partes é a execução de um propósito missionário que é gradual e vai se revelando aos poucos”.
Todos precisamos entender, que a História das Missões, começa bem antes da grande comissão, mais uma vez lembramos, que Deus falou a Abrão em Gn 12.1-3, que iria abençoa-lo e que seria uma bênção para todas as famílias da terra. O apóstolo Pedro citou essa passagem no dia em que falou no templo, At 3.25. Paulo repetiu-a em sua carta aos Gálatas Gl 3.8.
No entanto alguns comentaristas da Bíblia interpretam que somente a primeira parte do versículo poderia Ter começado imediatamente. Concordamos que Abrão ia rapidamente ser abençoado por Deus e somente depois de 2000 anos poderia se tornar uma bênção para todas as famílias da terra. Pensam eles, que Cristo precisava primeiramente vir e entregar a Grande Comissão. Precisamos sempre lembrar, que o mandamento missionário foi dado para Israel e a nós, Gn 12.1-3; Mt 29.19-20.
Muitos que já receberam em sua vida a bênção da salvação em Cristo Jesus de um modo especial podem escolher resistir e tentar abafar qualquer idéia de obrigação ser uma bênção a outros. Mas, essa não é à vontade de Deus: “Aquele a quem muito for dado, muito se lhe pedirá”, Lc 12.48. Esse mandato tem sido ignorado a maior parte do tempo desde os apóstolos.
Mesmo nossa tradição protestante reprimiu essa ordem durante mais de 250 anos, preocupando-se só com si mesma e com as bênçãos que ia receber, até um jovem de grande_fé e capacidade de suportar as provações surgiu no cenário, William Carey.


2.1. Primeiro Período
Um homem sapateiro inglês, chamado “O Pai das Missões Modernas” nasceu em 1761, na cidade de Paulerspury, perto de Northampton, Inglaterra. Teve uma infância rotineira, não podendo tornar-se jardineiro devido problemas persistentes de alergias.
Aprendeu a profissão de sapateiro aos 16 anos e trabalhou nela até aos 28. Converteu-se na adolescência, associando-se a um grupo de Dissidentes Batista, dedicando seus momentos de folga ao estudo bíblico. Em 1781, quando estava para completar 20 anos, casou-se com a cunhada de seu patrão, Dorothy, a qual era cinco anos mais velha que ele. Apesar das dificuldades econômicas William Carey, não desistiu de seus estudos e da pregação leiga, em 1785 foi convidado a pastorear uma Igreja Batista. Durante o seu pastorado foi despertado para missões e desenvolveu uma perspectiva bíblica sobre o assunto, convencendo-se de que missões estrangeiras eram a responsabilidade principal da Igreja. Quando muitos na época criam, que a Grande Comissão fora dada somente aos apóstolos e a conversão dos pagãos não era problemas deles. Porém as idéias de Carey eram revolucionárias e quando as apresentou a um grupo de ministros, alguém replicou:
“ Jovem sente-se. Quando Deus quiser converter os pagãos Ele o fará sem a sua ajuda ou a minha”.
Porém, Carey recusou-se calar, publicando um livro de 87 páginas que teve conseqüências de longo alcance, intitulado: “Uma inquisição sobre a responsabilidade dos cristãos em usarem meios de conversão dos pagãos”. Com muita insistência, os ministros decidiram fundar uma junta de missões, a qual recebeu o nome de: “ Sociedade Batista Missionária” e por esta junta William Carey, foi comissionado à Índia, sendo por causa disto chamado de louco por seu próprio pai e observando a recusa de sua esposa em partir com ele.
Todavia, ele estava disposto a partir mesmo sozinho, como o fez. Entristecido viajou deixando esposa e filhos, tendo depois a alegria de vê-los novamente porque a sua família foi a seu encontro e juntos chegaram à Índia em 19 de Novembro. Na cidade de Serampore, Índia, Carey passou os anos restantes da sua vida. Morreu em 1834, mas deixou ali a sua marca e nas missões de todos os tempos. Carey deixou após si, um luminoso roteiro cheio de exemplos dignos de serem imitados por todos os que aspiram andar no caminho do Senhor.
Frases como esta marcaram sua vida:
“ Apesar de tudo, Deus está comigo. Sua palavra é a verdade segura e ainda que as superstições do paganismo fossem mil vezes piores do que são; ainda que fosse abandonado pelos meus e perseguido por todos, minha esperança, fundada na palavra de Deus, permaneceria sobre todos os obstáculos e triunfaria de todas as provas. A causa de Deus triunfará e eu sairei destas angústias qual ouro purificado ao fogo”.
Com o embarque de Carey para a Índia, o 1o período das missões protestantes teve um bom início, pois durante os seus 25 anos de trabalhos iniciais fundou-se 12 agências missionárias. A idéia de que deveríamos nos organizar a fim de enviarmos missionários não foi facilmente recebida, mas finalmente se tornou o padrão aceito. Por sua influência, Carey levou muitas mulheres para orarem por missões, uma tendência que fez com que elas se tornassem as principais guardiãs do conhecimento e da motivação missionária. Depois de alguns anos elas começaram a ir para o campo como missionárias solteiras.
Há dois destaques a serem observados nesse 1o período da história missionária. Um é a surpreendente demonstração de amor e sacrifício por parte daqueles que partiram como missionários. Outro é o desenvolvimento de uma reflexão perspicaz, de grande valor, acerca da estratégia missionária.
Henry Venn, em relação à estrutura do campo missionário, diz:
“Do ponto de vista do resultado eclesiástico e considerando o objetivo final de uma missão como sendo o estabelecimento de uma igreja nativa, pastoreado por pastores nativos e da posição que irão ocupar, deve-se também Ter em mente que, conforme já foi dito de modo muito apropriado, a (eutanásia de uma missão), ocorre quando um missionário, cercado de igrejas nativas bem treinadas, dirigidas por pastores nativos, é capaz de renunciar a todo trabalho pastoral que está em suas mãos e gradualmente transferir todo o seu trabalho de supervisão aos próprios pastores até que imperceptivelmente o seu trabalho deixe de existir, quando então, a missão passa a ser uma igreja cristã estabelecida. A partir desse momento o missionário deve ser transferido para outras regiões ainda não alcançadas”.

2.2. Segundo Período
A exemplo de Carey um outro homem destaca-se neste segundo período da história missionária, Hudson Taylor. Tornou-se famoso de repente. Recebeu quase que só críticas negativas, porém, refletiu longamente debruçado sobre estatística, quadros e mapas. Quando sugeriu que os povos do interior da China precisavam ser alcançados, disseram que ele não conseguiria chegar lá e indagaram-lhe se gostaria de carregar nas suas costas o sangue dos jovens que ele desejava enviar para morrer. Com apenas um conhecimento de medicina de nível técnico, sem qualquer experiência ou conhecimento universitário, sem treinamento missiológico, foi apenas uma das coisas frágeis que Deus usa para confundir os sábios.
Hudson tinha por detrás de si um sopro divino.
O Espírito Santo o_poupou de perigos inesperados e foi sua organização, a Missão ao Interior da China, a organização mais cooperativa e serviçal que já apareceu, atendendo mais de 6.000 missionários, no interior da China. Este 2o período ficou marcado pela evangelização de áreas no interior. A missão para o interior da China surgiu na mente e no coração de um homem que sentia uma profunda responsabilidade pelos milhões de chineses, que jamais tinham ouvido falar do evangelho.
Uma das frases de Hudson Taylor: “Deus fez de mim um novo homem”.
A grande lição neste segundo período dada por Taylor estava sendo obedecida. Com isso os missionários alcançaram um recorde incrível. Eles implantaram Igrejas em milhares de novos lugares, principalmente em regiões do interior.

2.3. Terceiro Período
Este período teve início com dois jovens: Cameron Townsend e Donald McGavran.
Cameron estava com tanta pressa para ir ao campo missionário, que não se preocupou em terminar a faculdade. Trabalhando na Guatemala, observou que a maioria dos guatemaltecos não falava o espanhol e ficou tremendamente desafiado, quando um índio daquele país perguntou-lhe: “ Se o seu Deus é tão inteligente e capaz, porque Ele não pode falar em nossa língua?”. Neste terceiro período Cameron dedicou -se às tribos indígenas e surgiu então mais uma agência missionária conhecida como: “MISSÕES NOVAS TRIBOS”.
O tio Cam, como era conhecido e chamado por seus amigos, empenhou-se no trabalho de tradução da Bíblia para muitas tribos. Em dez anos de trabalho árduo completou o N.T. CAKCHIQUEL.
Um grupo de mulheres recebidas por Cam, trabalhou entre os shapras, uma das tribos de caçadores de cabeças mais temidas da selva peruana, comandada pelo infame chefe Tariri, que obtivera essa posição assassinando seu predecessor. Porém, com a disposição e coragem das missionárias, Tariri começou a ajudá-las como informante a respeito da língua e após pouco anos afastou-se da feitiçaria e do homicídio para tornar-se cristão, estabelecendo um exemplo que muitos de sua tribo o seguiram. Mais tarde Tariri confidenciou a Cam: “ Se você tivesse mandado homens, nós os mataríamos imediatamente. Se fosse um casal, eu mataria o homem e ficaria com a mulher. Mas, o que poderia um grande chefe fazer com duas moças inocentes que insistia em chamá-lo de irmão?”. _
Houve uma filosofia que motivou Cam, mais do que qualquer outra durante toda a sua vida:
“ O maior missionário é a Bíblia na língua pátria. Ela jamais precisa de férias e nunca será considerada estrangeira”.
Este período caracterizou-se pela categoria mais difícil de se definir, de natureza não geográfica, que temos chamado de “povos ocultos”, a saber, grupos de pessoas que estão socialmente isoladas. Por mais de 40 anos Cameron e Donald McGavran chamaram a atenção para os povos esquecidos.

HISTÓRIA DAS MISSÕES ROMANAS
A CONQUISTA DO MUNDO ROMANO (100-500)
O mundo a que se chegaram os primeiros cristãos era favorável em muitos aspectos à pregação do Evangelho. Apesar do Império Romano impor uma disciplina, a paz nunca foi total. Havia sempre ameaça nas fronteiras; revoltas nas províncias; a luta pela queda deste ou daquele imperador ameaçava sempre a organização.
A igreja no princípio falava o aramaico, idioma corrente na Palestina. No decurso do tempo verificou-se ser necessário empregar várias línguas para expressão da sua fé. O Império Romano aceitara o grego, para todos os fins. Quem soubesse o grego poderia comunicar-se com facilidade, por isso, a Igreja se envolveu com este idioma.
Na época 7% da população nas regiões do Império eram constituídas de judeus que apesar da sua falta de amizade e secura, atraiam muitos para a fé judaica. Como os gregos viviam à procura do saber, encontrou na sinagoga uma sabedora profunda e dinâmica, aparentemente mais antiga que a de Homero.
Se não existisse o Livro de Atos dos Apóstolos, nada saberíamos do início da Igreja, exceto o que nos revela as Epístolas. Mas, o Espírito Santo fez com que Lucas escrevesse essa obra, o qual destaca Paulo como seu missionário predileto e com muita razão. Este foi o maior e provavelmente o mais sistemático de todos os missionários. Trabalhou rapidamente entre os gentios, mesmo nos pontos mais remotos do mundo. Roma não era seu objetivo. O missionário desejava apenas conhecer os cristãos romanos e ir para Espanha, Rm 15.23-28. O Império Romano era um mundo de cidades, estas dominavam o pensamento e a vida econômica da região que a rodeava. Os judeus encontravam-se fortemente fortalecidos nas províncias orientais do Império. Roma se tornou no 3o., grande centro do mundo cristão, depois de Jerusalém e Antioquia.
Seu crescimento se deu principalmente devido ao heroísmo dos crentes dos dias da perseguição de Nero, em 64-65 AD. Nesta época, 64 AD., como muitos dos destemidos evangelistas cristãos que o seguiram, Paulo teve um fim violento. Segundo a tradição ele foi martirizado juntamente com Pedro. Porém, até no exemplo que demonstrou na morte, Paulo inspirou a futura geração à não considerar suas vidas preciosas para si mesmos, pois, se sofressem também reinariam com Cristo, 2Tm 2.11-13; 4.6,7.
Nero, imperador romano e um dos maiores perseguidores da Igreja alcançaram uma evidência nunca excedida em tudo que é abominável à natureza humana. À noite freqüentava disfarçados todos os lugares de libertinagem que havia em Roma, representava publicamente nos teatros em estado de nudez, praticava as maiores obscenidades que são possíveis conhecer e impossíveis descrever. Mandou incendiar diversos bairros de Roma. Tocando em uma lira e cantando em seu palácio, regozijou-se com o terrível espetáculo, a destruição de Tróia. Para concluir sua selvageria, tendo falhado no plano para afogar sua própria mãe mandou assassina-la. Este foi apenas um dos principais imperadores de Roma.
Porém, verdadeiros homens de Deus surgiram nessa época sem preocupação com tais perseguidores:

3.1. POLICARPO
Um dos primeiros mártires e amado bispo de Esmirna. Em 156 AD., as autoridades civis o encontraram escondido em um paleiro, com 86 anos de idade o prenderam e convidaram-no a negar sua fé, que seria uma grande vitória para o paganismo e um golpe para a “seita de Jesus”.
O bispo teria de dizer: “César é senhor, oferecer incenso e jurar pela divindade do imperador. Mas decidido, Policarpo olha e acena para a multidão no estádio, suspira, levanta os olhos pra o céu e gritou:” fora os ímpios “, durante 86 anos, sirvo a Jesus e ele jamais me fez algum mal”. Sendo ameaçado com fogo, o bispo diz “O fogo com o qual me ameaçam queimar, logo se extingue; existe um fogo que vocês não conhecem, o fogo do juízo vindouro e do castigo eterno, este está reservado para os ‘’ímpios”. Enfurecido o procônsul, mandou ascender à fogueira e uma grande chama envolveu o corpo desse fiel cristão.

3.2. JUSTINO E PERPÉTUA
Ainda jovem Justino tornou-se um dos mais hábeis defensores da fé. Perpétua com 22 anos mãe de uma criança pequena, também estava seguindo a fé, quando o imperador VII Severo em 202 AD., decretou a morte desses cristãos, que levados à arena foram executados sem misericórdia. Antes de Perpétua morrer, gritou a alguns amigos cristãos que sofriam torturas ao seu lado: “Transmitam a Palavra à todos, fiquem firmes na fé, amem-se uns aos outros e não permitam que nossas mortes sejam um impedimento para vocês”.

3.3. ULFILA
Um dos maiores missionários estrangeiros. Após 40 anos de trabalho junto aos godos e até traduzindo a Bíblia na língua nativa desse povo, Ulfilas morreu numa missão à Constantinopla.
Mesmo diante dessas perseguições o cristianismo crescia assustadoramente. Cada missionário morto era um desafio para os novos seguidores da fé em Cristo.
Nos primeiros três séculos da nossa era, ouve um rápido progresso missionário.
Na Palestina, a destruição de Jerusalém não provocou o fim da Igreja Cristã.
Terminou sim, com a existência nacional dos judeus, durante um período de mais de 1.800 anos.
Antioquia na Síria era o segundo lar da Igreja. Foi lá que os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos, Atos 11.26. A Igreja de Roma crescia graças às conversões e também em virtude da convergência, nesta cidade, de cristãos de muitas outras terras. Roma era um pólo de atração para todos o povos. Acerca do rápido crescimento da Igreja.
Temos duas informações importantes: a) Por volta do ano 166 AD. o bispo Soter observa que o número de cristãos ultrapassa o dos judeus e b) a partir do ano 251 temos estatísticas precisas desse período.
Três fatores humanos permitiram a difusão das Escrituras:
1) A fervorosa convicção que possuíam muitos dos primeiros cristãos. O historiador Eusébio diz: “Nessa época, muitos cristão s sentiram as almas inspiradas pela Palavra Divina, com um desejo apaixonado de perfeição. A primeira ação em obediência às instruções do Salvador, constituiu em vender seus bens e distribuí-los aos pobres. Então, deixando as suas casas, dedicaram-se a realizar a missão do evangelista, tendo por ambição pregar a Palavra da Fé àqueles que ainda nada tinham ouvido a seu respeito e confiaram-lhe a responsabilidade de elevarem mais aqueles que haviam trazido tão somente a fé. Passaram então a outros países e nações, com a graça e o auxílio de Deus”.
2) Os filósofos desde Platão, não haviam conseguido mais do que dar respostas incertas às perguntas mais angustiantes dos homens.
3) As novas comunidades cristãs recomendavam a si mesmas pela evidente pureza de suas vidas. Os primeiros cristãos eram homens e mulheres, como nós, vivendo no meio de uma sociedade corrompida e exposta a todas as tentações. 1 Coríntios nos mostra como era difícil viver segundo as novas aspirações. Mas, eram ensinados a considerar os seus corpos como tempo do Espírito Santo.

A IDADE MÉDIA
Em meados do século III o império romano começou a ser perturbado gravemente pelos povos do norte e encontrar grandes dificuldades no trabalho de difundir-se. A pressão contra esse velho império durou até quase a sua destruição. Em 410 AD., Alarico, o Godo, capturou e saqueou Roma. Alguns dos invasores tornaram-se cristãos. Após o fracasso do império, muitos homens começaram a se empenhar no assunto das missões cristãs. Entre eles destacam-se: Gregório, “O Grande” 540 -640, um dos mais capazes e influentes bispos de Roma, na Idade Média. Nessa mesma época outros monges, também serviram à causa missionária como, por exemplo, Bonifácio, apóstolo para Alemanha 700-753, morto por um bando de pagãos armados, na Holanda.


4.1. ANSKAR
Conhecido como “Apóstolo do Norte”, ele era um ascético de coração, considerado a oração de máxima importância. Como acontecia com a maioria dos líderes religiosos da idade média, foram-lhe atribuídos grandes milagres, mas ele procurava evitar louvores desse tipo, dizendo que: “O maior milagre de sua vida seria que Deus fizesse dele um homem completamente piedoso”. Anskar morreu pacificamente em 865, sem a coroa de mártir pela qual ansiava tanto. Depois de sua morte o povo voltou ao paganismo e somente após o século X a Igreja católica firmou-se novamente na Suécia.

4.2. RAIMOND LULL
Nasceu, em 1232 na cidade de Maiorca, junto as costa da Espanha, no Mediterrâneo.
Aos 30 anos passou por uma profunda experiência religiosa, “nasceu de novo”. Em uma noite, quando estava compondo uma canção, “ viu o Salvador pendurado na cruz e o sangue correndo em suas mãos, pés e fronte”. Uma semana depois, teve a mesma visão e desta vez se entregou a Cristo. Porém, com dúvidas no coração ele pergunta: “Como posso, corrompido pela impureza, levantar-me e entrar numa vida mais santa?”
Este sentimento de culpa impeliu Lull a abandonar sua riqueza e prestígio e dedicar sua vida à serviço de Deus, aplicando-a ao jejum, oração e meditação. Seu trabalho era lutar contra o Islamismo, evangelizando muçulmanos e em 1314, com mais de 80 anos na Tunísia passou mais 10 anos escondido e orando com seu grupo de novos convertidos. Finalmente, cansado do esconderijo e desejando morrer a serviço do mestre, pois, o martírio seria para ele o mais alto privilégio, ele foi até a praça e apresentou-se ao povo, falando claramente toda a verdade. Enfurecida com ousadia a população o arrastou para fora da cidade apedrejando-o e morreu logo depois. Apesar de ser ignorando pela Igreja católico e condenado como herege Lull manteve-se fiel a seu chamado, sempre consciente de seu dever pessoal em difundir a mensagem de Cristo.

4.3. LAS CASAS
No final do século XV, a Igreja Católica Romana iniciou um novo período de missões estrangeiras. O Novo Mundo foi visto como um campo propício para a expansão do cristianismo. Os papas e líderes políticos estavam ansiosos para estender o domínio católico a estas terras. A rainha Isabel considerava a evangelização dos índios como a justificativa mais importante para a expansão colonial, pelo que insistia em que sacerdotes e frades estivessem entre os primeiros a estabelecer-se no Novo Mundo. Os franciscanos e os dominicanos e mais tarde os jesuítas aceitaram o desafio. Dentro de algumas décadas o catolicismo tornou-se uma força permanente e de influência. O cristianismo se firmou com extrema rapidez.
Os maiores obstáculos às missões no Novo Mundo eram criados pelos próprios colonizadores, com seu tratamento cruel e desumano para com os nativos. Mesmo após o decreto da rainha Isabel em que consistia em resguardar a liberdade e a integridade dos índios, este continuavam a sofrer todo o tipo de desumanidade por parte dos colonos, que se utilizavam meios para oprimir e escravizar. Os missionários observaram este tipo de tratamento e muitos passaram a desafiar a ira dos colonizadores, no intuito de amenizar as dores dos índios. Dentre estes missionários o que mais se destacou foi Bartolomeu de Las
Casas, que embora tenha demorado a reconhecer e admitir este problema, tornou-se o maior defensor dos índios durante o período colonial espanhol.
Las Casas nasceu na Espanha em 1474, e era filho de um mercador que viajara com Colombo em sua segunda viagem. Depois de licenciar-se em Leis na Universidade de Salamanca, viajou para a ilha de Espanhola para servir como Conselheiro legal do Governador. Adaptou-se rapidamente ao estilo de vida influente dos colonizadores, aceitando o ponto de vista convencional quanto à população indígena, tendo participado inclusive de ataques contra as tribos e escravizado-os em suas plantações.
Provavelmente em torno de 1510, Las Casas sofreu uma transformação espiritual tal, que pediu para ser ordenado, tornando-se então no primeiro sacerdote a ser ordenado na América. Se interiormente ele havia mudado muito, exteriormente mudou muito pouco até então, porque aceitava com facilidade o estilo de vida que caracterizava a maioria do clero.
Aos poucos foi entendendo que o tratamento dado aos índios não correspondia aos preceitos cristãos e em 1514 por ocasião do Pentecostes, teve finalmente uma verdadeira conversão com relação ao tratamento que afligia os indígenas, porque deduziu que a fé cristã era radicalmente incompatível com o modo desumano pelo qual os espanhóis tratavam os índios.
A partir desta concepção juntou-se aos dominicanos, onde encontrou apoio para o seu ponto de vista.
Embora Las Casas seja considerado o pai da Teologia da Libertação, o primeiro clamor pela justiça no Novo Mundo foi levantado em 1511, pelo frade dominicano Antonio de Montesinos na Ilha Espanhola. Este clamor causou muita polêmica, motivo pelo qual mais tarde Las Casas tomou partido em sua defesa.
Em 1515, Las Casas retornou à Espanha em companhia de Montesinos, onde conseguiu apoio do Cardeal Cisneros que o enviou de regresso às Índias com uma comissão para investigar o tratamento dispensado aos índios, contudo a má opinião de parte dos membros contrária aos indígenas e suas atitudes protetoras para com os encomendadores, levaram Las Casas a romper com a comissão e regressar novamente à Espanha.
Para defender os índios no Novo Mundo, Las Casas viajou várias vezes a Espanha, apelando em favor dos índios aos oficiais do governo e a todos que quisessem ouvir.
Ele tinha o evangelismo como prioridade e com este propósito viajou pela América Central fazendo um trabalho pioneiro.
Las Casas foi enviado pelas autoridades espanholas a evangelizar em Cumaná, como forma de comprovar se realmente ele era capaz de colocar em prática suas afirmações de que os índios eram de boa índole e que se convertessem ao verdadeiro Deus seriam os povos mais abençoados da terra. Contudo Las Casas fracassou porque os colonizadores fizeram todo o possível para criar obstáculos e todo o tipo de violência. Posteriormente os próprios índios se rebelaram o que obrigou Las Casas a se refugiar entre os dominicanos em Espanhola. Unindo-se à ordem de Santo Domingo, passou vários anos escrevendo obras literárias.
Após doze anos em São Domingos, Las Casas partiu com destino ao Peru, mas em decorrência de mau tempo, desembarcou na Nicarágua. Os colonizadores dessa região eagiram violentamente a suas idéias o que fez com que fugisse para a Guatemala, onde passou a aplicar suas idéias de que o evangelho era para ser pregado pacificamente, contudo os índios que já conheciam o tratamento dos espanhóis não demonstraram interesse de ouvi-lo.
Neste ínterim Las Casas escreveu uma obra chamada “O Único Modo de Chamar Todos os Povos a Fé”. Daí partiu para o México onde foi nomeado bispo de Chiapas, on de demonstrou inflexibilidade para com os encomendadores, como fez constar de seu “Confessionário”, realizou trabalho missionário e mais uma vez retornou à Espanha em face das pressões dos colonizadores renunciando à sua diocese.
Na Espanha, Las Casas publicou uma obra chamada “Brevíssimo Relatório da Destruição das Índias”, que causou grande controvérsia em decorrência da polêmica em torno dos números por ele apontados que dava margem à dúvida. Em função deste relatório, Carlos V fez promulgar as Leis Novas, que limitavam os direitos dos espanhóis sobre os índios. Este fato causou muita revolta na América, principalmente no Peru aonde chegou a haver uma rebelião armada. Logo, logo, estas Novas Leis caíram rapidamente no esquecimento, prevalecendo o abuso e a exploração.
Em 1547, Las Casas com 73 anos de idade, partiu do Novo Mundo para não mais voltar. Sua luta pelos direitos humanos continuou viva na Espanha até sua morte que se verificou cerca de duas décadas após seu retorno. Na Espanha corrigiu e publicou seus escritos, em que se opunha à política colonial Espanhola.
Em 1566 morreu Las Casas aos 92 anos de idade e até hoje seu nome é lembrado como um dos maiores humanistas e missionários da história do cristianismo. Contudo suas idéias foram contestadas tanto no Peru em 1552 quanto na Espanha. Alguns anos mais tarde e no meado do século seguinte a Inquisição proibiu a leitura de suas obras. Os inimigos de Lãs Casas se alegravam ao verem fracassar os seus métodos pacíficos de tratar com os indígenas, porque dizia que “os habitantes originais das terras eram gente afável e generosa, que facilmente seria ganha mediante um bom exemplo e amor”.

MISSÕES MORÁVIAS
Surge entre o século XVIII, um grupo na Dinamarca-Halle e logo se tornou uma das maiores Igrejas missionárias de todos os tempos, “Os irmãos Morávios”, liderado pelo Conde Zinzendorf. Este abriu o caminho para a grande era das missões modernas levando a sério a grande comissão. Neste século os Morávios fundaram postos missionários nas Ilhas Virgens, em 1736, América do Norte em 1734, Lapônia e América do sul em 1735, África do sul em 1736 e Labrador em 1771. Nota-se que seu objetivo supremo era espalhar o Evangelho até aos Confins da Terra. Todos os missionários das Missões Morávias tinham de levantar seus próprios sustentos, levando a profissão de artesão ao viajarem para o exterior.
Os morávios eram remanescentes da obra de João Hus. Os poucos que ficaram após as perseguições, encontraram asilo junto ao conde de Zinzendorf, na Saxônia, onde fundou, em 1722, uma aldeia denominada Herrnhut (“a cabana do Senhor”).


AVIVAMENTO MORÁVIO
No ano 1727, irrompeu o conhecido avivamento morávio. Por mais que queiramos, não dá para copiar despertamentos espirituais, mas felizmente podemos aprender deles.
Zinzendorf
Neste ano 2000, se completam três séculos que o conde Nicolas Ludwig von Zinzendorf nasceu. A família, luterana muito crente, morava no reinado de Saxônia, em um castelo a poucos quilômetros da fronteira tcheca. Seu pai, que era secretário de Estado em Dresden, morreu depois de consagrar seu filho de 6 semanas para a obra do Senhor. Quatro anos mais tarde, sua mãe casou-se de novo e o menino foi educado por sua avó e uma tia.
Ambas apoiavam o movimento pietista, que procurava reavivar a igreja por pequenas reuniões de estudos bíblicos e oração, como “igrejinhas na igreja” ( ecclesiolae in ecclesia). O líder era o Dr. Spener, que às vezes visitava a família. O menino amava o Senhor, orava muito e sempre lia a Bíblia e o Catecismo de Lutero. Depois de estudar em famosa escola em Halle, aos 15 anos, seguiu para a Universidade de Wittenberg a fim de preparar-se para o serviço governamental, estudando direito e teologia.
Concluídos os estudos, fez uma viagem aristocrata através da Alemanha, Holanda, Bélgica e França. Em Düsseldorf, viram uma pintura de Cristo, coroado de espinhos, com as palavras: “Tudo isto fiz por ti. Que fazes tu por mim?”, que reforçaram sua decisão de viver para Cristo. De volta ao lar, casou-se com a condessa Erdmuth von Reuss, que se tornou a “Mãe Adotiva da Igreja dos Irmãos (morávios)”. Então, aos 22 anos, iniciou seu ofício como conselheiro real em Dresden. Nas tardes de domingo, dirigia estudos bíblicos para interessados. Comprou da sua avó a gleba de Berthelsdorf e, como senhor feudal, instalou seu amigo João Rothe como pastor, orando para que a vila se transformasse em uma real comunidade cristã, sem saber como Deus responderia a este desejo.

Unitas Fratrum
Havia uma igreja protestante florescente antes da Reforma na atual República Tcheca (cujas regiões principais eram Boêmia, ao redor da capital Praga, e Morávia, no leste).
Estudantes tchecos que freqüentavam a universidade de Oxford ouviam o professor John Wycliffe e levavam seus ensinos bíblicos para casa. Um dos influenciados foi o padre João Hus, professor da Universidade de Praga, que pregava com zelo contra os erros na vida e doutrina da Igreja Católica Romana. Condenado pelo Concílio de Constança, foi queimado vivo em 1415, apesar do salvo-conduto imperial.
A Boêmia revoltou-se e foi formada uma igreja evangélica conhecida como a Unitas Fratrum, a União dos Irmãos. Quando, porém, em 1620, a Aústria venceu os tchecos, o novo governo decidiu exterminar os evangélicos. Muitos foram mortos. Outros fugiram, entre eles o famoso educador João Amós Comênio, bispo da Unitas Fratrum, que soluçou que a igreja de Roma tinha se tornado vampira dos próprios cristãos.
Parecia que os evangélicos haviam sido extirpados da Boêmia e da Morávia.
Entretanto havia uma semente oculta e Deus usou um jovem pastor de ovelhas, Cristiano David, para reacender o fogo. Ele era católico fervoroso, mas pela leitura da Palavra de Deus conheceu a verdade e começou a pregar as boas-novas de salvação, causando um despertamento espiritual, o que levou a mais perseguição. Então, procurando uma saída, David encontrou-se providencialmente com Zinzendorf por intermédio de um amigo do pastor Rothe. O conde consentiu em receber crentes perseguidos em sua propriedade e David voltou para Morávia. Assim, cinco famílias deixaram seu lar para atravessar as montanhas e, depois de doze dias, chegaram à vila Berthel em 1722.

Herrnhut
Foram recebidos com carinho. O administrador indicou uma colina distante para os refugiados se estabelecerem. Neste lugar nasceu o lugarejo de “Herrn -hut”, debaixo da “guarda do Senhor”. Mais famílias chegaram no decorrer dos anos seguintes, especialmente herdeiros da Unitas Fratrum. Além destes, foram recebidos anabatistas, calvinistas e outros, o que causou tensões. De fato, Herrnhut era uma congregação da Igreja Luterana de Berthel, mas o líder da confusão conclamou a todos a deixarem-na, xingando-a de ‘Babilônia’. Muitas pessoas foram levadas pela pregação inflamada, até mesmo o próprio pioneiro David. Embora o líder da desavença tenha endoidado e sido internado em um manicômio, o mal cresceu.
Zinzendorf continuava seu trabalho como conselheiro real em Dresden, no inverno, e cuidava da sua propriedade rural, no verão. A igreja na vila Berthel florescia com o trabalho do pastor Rothe. Em sua casa senhorial, o próprio conde explicava a mensagem aos seus arrendatários. Enquanto as coisas iam bem, Zinzendorf não se incomodava com Herrnhut, onde somente perseguidos por causa da fé eram recebidos, prometendo fidelidade à confissão luterana de Augsburg. Em 1727, porém, o radicalismo pediu intervenção.
Depois de muita preparação, convocou a todos para uma reunião na casa-grande em Herrnhut. Ensinou sobre o pecado do separatismo e, depois, como senhor feudal, explicou suas “ordens e proibiçõe s”. Finalmente, submeteu uns “Estatutos” como base para uma (futura) sociedade religiosa voluntária. A reunião foi longa, mas o resultado foi positivo.
Todos lhe deram a mão, prometendo seguir as normas. Ele, por sua vez, garantiu que seus arrendatários nunca seriam seus servos feudais nem sua propriedade pessoal, mas poderiam viver como homens livres, algo especial para a época. No mesmo dia da reunião, foram eleitos doze anciãos para a supervisão da congregação. Destes, quatro foram indicados para servirem como ancião-mor, entre eles o próprio Cristiano David. Posteriormente, foram eleitos guardas-noturnos, inspetores de serviços públicos, ajudantes dos enfermos, cuidadores dos necessitados etc. Também foram organizados grupos pequenos para edificação mútua.

Avivamento
Depois de receber licença da corte real, Zinzendorf dedicou seu tempo a Herrnhut, deixando seus negócios na mão da esposa. Pelas freqüentes reuniões com os refugiados e com os anciãos, ele percebeu a profunda preocupação dos tchecos em ressuscitar a sua igreja. Mas o conde sabia muito bem que as leis do Estado de Saxônia não permitiriam uma igreja independente. Chegou à conclusão de que a melhor solução seria organizar em Herrnhut uma congregação, uma “igrejinha dentro da igreja” (luterana) de Berthel com características da antiga igreja tcheca. Para isto, quase todos os habitantes de Herrnhut assinaram a Concórdia
Fraterna, documento que muito ajudou na paz e no crescimento espiritual. As reuniões de oração, cânticos ou estudos bíblicos era diário. O movimento era de calmo regozijo no Senhor, sem tentativas de estimular as emoções, pois o conde alertara: “Criar excitação religiosa é tão fácil como excitar as paixões carnais. E, freqüentemente, a primeira leva à segunda”.
Depois que as brigas cessaram, o pastor Rothe convidou a todos para participar da Santa Ceia na igreja central de Berthel, marcada para o dia 13 de agosto. Ele enfatizou que, depois de tantas dificuldades, os irmãos estavam sendo convidados pelo Senhor para sentarem com Ele à mesa. Em meio às lágrimas de muitos, o conde fez a oração de confissão pública, pedindo perdão mediante o sangue de Cristo, o livramento de toda cisão e a bênção de uma união de coração, para que pudessem ser bênção para outros, perto e longe. A liturgia sobre o perdão dos pecados foi dirigida por um pastor vizinho que, então, administrou os elementos.
Todos sentiram paz e alegria no Espírito Santo e profunda comunhão com Cristo e com os outros. Depois disseram: “Aprendemos a amar” (Rm 5.5). Não houve manifestações especiais, mas foi um avivamento autêntico. Este foi o dia do renascimento da Igreja dos Irmãos, a Unitas Fratrum.

Resultado
Duas semanas depois, Herrnhut iniciou a “Intercessão de Hora em Hora”. Durante 24 horas por dia havia oração e cada irmão tomava seu lugar no rodízio. Foi a reunião de oração mais longa da história, pois durou mais de um século. Algum tempo depois, jovens solteiros começaram a estudar juntos (a Bíblia, geografia, medicina, línguas etc.), pois sentiram que Deus queria prepará-los para uma outra obra. A chamada macedônica veio em 1731 e, no ano seguinte, começou o imenso trabalho missionário morávio. “Os seguidores do Cordeiro” foram por toda parte e, em 20 anos, Herrnhut mandaria mais missionários do que as igrejas protestantes em seus 200 anos de existência. Lembremo-nos do seu lema:
William Darkeer escreveu: “A contribuição mais importante dos morávios foi a sua ênfase sobre a idéia de que todo cristão é um missionário e deve testemunhar através da sua vida diária. Se o exemplo dos morávios tivesse sido estudado mais cuidadosamente pelos outros cristãos, é possível que o homem de negócio pudesse ter retido seu lugar de honra na missão cristã”.

A VIGÍLIA DOS CEM ANOS
Um dos homens destacados dentre os morávios foi o conde Nicolau. Um grande estadista missionário, o que mais se destacou em todos os tempos. Nascido na Alemanha em 1700 teve poderosa influência sobre o cristianismo protestante primitivo e em muito respeito igualou ou superou seus amigos cristãos, John Wesley e Jorge Whitefield. Fundou a Igreja Moravia; compôs hinos e inaugurou um movimento missionário mundial que preparou cominho para William Carey.
Em 1722 um grupo de refugiados protestantes abrigou-se em sua propriedade em Bertheisdorf. Logo essa propriedade tornou-se própria comunidade. Em 1727, um período de renovação espiritual chegou ao clímax em um culto de comunhão dia 13 de agosto com um grande re-avivamento que segundo os participantes marcou a chegada do Espírito Santo em Bretheisdorf. Esta noite de pentecostes trouxe uma nova febre pelas missões que se tornou a principal característica do movimento morávio.
Foi iniciada uma vigília de orações, que continuou noite e dia, sete dias por semana, sem qualquer interrupção até 1827, denominada a Vigília dos cem anos.
A missão teve muito êxito, a obra missionária floresceu e por volta de 1950 havia sobre a jurisdição morávia 38 postos e quase 5 mil cristãos professos. Além do conde Zinzendorf, o individuo que mais se desenvolveu na fundação da Igreja foi Christian David, seguido de George Schmidt.
Apesar da pobreza e poucos seguidores, os primeiros foram enviados já em 1732.
Após 100 anos de atividade missionária, eles contavam com 41 estações, 40 mil batizados nos campos missionários e 208 missionários. Em 1882 (50 anos depois) já tinham aumentado para 700 estações, 83 mil batizados, 335 missionários e 1500 ajudantes nacionais. A proporção de missionários por membros do movimento chegou a 1 por 25, dificilmente igualado por outro grupo na história de missões.
A estratégia empregada pelos morávios era:
Iniciar o trabalho de missões entre povos pouco evangelizados e esquecidos;
O missionário deveria ser auto-suficiente economicamente através de comércio, indústria caseira, etc;
Aceitar a cultura do povo, não colocando normas européias de costumes e valores;
O missionário era servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não para doutrinar; e,
Se o povo não aceitasse o evangelho, o missionário deveria procurar outro campo.

Os Irmãos Wesley
A família Wesley, na Inglaterra, era já por tradição profundamente dedicada a obra cristã. Foram, principalmente, dois irmãos Wesley que se destacaram na história da Igreja; John e Charles.
John Wesley (1703-1791), a principal figura do metodismo, tinha, já de berço, influências do puritanismo e do anglicanismo. O movimento que surgiu buscou, não obstante, também aspectos do herrnhutismo e do colonialismo. John, justamente com seu irmão Charles, elaborou um método ritualista e ascético para a vida religiosa dos membros. O uso deste método levou ao apelido de metodismo.
Foi entre os operários ingleses que o movimento conseguiu maior êxito e, enquanto John Wesley vivia, tratava-se de avivamento dentro da Igreja Inglesa. Após sai morte, organizou-se numa igreja própria. O metodismo alcançou também a América do Norte estabelecendo sociedades metodistas partindo na divulgação do Evangelho por todo o mundo, com o envio de missionários mais tarde na história.

MISSÕES NA ÍNDIA – O GRANDE SÉCULO MISSIONÁRIO
A Índia é em si mesma um mundo. Tem milhões de habitantes, imersos em todas as formas de superstição e paganismo. Ainda que em algumas partes do prevaleça o budismo e maometismo, a religião que conta com maior número de aderentes é o bramanismo, que admite três deuses: Brama, o deus criador; Visnu, o deus conservador; Civa, o deus destruidor. A essas divindades podem justar-se outras subalternas, representadas por figuras ridículas ou espantosas e que recebem a homenagem de milhões de adoradores. Tais são alguns dos costumes e algumas das crenças do vasto campo de trabalho, que desde longos tempos estão desafiando os missionários cristãos.
Um nome de destaque na Índia foi, William Carey. Carey (1761- 1834), chamado de o “ pai das missões modernas”, era inglês. Foi sapateiro dos 16 aos 28 anos de idade. Converteu-se na adolescência e pertencia a um grupo de batistas. Dedicava-se ao estudo nas horas de folga e assumiu o primeiro pastorado em 1785. Publicou em 1792 um livro de 87 páginas com o título: “Uma Inquirição sobre a Responsabilidade dos Cristãos em Usarem Meios para a Conversão dos Pagãos”. Carey demonstrava uma forte preocupação missionária e um profundo desejo de se envolver diretamente, indo ao campo missionário. Numa pregação em Nottingham proferiu as palavras:
“ Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”.
No mesmo ano de 1792 foi organizada a Sociedade Missionária Batista e no ano seguinte Carey se baseava nos seguintes pontos:
Conversão individual;
Formação de uma igreja nacional autônoma;
Uso de leigos bem treinados nas Escrituras;
Treinamento de pastores nacionais;
Tradução da Bíblia e de literatura cristã.
Participação ativa na sociedade, influenciando a legislação e o ensino.
Apesar de muito sucesso, Carey também enfrentou enormes dificuldades, começando pelo seu próprio lar. O relacionamento com a Sociedade Missionária nem sempre foi harmonioso e os problemas econômicos se faziam sentir. Sua determinação, no entanto, fez superar as adversidades e Carey marcou uma era, deixando uma inspiração missionária para as gerações posteriores e influências positivas no seu país de trabalho.
A exemplo de Carey, outro homem resolveu dar sua vida pela Índia, este foi, Alexandre Duff Chegou a Culcutá com sua esposa em 1830. Nasceu e foi criado na Escócia, sendo educado na Universidade de St. Andrews. O avivamento evangélico, que levou a Escócia a ajoelhar-se na década de 1820, entusiasmou este jovem de 33 anos a se tornar o primeiro missionário da Igreja escocesa para o interior. Em sua viagem para a Índia sofreu dois naufrágios, tendo um deles perdido toda sua biblioteca pessoal. Foi um golpe esmagador para alguém tão aplicada à erudição como ele.
Quando os hindus souberam que ele escapara do naufrágio, disseram: “Certamente este homem é um dos favorecidos dos deuses e, portanto de uma obra importante a realizar entre nós”.
Duff iniciou logo seus trabalhos os quais consistiam na criação de Institutos destinados a ensinar inglês, língua, que eram obrigados aprender os hindus que quisessem conservar o contato com os dominadores do território. Desse modo, Duff queria abrir um caminho para as classes mais elevadas. Em 1831, abriu sua escola com cinco alunos. No fim da primeira semana havia mais de 300 pedindo entrada. Com o tempo chegou a mais de mil o número de alunos. De modo, que ao mesmo tempo, que ensinava inglês, adquiria influência entre a juventude e ensinava-lhes também o cristianismo. Alguns dos que vieram a dirigir os destinos do povo foram ganhos também para Cristo. Entre outros é digno de especial atenção Ram Mohan Roy.
Por causa da capacidade intelectual de Duff, vários príncipes hindus vieram do interior para conhecerem sua Instituições.
Em 1864, a falta de saúde obrigou-o voltar para seu país natal, o que foi lamentado por todos. Apesar de suas escassas forças físicas, fez na Inglaterra uma obra importante como professor nos colégios indicados a preparar missionários. Neste trabalho por onze anos e em 1878, faleceu aos seus 72 anos.

Adoniram Judson (1788-1850)
Judson era americano, inicialmente da Igreja Congregacional, mas foi enviado pelos batistas americanos para a Índia. Permaneceu ali pouco tempo e escolheu como novo campo a Birmânia.

David Livingstone (1813-1873)
Livingstone também era escocês, quem sabe o mais famoso de todos os missionários do período. Estudou medicina e teologia, finalizando os estudos em 1840, sendo enviado no mesmo ano para a África, pela Sociedade Missionária Londrina. Foi um grande desbravador do interior africano, contribuindo, tanto para a divulgação do Evangelho, como para a exploração do continente.

Mary Slessor (1848-1915)
Slessor era escocesa e representa o grande contingente de mulheres engajadas na obra missionária durante este período. De origem presbiteriana apresentou-se em 1875 à Missão de Calabar (Nigéria) que era uma das missões que aceitavam missionárias solteiras. Fez trabalho pioneiro de evangelismo, mas também se envolveu no apoio a escolas, clínicas médicas e servindo o povo local vivendo de forma simples ao estilo da população de Calabar.

Robert Morrison (1782-1834)
Morrison de origem inglesa era presbiteriano e tinha desde a juventude o desejo de servir no campo missionário. Apresentou-se à Sociedade Missionária Londrina em 1804, sendo enviado para a China em 1807. Foi o primeiro a traduzir a Bíblia ao chinês.

John Paton (1824-1907)
Paton era escocês, também presbiteriano, e trabalhou inicialmente entre os cortiços de Glasgow, como missionário. Em 1858 navegou para as Ilhas do Pacífico onde trabalhou em diversas ilhas, contribuindo para que, no final do século XIX, poucas ilhas não tivessem sido alcançadas.
Quando o rei Frederico IV da Dinamarca precisou de missionários para enviar aos seus súditos, na colônia dinamarquesa de Tranquebar, não encontrando em seu reinado quem se dispusesse a faze-lo, recorreu ao pietista alemão August H. Francke (1663-1727), que lecionava na Universidade de Halle, o qual enviou Bartholomew Ziegenbalg (1683-1719) e Henry Plütschau (1677-1747), os quais partiram da Europa no fim de 1705, chegando em Tranquebar no dia 9 de julho de 1706, sendo os primeiros missionários, não católicos, a chegarem na Índia, provenientes da Europa.
Apesar de não serem bem recebidos pelos colonos dinamarqueses, Ziegenbalg e Plütschau não se intimidaram, iniciando os seus estudos do idioma nativo, tendo Ziegenbalg se destacado pela facilidade em aprender outras línguas. Eles traduziram para o tamil o Catecismo de Lutero, orações e hinos luteranos. Em 1711, por questões de saúde, Plütschau regressou definitivamente para a Europa. Ziegenbalg continuou o seu trabalho; compilou uma gramática tamil, escreveu uma obra sobre o Hinduísmo, traduziu para o tamil o Novo Testamento (1714) e o Antigo Testamento até o livro de Rute. Ele fundou uma escola industrial e outra para a preparação de catequistas e, também, a primeira imprensa evangélica da Ásia (esta com a ajuda financeira da Sociedade Anglicana para a Promoção do Conhecimento Cristão).
Quando Ziegenbalg morreu em 1719, existia em Tranquebar uma comunidade luterana de cerca de 350 pessoas.
Poderíamos citar muitos outros missionários e missionárias, verdadeiros “heróis”, deste período. Inclusive, é importante frisar que mesmo que a história escrita tenha se concentrado nos homens, muitos deles só puderam realizar a obra devido ao apoio de suas esposas.

MISSÕES PARA OS ÍNDIOS AMERICANOS
Nenhuma outra população nativa tem sido tão solicitada e perturbada por autoridades governamentais, políticos e líderes religiosos do que os índios americanos.

John Eliot (1604-1690)
Foi um dos primeiros e talvez o maior de todos os missionários para os índios americanos, conhecido como “Apóstolo dos Índios”. Nasceu na Inglaterra em 1604, mas somente aos 40 anos começou seu trabalho missionário. Chegou à América em1631.
Pertencia a Missão Indígena dos Puritanos da Nova Inglaterra e trabalhou duramente toda sua vida tentando alcançar os indígenas.
Em 1645, fez seu primeiro sermão a um grupo de índios. À medida que as semanas e meses se passavam, alguns índios foram convertidos em menos de um ano. Eliot documentou o seguinte: “ Os índios abandonaram completamente suas cerimônias de conjuração. Estabeleceram períodos de oração em suas tendas, de manhã e à noite”.
A estratégia utilizada pela missão de Eliot foi:
Evangelizar, principalmente através da pregação;
Reunir as pessoas convertidas em igrejas locais; e,
Fundar cidades cristãs, numa forma de segregação da sociedade corrupta.
O missionário sempre se preocupa com o bem estar social dos índios. Ele queria mais que simples profissão de fé. Buscava maturidade espiritual de seus seguidores. Por isso, em 1649, começou traduzir a Bíblia no idioma Moicana. Pouco antes de morrer em 1690 com 85 anos, John Eliot disse: “Pouco posso fazer; todavia, tomei uma decisão pela graça de Cristo, jamais, deixarei o trabalho, enquanto tiver pernas para andar”.

David Brainerd (1718-1747)
Depois de John Eliot, Brainerd foi o mais famoso daqueles que trabalharam entre os índios. Nasceu no ano de 1718 em Haddam, Connecticut. Brainerd havia sido expulso do curso teológico de Yale por afirmar que um certo professor não tinha mais a graça de Deus do que uma cadeira. Seus primeiros passos como missionário foram solitários e deprimentes: “Meu coração estava abatido, parecia-me que jamais teria êxito junto aos índios. Minha alma estava cansada da vida. Eu desejava a morte, acima de tudo”.
Em 1745, houve um reavivamento entre os índios quando as fontes dos esforços de David se evidenciaram. Em 1746, convenceu os índios dispersos em Nova Gersey a se reunirem em Cranbury, onde logo foi estabelecida uma igreja. Após um ano e meio os convertidos chegavam a quase 150. Brainerd morreu dia 9 de outubro de 1747, acometido por tuberculose. David Brainerd foi um desses homens.
Tem sido dito que Brainerd orava nas florestas até que a neve se derretesse debaixo de seus pés. Mesmo assim, Brainerd viveu menos de trinta anos. De 1743 a 1747, ele se esforçou para alcançar os índios da América para Cristo. Ele lutava constantemente em oração pelas multidões. Sua curta vida foi um impacto para todo o mundo cristão. A. J. Gordon disse a respeito de Brainerd: “ Esse homem orava secretamente nas florestas. Um pouco mais tarde, William Carey leu sobre a sua vida e, impulsionado pela leitura, foi à Índia. Payson, ainda jovem, com pouco mais de vinte anos, após ter feito a mesma leitura, disse que nunca ficou tão impressionado com qualquer coisa em sua vida, como com a história de Brainerd. Murray McCheyne disse que ele, de igual modo, ficou impressionado com aquela leitura”.
Brainerd morreu na casa de Jonathan Edwards, que foi poderosamente usado por Deus no primeiro Grande Despertamento na América. Sobre Brainerd, Edwards falou: “ Eu louvo a Deus porque foi por sua providência que ele morreu em minha casa, para que eu pudesse ouvir suas orações, testemunhar sua consagração e ser inspirado pelo seu exemplo”.
À medida que corria o século as missões entre os índios decresceu. Os missionários dirigiam-se para as terras exóticas, onde a população nativa não podia interferir com o avanço da sociedade americana. Muitos eruditos concordam que a evangelização dos índios como de um todo, não foi uma história de sucesso, sendo o fator principal o intenso conflito entre as duas culturas com vistas ao domínio da terra e a crença arraigada dos Estados Unidos de raça branca de que, os índios eram racialmente inferiores e que, não valia a pena preservar aquelas culturas.
Após a morte de David Brainerd, outros nomes se destacam nas missões indígenas americanas: Eleazar Wheelock, David Zeisberger, Isaac McCoy, Narcissa Whitman, Henry Spaulding.

MISSÕES NA ÁFRICA
Durante séculos a África Negra foi conhecida como “Cemitério do Homem Branco”.
Nesta região a evangelização tem tido um empreendimento dispendioso. Embora as missões protestantes tivessem começado tarde na África, ela tem sido um dos campos missionários mais produtivos no mundo. Calcula-se que neste século 50% da população será composta de cristãos. A maior parte desse crescimento surgiu no século XX, no século IX o trabalho foi lento, mas, foram os missionários pioneiros daquele século que arriscaram tudo para abrir caminho ao evangelho na África.
O futuro o cristianismo na África segundo os missionários, dependia da influência européia e do comércio. Poucos missionários se opunham aos conceitos subjacentes do imperialismo que está sendo destacado em anos recentes. Os missionários foram seriamente criticados devido a essa influência, porém, eles travaram longas e amargas batalhas, algumas vezes fisicamente, contra o tráfico de carga humana. E depois do desaparecimento do mercado de escravos, lutaram contra outros crimes, incluindo as táticas cruéis usadas pelo rei Leopoldo para extrair borracha no Congo. Os missionários eram pró-África e sua defesa da justiça racial muitas vezes fez com que fossem desprezados pelos seus irmãos europeus.
Podemos afirmar que sem a consciência das missões cristãs, muitos crimes praticados pelo colonialismo teriam continuados impunes. As missões protestantes para a África começaram na Colônia do Cabo com os morávios no século XVIII. Em princípios do século XIX, os missionários estavam penetrando em três das principais cabeças de praia. Começaram na Costa Oeste entrando em Serra Leoa, na Costa Leste a partir da Etiópia e Quênia e no Sul estabeleceram sua missão base na cidade do Cabo.

Robert e Mary Moffat (1795-1883)
Este homem foi o patriarca das missões na África do Sul. Teve significativa influência nesta parte do mundo durante mais de um século. Embora durante sua vida sempre foi ofuscado pelo seu genro sendo sempre chamado de “o sogro de David Livingstone”, entre os dois ele foi o maior missionário. Ele era um evangelista, tradutor, educador, diplomata e explorador, combinando eficazmente esses papéis e se tornando um dos maiores missionários na África de todos os tempos.
Nascido na Escócia em 1795 foi criado em circunstância humilde sem nenhum treinamento bíblico formal. Ele não tinha grande inclinação pelos assuntos espirituais, embora seus pais fossem presbiterianos com forte zelo missionário. “Fugiu para o mar” por algum tempo e aos 14 anos tornou-se um aprendiz de jardineiro, aprendendo uma arte que praticou pelo resto de seus dias.
Em 1814, na cidade de Cheshire, Inglaterra, entrou em uma pequena Sociedade Metodista cujas reuniões eram realizadas numa casa de fazenda nas vizinhanças. Essa associação aquecera seu coração. Em 1815, quando ouvia uma mensagem pelo Rev. William Roby, um dos diretores da Sociedade Missionária Londrina, se ofereceu à mesma para servir como missionário.
Sendo rejeitado, porque o achou incapaz de efetuar esse sofrido trabalho. Moffat não desanimou, começou estudar teologia com Roby. Depois de um ano se candidatou novamente à SML, sendo então aceito. Logo, foi enviado à África do Sul e depois de 85 dias no mar chegou a cidade do Cabo.
Os hardships e as circunstâncias primitivas não o deterão, enquanto introduziu para o norte no interior, onde ganhou para Cristo o mais perigosos outlaw o chefe nessa região.
Retornando a Capetown em 1819, encontrou-se a jovem missionária Mary Smith, a qual Moffat havia conhecido na Inglaterra. Casaram-se permanecendo assim durante 53 anos. Em 1827, Moffat, deixou sua mulher com os seus filhos pequenos e foi estudar por onze semanas a língua de uma tribo africana chamada Kuruman, onde assegurou o papel de líder.
Ao voltar estava pronto para iniciar a tradução da Bíblia neste idioma, passando 29 anos para completar. Em 1829, quase dez anos da chegada de Moffat em Kuruman, foi realizado o primeiro batismo e em 1838, uma grande Igreja de pedra foi construída existente ainda nos dias de hoje.
Embora a carreira de Robert Moffat seja geralmente associada a Kuruman, sua obra se estendeu muito além dessa área. Na verdade o núcleo de crentes em Kuruman não passou de duzentos, mas, sua influência fez-se sentir a centenas de quilômetros. Chefes ou representantes de tribos longínquas iam a Kuruman para ouvir suas mensagens. A mais notável dessas ocasiões foi quando um grande e temido Moselekatse, um dos chefes tribais mais infames da África, enviou cinco representantes para visitar Moffat e leva-lo de volta com eles. O encontro entre Moffat e Meselekatse foi inesquecível. Embora Meselekatse nunca houvesse se convertido, ele permitiu que missionário inclusive o filho e a nora de Moffat, John e Emily, estabelecessem um posto missionário entre sua tribo. Contudo, por mais longe que Moffat viajasse, seus pensamentos nunca se afastavam de Kuruman, a qual se tornara um cartão de visita da civilização africana.
Três de suas crianças morreram. Mary, a filha a mais velha tornou-se a esposa de David Livingstone.
O trabalho de Moffat era a pedra basilar que outro usou em espalhar o evangelho durante todo "o continente escuro”. Abriu muitas estações de missões e serviu como o missionário pioneiro em uma área de centenas de milhas quadradas. Traduziu a Bíblia na língua do Bechwanas.
Em 1870 após 53 anos na África, ele sua esposa retornaram a Inglaterra onde um ano mais tarde Mary morreu. Moffat por mais 13 anos continuou a promover missões estrangeiras, viajando pelas ilhas Britânica, tornando-se estadista missionário, desafiando adultos e até jovens com as tremendas necessidades do continente Africano.
Levantou fundo para um seminário para que fosse construído na estação de Kuruman onde os estudantes nativos foram preparados para o trabalho missionário entre seus próprios povos. Em sua morte em 1883, os jornais de Londres escreveram: Talvez não mais alma genuína respirada sempre... Não se dirigiu às audiências cultivadas dentro dos salões majestosos da abadia de Westminster com a mesma maneira simples em que conduziu à adoração nos huts dos selvagens.

MISSÕES NA EUROPA
O período de 1000 a 1500 é marcado pela expansão da Igreja ao norte europeu e pelas lutas em torno do Mediterrâneo, as chamadas Cruzadas.
Notamos que a expansão da Igreja, assim como o combate aos muçulmanos, se dá muito mais em função de interesses políticos, do que por questões espirituais ou religiosas.
Naturalmente, existem exceções que deixam algum saldo positivo do período.
Segundo os cálculos de Dionízio Exíguo, a era da Igreja estava chegando ao fim no finam de mil anos. Pensava ele que, esta data marcada por tremendas calamidades, daria início ao terrível juízo final. Na realidade nada demais aconteceu, contudo o ano deve ser tomado como uma espécie de marco divisório. Uma Europa que possuía por fim um contorno cristão começava sair dos piores horrores da idade média e acumulava uma energia interior que iria se manifestar no decurso dos quatro séculos seguintes, através do comercio, aventuras militares, arte, arquitetura e felizmente na construção do edifico do pensamento teológico.
A primeira tarefa, portanto, consistia na Europa difundir o Evangelho até aos seus próprios limites. Porém, a Escandinávia vivera durante séculos num quase completo isolamento em relação ao resto do mundo. Durante anos os Nódicos permaneceram nas suas terras distantes, lutando entre si. De repente, no século VII, começaram a expandir tornando-se o terror no mundo civilizado e em particular do mundo cristão. A variedade das suas devastações é assustadora e a destruição por eles provocada quase não conheceu limites.
A Inglaterra foi uma das primeiras vítimas. Lindisfarne viu-se saqueada em 793. Jarrow em 194. o reino saxão de Northumbria caiu em chamas em 867 e durante certo tempo, pensou-se que a Inglaterra seria uma colônia dinamarquesa. No entanto foi a Irlanda que sofreu mais os ataques dos Vikings, tendo sido completamente destruída a grande e bela civilização cristã e a fonte de muito esforço missionário. Em 851, o norueguês Olaf, o branco, se estabeleceu em Dublin, criando um reino pagão que iria durar cerca de três séculos.
No continente europeu eram os dinamarqueses que tomavam a chefia, em relação aos noruegueses. Toda Europa Ocidental foi sistematicamente devastada. Na França do norte e na Holanda, vastas áreas transformaram-se em desertos e os cristãos, sempre que possível, fugiam da tempestade destrutiva. Os normandos conseguiram se agrupar na Itália meridional e na Sicília e o seu reino floresceu gradualmente até atingir uma alta civilização, cujo período culminante se verificou durante o reinado do imperador Frederico II (1194-1250), e que aproveitou elementos da Grécia, do mundo muçulmano, da tradição latina e do norte da Europa.
A Dinamarca encontrava-se em maior contato com a Alemanha e, portanto, com o mundo cristão. Seria ali, naturalmente que o cristianismo teria suas primeiras penetrações com êxito. Anskar conseguiu fundar um certo número de Igreja na Dinamarca, mas, a pressão da evangelização não podia manter-se e a vida da Igreja era incerta. Mas, em 1104, Lund, onde é hoje a Suécia, e que era então a principal cidade dos domínios dinamarqueses foi elevada á categoria de sede arcebispal e um dinamarquês nomeado seu arcebispo. A Igreja dinamarquesa ganhava assim, sua estrutura própria, independente de qualquer prelado vizinho.
Na Noruega, como na Dinamarca, o pode real desempenhou um papel importante na introdução da fé cristã. O primeiro herói importante da campanha da fé cristã, se tal nome lhe pode atribuir foi o viking espadachim Olaf Tryggvesson (995-1000), que havia sido educado numa colônia escandinava na Rússia, onde iniciara sua carreira como guerreiro. Em 995 depois de seu batismo Olaf votou à Noruega onde foi eleito rei de todo o país.
Logo após haver sido eleito, Olaf dedicou-se à tarefa de fazer do cristianismo a religião dos noruegueses. Olaf morreu no ano 1000, porém, sua obra foi continuada por outro Olaf: Que tinha por sobrenome Haraldsson (995-1030), conhecido depois como “santo Olaf”, este fez com que o evangelho penetrasse profunda e permanentemente no povo.
Pro volta do ano 1220, quase toda Europa era cristã numa certa medida. Porém, uma vasta área permanecia no paganismo. Os pagãos por sua vez convocaram uma grande reunião em que decidiram sacrificar 2 homens em cada trimestre e pedir aos deuses pagãos que os livrasse de sofrer do cristianismo e impedisse a expansão deste pelas suas terra. Mas, os cristãos também, organizaram uma reunião e falaram:
“Os pagãos sacrificaram os piores homens e atiraram-nos pelos desfiladeiros abaixo; nós, porém, sacrificaremos os melhores homens, como dádiva a nosso Senhor Jesus Cristo e comprometemo-nos a viver melhor e com menos pecado e ofereceremos como penhor de vitória de nosso Trimestre”.

As Cruzadas (1096-1291)
O primeiro grande empreendimento da Europa renascido foi as Cruzadas, iniciadas em 1096, prosseguindo até o ano de 1291. Mas, o movimento das Cruzadas durou até 1492, quando os mouros foram definitivamente vencidos.
A idéia de libertar os lugares santos cristãos das mãos dos infiéis não era em si mesma ignóbil. Os homens já lutaram por causas menos elevadas que esta. Porém depois de ter dito tudo o que se pode dizer de favorável em relação às cruzadas, o que o cristão deve considerar é que representou um desastre irreparável a causa cristã.
Havia entre os cristãos homens retos e de espírito superior, como Bulhão, o primeiro rei cristão de Jerusalém, mas, para a maioria dos guerreiros cristãos, os muçulmanos eram infiéis, sem direito a existência, cuja fé não era necessária conservar e que podiam ser chacinados sem dó nem piedade, para a maior glória do Deus cristão.
Evidentemente, o ódio cria ódio e o fel engendra fel. Os serracenos sentiam-se igualmente felizes ao poder chacinar os cristãos o que perante o seu próprio juízo se encontrava bem justificado.
As principais razões para o uso da ofensiva armada dos cristãos nos países do sul europeu foram:
Sentimento religioso – o desejo de se fazer peregrinações a Jerusalém, em poder dos muçulmanos;
Salvação pelas almas – sendo que a participação numa cruza era contada como uma boa obra diante de Deus;
Busca de aventura – atraindo os homens para as longas e demoradas viagens.
Desejo de unir as igrejas ocidental e oriental;
A miséria e a fome que predominavam o mundo da época trouxeram um profundo desejo de mudanças e de novas conquistas, além de um fortalecimento do sentimento religioso que levaram muitos a buscarem a realização do monasticismo e do ascetismo.
A primeira cruzada vai de (1096-1099).
A Segunda de (1147-1149) e a Terceira de (1189-1192).
De três formas deixaram as Cruzadas a sua marca indelével na história cristã:
1. Lesaram para sempre as relações entre os ramos ocidental e oriental da cristandade. O mal atingiu o clímax quando a quarta cruzada se desviou de seu objetivo, saqueando Constantinopla em 1204 e, instalando um precário império latino sobre a ruína oriental assim que fora destruído. Sessenta anos depois os bizantinos reagiram, expulsaram os estrangeiros e criaram novamente o seu próprio império oriental. Mas, este era uma sombra do anterior, permanentemente enfraquecido pela luta infindável contra os muçulmanos. Quando Constantinopla caiu nas mãos dos turcos em 1453, revelou-se toda a extensão das culpas dos cruzados.
2. Os cruzados deixaram um rastro de amargor nas relações entre cristãos e muçulmanos que continua sendo um fator vivo na situação mundial de nossos dias. Para os muçulmanos, o ocidente é o grande agressor. Há cerca de 900 anos, participou deliberadamente deste papel em nome de Cristo e hoje é muito difícil apagar esta imagem, que continua presente no espírito muçulmano. Porém, isto não quer dizer que os muçulmanos hajam sido sempre ternos e gentis. Também foram bastante agressivos sempre que se viram com força e autoridade para aplica-la, mas, em qualquer caso, os muçulmanos não pretendem ser seguidores do Príncipe da Paz. Para cada muçulmano das terras mediterrâneas, as cruzadas foi um acontecimento de ontem e as feridas estão prontas a abrirem-se de um momento para outro.
3. As cruzadas explicaram a descida da temperatura moral da cristandade. Uma cruzada dirigida contra o barbarismo pagão do Norte poderia tornar-se grande catástrofe. É impossível discordar do juízo moderado de um historiador das cruzadas, dos nossos dias: “Visto dentro da perspectiva da história, todo o movimento das cruzadas foi um vasto fiasco”. “Os triunfos das cruzadas foram triunfos da fé”. Mas a fé sem sabedoria é perigosa. O historiador quando regride nos séculos observando a sua história galante, acaba por encontrar a sua admiração vencida pela tristeza, ao verificar as limitações da natureza humana. Havia muita coragem e pouca honra; muita devoção e pouca compreensão. Os grandes ideais foram maculados pela crueldade e pela avidez.
Viram-se afetados por uma retidão cega e estreita que a própria Guerra Santa foi nada menos que um grande ato de intolerância em nome de Deus, o que é um pecado contra o Espírito Santo.
Contudo, as cruzadas foram os primeiros sintomas do despertar da Europa e de uma nova capacidade, por parte dos povos europeus de agirem juntamente como um todo. Embora alguns cristãos afirmassem que o serraceno só era bom depois de morto, havia outros que pensavam diferente e acreditavam que por meio da pregação clara e piedosa do evangelho, os serracenos seriam ganhos para a fé em Cristo.

Cruzadas contra os judeus
Um dos maiores missionários que surgiu nesta época da história foi Raimund Lull, nascido em 1235, na ilha de Maiorca e dedicando-se à Seara do Mestre durante 50 anos. Luul escreveu dizendo: “ Os missionários converterão o mundo por meio da pregação, mas, também, vertendo lágrima e sangue através de grandes trabalhos seguidos de mortes amargas”.
Não era este um homem que formulasse pensamentos que não estivesse pronto para traduzir em atos. Visitou quatro vezes a África do Norte para pregar aos muçulmanos e discutir com eles em pessoa. Na quarta destas visitas, em Gugia, em 1315 foi de tal modo agredido que morreu em resultado dos ferimentos recebidos.

MISSÕES NA ÁSIA
O primeiro grande avanço das missões estrangeiras deu-se ao Sul da Ásia Central. Foi muito difícil a obra do Senhor neste lugar, pois, ali eram praticadas as religiões mais velhas e complexas do mundo, como o hinduísmo, budismo, islamismo, sikismo ou jainismo. Que atração poderia haver numa tradição dogmática como o cristianismo? Os hindus com seus milhares de deuses pensavam ser superiores ao cristianismo que lhes apresentava um único Deus.
Mas, o cristianismo como William Carey e os que o sucederam demonstraram que tinham tudo a oferecer ao povo da Ásia Central. Mesmo sem levar em conta o dom gratuito da salvação e da vida eterna, só o cristianismo oferecia as pessoas à libertação das cadeias do antiqüíssimo sistema de castas e do processo interminável de reencarnações que os escravizava.
Só o cristianismo se aproximava dos “intocáveis” e lhes oferecia esperança para o momento presente. Só o cristianismo estava disposto a sacrificar seus jovens, homens e mulheres nos perigos do Sul da Ásia com seu clima excessivamente quente, num amor desprendido, a fim de erguer espiritualmente seu povo.
Os sacrifícios de Carey, Judson e outros que trabalhavam na Índia e na Ásia foram imensos. Carey e Judson sepultaram duas esposas cada um, assim como filhos pequenos, mas, nenhum preço era considerado alto demais para o privilegio de levar o Cristo a essa área do mundo.

MISSÕES NA AMÉRICA CENTRAL
Em fins de 1880 essa área do mundo chamou a atenção de C. I. Scofield, americano que se tornou famoso pela sua Bíblia editada em linguagem popular. Nesta época os missionários já estavam em quase metade do mundo, porém, haviam se esquecido de seus vizinhos do lado. Baseando sua estratégia como considerava um princípio missionário em Atos 1.8, Scofield decidiu corrigir seu erro: “ Tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria – América Central é o campo não ocupado mais perto de qualquer cristão nos Estados Unidos ou no Canadá! Nós nos esquecemos da nossa Samaria”.
Scofield nasceu em Michigan em 1843 e cresceu no Tennessee. Tendo estudado Direito foi admitido na Ordem dos Advogados em Kansas em 1869. Serviu na Assembléia Legislativa e veio ser mais tarde Procurador dos Estados Unidos sob o Presidente Grant.
Em 1879 quando exercia sua profissão, um cliente testificou a ele e o resultado foi sua conversão ao cristianismo. Para ele que era escravo da bebida sua conversão foi dramática.
Em 1883, iniciou um estudo intensivo da Bíblia. Durante 13 nos serviu como Pastor em Dallas e depois fundou a Faculdade Bíblica Filadélfia. Em 1890, fundou o MAC, depois de quatro meses a missão já tinha o primeiro candidato para Costa Rica. Em 1894 já havia sete missionários na Costa Rica.
Em 1899, a Guatemala foi atingida e em 1900, a MAC chegou a Nicarágua. Após 10 anos a missão possuía 25 missionários trabalhando em cinco áreas da América Central e apesar das dificuldades continuou crescendo e está em atividade até hoje, com cerca de 300 missionários em seis repúblicas centro-americanas, além do México.
Porém, se certas sociedades missionárias se interessavam pela América Central a outra América, a Latina foi negligenciada durante séculos pelos protestantes. Em fins do século IXI, a percepção desse esquecimento começou a aumentar. Lucy Guineess, escreveu um livro chamado, “O Continente Negligenciado”, sublinhava a negligencia espiritual da América do Sul e ajudou a despertar muitos cristãos para sua responsabilidade. Homens que deram suas vidas pelas missões Latinas: Dave Bacon, Cecil Dye, Geroge Hosback, Bob Dye e ldon Hunter.

MISSÕES NO SÉCULO DEZOITO
• 64 – Começa a perseguição de Nero
• 67 – Martírio de Pedro e Paulo
• 70 – Destruição de Jerusalém
• 156 – Martírio de Policarpo

Mundo Mediterrâneo
• 165 – Morte de Justino Mártir
• 203 – Morte de Perpétua
• 303 – Começa a perseguição de Dioclécio
• 313 – Constantino expede o Edito de Milão
• 325 – Concílio de Nicéia
• 340 – Início do Ministério de Ulfilas com os Godos
• 595 – Gregório, o Grande nomeia Agostinho
• 638 – O Islã conquista Jerusalém
• 1095 – Início das Cruzadas
• 1276 – Lull abre o mosteiro em Maorca
• 1316 – Morte de Raymond Lull

Europa Septentrional e Ocidental
• 361 – Martin de Tours começa seu trabalho missionário
• 432 – Patrício chega à Irlanda
• 496 – Conversão de Clóvis
• 563 – Columba chega à Escócia
• 716 – Bonifácio inicia seu trabalho missionário
• 732 – Batalha de Tours
• 744 – Fundação de Fulda
• 800 – Carlos Magno coroado imperador
• 827 – Anskar chega à Dinamarca
• 1212 – Francisco de Assis inicia sua missão para a Síria
• 1216 – Fundação dos Dominicanos
• 1219 – Franciscanos enviados para África do Norte
• 1534 – Fundação dos Jesuítas
• 1622 – Fundação de Propaganda
• 1705 – Fundação da Missão Dinamarquesa
• 1722 – Zinzerdorf estabelece Herrnhut
• 1773 – Jesuítas reprimidos pelo papa

Ásia e África
• 635 – Nestorianos chegam à China
• 1219 – Frei John chega à Pequim
• 1542 – Xavier chega à Índia
• 1583 – Ricci chega à China
• 1606 – de Nobili chega à Índia
• 1706 – Ziegenbalg, na Índia
• 1737 – Geroge Shimt, na África do Sul
• 1750 – C. F. Schwartz chega à Índia

Novo Mundo
• 1510 – Dominicanos chegam a Haiti
• 1523 – Las Casas une-se aos dominicanos
• 1555 – Calvino envia colonos ao Brasil
• 1625 – Brébeut nomeado para Nova França
• 1646 – John Eliot faz o primeiro sermão aos Índios
• 1675 – Guerra do rei Felipe
• 1722 – Egede chega à Groelândia
• 1732 – Morávios enviam missionários às Ilhas Virgens
• 1733 – Christian David chega à Groelândia
• 1743 – Brainerd inicia trabalho missionário
• 1744 – Zeiberger começa ministério aos Índios

MISSÕES NO SÉCULO XIX “O GRANDE SÉCULO”
Índia e Ásia Central
• 1793 – William Carey chega à Índia
• 1806 – Chegada de Henry Martyn à Índia
• 1812 – Partida dos primeiros missionários americanos
• 1819 – Fundação do Colégio de Serampore
• 1824 – Prisão de Judson
• 1830 – Chegada de Alexander Duff à Índia
• 1834 – Morte de Carey
• 1845 – Licença de Hudson nos E.U.A.
• 1850 – Morte de Hudson
• 1870 – Dra. Clara Swain chega à Índia
• 1878 – Batismo em massa de John Clough
• 1896 – Amy Carmichael começa obra em Tinnevelly

África Negra
• 1799 – Vanderkemp chega ao Cabo
• 1825 – Moffat se estabelece em Kuruman
• 1841 – Livingstone chega à África
• 1844 – Krapt chega a Quênia
• 1864 – Crowther consagrado bispo
• 1873 - Morte de Livingstone
• 1874 – Stanley começa a jornada de 999 dias
• 1875 – Grenfell chega ao Congo
• 1876 – Mackay chega à Uganda
• 1890 – O bispo Tucker chega à Uganda
• 1896 – Morte de Peter Cameron Scott

Extremo Oriente
• 1807 – Morrison chega à Cantão
• 1814 – Morrison batiza o primeiro convertido
• 1840 – Gutzlaff inicia ministério na costa chineza
• 1842 – Tratado de Nanguim
• 1854 – Taylor chega a Changai
• 1859 – Missionários protestantes chegam ao Japão
• 1865 – Primeiro missionário protestante chega a Coréia
• 1867 – Morte de Gracie Taylor
• 1868 – Incidente de Yagchow
• 1870 – Morte de Mary Taylor
• 1877 – Jannie Taylor volta sozinha à China
• 1900 – Rebelião dos Boxes

lhas doPacífico
• 1796 – Duff viaja para o Pacífico Sul
• 1817 – William chega aos Mares do Sul
• 1819 – Batismo de Pomare
• 1820 – Início da Missão Havaiana
• 1837 – Coan começa
• 1838 – A Bíblia é publicada em italiano
• 1839 – Martírio de Williams
• 1848 – Gedie chega a Aneityum
• 1855 – Patterson viaja para os Mares do Sul
• 1858 – Paton chega a Tanna
• 1866 – Chalmers viaja para os Mares do Sul
• 1871 – Martírio de Patterson
• 1873 – O padre Damião chega a Molocai
• 1882 – Florence Young inicia ministério em Fairymead
• 1901 – Martírio de Chalmers

Europa e América do Norte
• 1795 – Fundação da Sociedade Missionária Londrina
• 1799 – Fundação da Sociedade Missionária da Igreja
• 1810 – Fundação da Junta Americana de Comissionários para Missões Estrangeiras
• 1835 – Whitman viaja para Óregon
• 1837 – Remoção dos Cheroquis
• 1847 – Massacre de Waiilatpu
• 1865 – Fundação da Missão para o Interior da China
• 1886 – Nascimento do Movimento Voluntária Estudantil
• 1887 – Fundação da Aliança Cristã Central
• 1890 – Fundação da Missão Americana Central
• 1892 – Grenfell chega ao Labrador
• 1893 – Fundação da Missão para o interior do Sudão
• 1895 – Fundação da Missão para o interior da África.

MISSÕES NA AMÉRICA LATINA
É impossível descrever o movimento missionário no mundo do século XX e início do século XXI, em todos os seus lances, num período de grandes mudanças e de muitas iniciativas missionárias. O enfoque, portanto, será dado ao contexto latino-americano de forma geral. Recomendamos o estudo do avanço missionário em outras regiões do mundo na literatura produzida em cada região. A história do ponto de vista do norte está nas obras tradicionais e clássicas.

A Chegada das Missões à América Latina
Através dos descobrimentos e das iniciativas de colonização dos paízes católicos romanos do sul da Europa, as missões cristãs chegaram ao nosso continente. Como já vimos, em 1492, Cristóvão Colombo chega às Bahamas; em 1500, Pedro Álvares Cabral ao Brasil; em 1519, Hernán Cortés ao México; e, em 1531, Francisco Pizarro ao Peru. Além do governo de seu país, representavam a fé cristã, que pouco a pouco, invadia as antigas terras indígenas do Novo Mundo.
Três aspectos que caracterizaram as missões católicas que chegaram à América Central e do Sul:
Imposição – a cristianização à força
Superficialidade – não atingiu a alma do povo
Sincretismo – aproveitou-se elementos religiosos já existentes e não fez clara distinção entre o cristianismo e o animismo. Inclusive facilidade pelo misticismo espanhol e português.
Nem todos os franciscanos, jesuítas e dominicanos que chegaram ao Novo Mundo eram solidários com os governos conquistadores e colonizadores da Espanha, Portugal e Itália. Um excelente exemplo é o dominicano Bartolomeu de Las Casas (1474-1566), que lutou a favor dos indígenas nas Ilhas do Caribe – Espanhola (República Dominicana e Haiti).
As reduções na região das Missões, principalmente no atual Paraguai, iniciadas pelos jesuítas, foram modelos de cidades que visavam o desenvolvimento político, social, cultural, tecnológico e religioso dos Guaranis.
Costuma dividir-se este tempo de missões católicas em três fases:
Heróica – a conversão e o batismo dos indígenas sem critérios
Missionária – o ensino mais sistemático sobre a doutrina e a prática cristã
Paroquial – o estabelecimento do sistema católico mais sólido.

As Missões Protestantes
A primeira tentativa como sabemos foi feita pelos huguenotes franceses, com a chegada de Villegagnon ao Brasil em 1555. Os franceses foram, no entanto expulsos em 1567 e nada sobrou do seu empreendimento “missionário”. A segunda foi a dos reformados holandeses entre os anos 1624 e 1654, que também poucos vestígios deixou. Tentativas parecidas ocorreram, por exemplo, no Panamá pelos escoceses entre 1698 e 1700. Os missionários morávios também trabalharam no continente latino-americano, principalmente em ilhas do Caribe e na Guiana Holandês.
As primeiras igrejas protestantes que chegaram ao continente e que permaneceram, vieram no começo do século XIX, através dos imigrantes, principalmente alemães, ingleses, italianos (valdenses) e americanos, além de outros grupos europeus. Uma das primeiras igrejas fundadas e que existe até hoje foi a Igreja Anglicana do Rio de Janeiro, em 1819.
Os primeiros missionários, enviados pelas principais denominações da época, chegaram nos seguintes anos:
Presbiterianos: Argentina 1823, Colômbia 1859, Brasil 1859, México 1871 e Guatemala 1882;
Metodistas: Brasil 1835, Argentina 1835, Uruguai 1835, México 1872, Chile 1877 e Bolívia 1901.
Batistas: México 1870, Brasil 1881, Argentina 1881 e Bolívia 1895.
O crescimento do movimento evangélico na América Latina tem sido forte durante o século XX, principalmente na sua segunda metade. Alguns dados estatísticos:
Em 1900, havia nas Guianas, onde a concentração de evangélicos era maior, em torno de 14.000 membros. No Brasil eram um pouco mais de 11.000 e nos países de fala espana 5.200.
Em 1916, o número total de evangélicos no continente latino-americano tinha subido para 378.000.
Em 1925 tinha alcançado 756.000; em 1936, sete milhões; em 1967, 15 milhões; em 1987, 37 milhões e no ano 2000, em torno de 80 milhões.
A conferência de Edimburgo em 1910 não considerou a América Latina como campo missionário por já ser católica, mas, o encontro alguns anos mais tarde no Panamá, 1916, mudou esta visão e há um aumentou de investimento em missões no continente. A igualdade de direitos dos evangélicos em relação aos católicos (no Brasil, já em 1890) foi também um fator que colaborou com a entrada de missionários e o desenvolvimento da igreja evangélica.
Em termos do movimento missionário latino-americano, as primeiras iniciativas têm sido por parte das denominações, que desde o fim do século XIX, começaram a enviar missionários para campos pioneiros dentro do seu próprio país e no começo do século XX também para outros países. Hoje é, principalmente, o COMIBAM (Cooperação Missionária Ibero- americana) que representa o movimento missionário da América Latina.

MISSÕES NO SÉCULO VINTE
África Negra
• 1910 – C. T. Studd chega à África
• 1913 – Schweitzer chega à África
• 1915 – Morte de Mary Slessor
• 1928 – Carl Becker viaja para o Congo
• 1931 – Morte de C. T. Studd
• 1953 – Helen Roseveare chega ao Congo
• 1960 – Independência do Congo
• 1964 – Rebelião de Simba
• 1964 – Morte de Paulo Carison
• 1964 – Ataque do Quilômetro Oito

Extremo Oriente e Ilhas do Pacífico
• 1905 – Martírio de Eleanor Chestnut
• 1907 - Goforth inicia ministério de reavivamento na Coréria e Manchúria
• 1930 – Gladys Aylward vai para China
• 1932 – Martírio de onze missionários em Team
• 1934 – Martírio de Stm
• 1940 – Gladys Aylward leva crianças para lugar seguro
• 1945 – Morte de Eric Liddell
• 1945 – Morte de R.A. Jafray em campo de concentração japonês
• 1948 – CREO inicia programa de rádio em Manilla
• 1958 – Cho inicia ministério de tenda na Coréia
• 1962 – Captura de Mitchell, Gerber e Vietti
• 1962 – Don Richardson chega a Írian Gaya
• 1964 – Myron Braomley entra no Vale Balim
• 1968 – Morte de Betty Oslen

América Latina
• 1917 – W.C. Townsend chega a Guatemala
• 1929 – Townsend completa NT Cakchiquet
• 1931 – HCJB começa
• 1936 – Ken Pique começa trabalho no México
• 1941 – Wlater Herron começa ministério de aviação
• 1943 – Martírio de 5 missionários das Novas Tribos na Bolívia
• 1948 – Nate Saint chega ao Equador
• 1956 – Massacre Auca
• 1956 – Mariana Slocum completa NT Tzeital
• 1957 – Rachel Saint e Dayuna correm os U.S.A.
• 1981 – Martírio de Chet Bitterman

Oriente Próximo, África do Norte e Ásia Central
• 1900 – Ida Scudder funda Escola de Medicina em Vellore
• 1901 – Mause Cary viaja para Marrocos
• 1912 – Zwemer inicia obra no Cairo
• 1917 – E. Stanley Jones chega a Índia
• 1928 – Conferencia Missionária Mundial de Jerusalém
• 1933 – Morte de Johanna Veenstra
• 1938 – Conferencia Missionária Mundial de Madras
• 1951 – Morte de Amy Carmichael
• 1962 – Viggo Olsen chega ao Paquistão Oriental
• 1967 – Marrocos fechado para missionários
• 1973 – Morte de E. Stanley Jones

Europa e América do Norte
• 1908 – Grenfell salvo da icebergue
• 1910 – Conferencia Missionária de Edimburgo
• 1920 – Convenção MVE de De Moines
• 1932 – Publicação de “Reavaliação das Missões”.
• 1934 – Fundação do Instituto Lingüístico de Verão
• 1939 – Joy Ridderhof funda a gravadora “Gospel Recordings”
• 1942 – Fundação da Missão Novas Tribos
• 1945 – fundação das Asas de Socorro
• 1946 – Primeira convenção Missionária Trienal “Urbana” em Toronto
• 1950 – Fundação da “Visão Mundial”
• 1954 – Fundação da Radio “Trans -Mundial”
• 1955 – Morte de Mott
• 1976 – Fundação do Centro das Missões Mundiais nos E.U.A.

MISSOES A PARTIR DO BRASIL
O Brasil tem hoje uma das maiores igrejas evangélica do mundo. Superado pelos Estados Unidos da América e pela China, vem em terceiro lugar com cerca de 35 milhões de evangélicos, segundo estimativas. Durante mais de cem anos, os pais têm recebido missionários de fora e ainda trabalham no Brasil em torno de 2.600 missionários estrangeiros.

Missionários Pioneiros
Como já vimos, também no Brasil foi a Igreja Católica Romana que primeiro chegou como o Cristianismo. Somente no fim do século XVIII começaram a chegar imigrantes que trouxeram consigo a Igreja Protestante e ao longo do século XIX varias igrejas se estabeleceram no Brasil, a partir das colônias étnicas que surgiram.
Iniciativas missionárias, com o intuito de alcançar a população brasileira, ocorreram mais tarde. Os primeiros missionários estrangeiros que chegaram aos nossos pais foram:

Justino Spaulding Daniel e Cynthia Kidder
Missionarios americanos da Igreja Metodista Episcopal. Spaulding chegou ao Brasil em 1836 e o casal Kidder em 1837. Estabeleceram a primeira escola dominical, venderam Bíblias e deram inicio ao trabalho metodista no país. Cynthia faleceu de febre amarela em 1940, levando o seu esposo a voltar aos Estados Unidos. Spaulding regressou a sua pátria no ano seguinte. A Igreja Metodista não chegou a ser organizada neste período inicial, somente 1876 em quando um novo missionário J.J. Ranson foi enviado ao Brasil.

Robert e Sarah Kalley
Chegaram ao Brasil em 1855 vindos da Escócia. Robert era medico e pastor de origem presbiteriana. Juntos fundaram a primeira igreja protestante de língua portuguesa, a Igreja Congregacional no Rio de Janeiro.

Ashbel Green Simonton
Enviado pela Junta de Missões da Igreja Presbiteriana, como seu primeiro missionário ao Brasil, chegou em 1859. Fundou no Rio de Janeiro a Igreja Presbiteriana e iniciou um jornal evangélico e um seminário para formação de pastores brasileiros.

Ana e William Bagby
Casal norte-americano que iniciou o trabalho batista no Brasil. Eles chegaram em 1881, estabelecendo a primeira Igreja Batista em Salvador no ano seguinte, juntamente com o recém-chegado casal Kate e Zacarias Taylor. William faleceu em 1939 e Ana 1942.

Gunnar Vingren e Daniel Berg
Missionários suecos que, via Estados Unidos, chegaram ao Brasil em 1910 estabelecendo o trabalho das Assembléias de Deus na cidade de Belém, PA. Gunnar faleceu em 1933 e Daniel em 1963.

Erik e Anna Jansson
Missionários batistas suecos da Missão de Orebro, que chegaram ao Brasil em 1912-1914, respectivamente, para dar atendimento espiritual a colônia de imigrantes suecos no Rio Grande do Sul. Logo estabeleceram trabalho também entre os brasileiros sendo a primeira igreja brasileira organizada em 1915 na cidade de Ijui. O trabalho dos batistas suecos deu origem a Convenção das Igrejas Batistas Independentes, organizada com liderança nacional em 1952. Erik faleceu em 1971 com 86 anos de idade.
Muitos outros missionários chegaram ao Brasil ao longo dos anos. Vindos principalmente dos Estados Unidos, do Canadá e paises europeus como Alemanha, Inglaterra, Escócia, Holanda, Suíça, Suécia e Noruega, ajudaram a estabelecer a igreja evangélica em nosso país.

MOVIMENTOS DE DESTAQUE
As ultimas décadas tem sido influenciadas, em termos de missões, por vários movimentos.
Destacam-se:
1.- O MOVIMENTO DE LAUSANNE
A partir da conferencia missionária em Lausanne, na Suíça, em 1974, o mundo evangélico é levado a refletir sobre sua tarefa missionária e sobre a cooperação no cumprimento da missão. Com o lema”Toda igreja levando o evangelho a todo homem em todo mundo”, a conferencia alcançou bem amis do que os participantes, criando um movimento mundial com benefícios incalculáveis para as missões. Conferencias regionais foram realizadas e, em 1989, Lausanne II em Manila.
O movimento de Lausanne quer:
• Dar uma orientação teológica, baseada na Bíblia, acerca da motivação missionária e seu conteúdo.
• Estimular os cristãos a uma responsabilidade maior pela evangelização que já vem ocorrendo nas diferentes denominações e movimentos.
• Inspirar o cristão, individualmente, a um serviço intensivo de intercessão e de ofertar bem mais para missões.
• Conscientizar os cristãos de que a evangelização e ação social devem acompanhar uma a outra.
• Possibilitar contatos entre a cristandade evangélica para melhor planejamento e cooperação.

2.- MOVIMENTO DO CRESCIMENTO DA IGREJA
Os primeiros passos dentro deste movimento foram tomados por Donald McGavran, professor de missões no Fuller Theological Seminary, Pasadena, EUA. O movimento tem trazido novos aspectos à analise do evangelismo e de missões e se baseia nos seguintes aspectos:
• Não cruzar fronteiras de cultura, senão no trabalho pioneiro-evangelizaçao em grupos homogêneos.
• Investir a maior parte dos recursos onde há receptividade.
• Dividir a igreja em grupos menores.
• Treinamento de leigos
• Investir em pesquisas sobre crescimento
O movimento tem sido fortemente criticado por só se preocupar com o crescimento numérico mas, ultimamente, os seus defensores vem enfatizando o crescimento equilibrado da igreja, incluindo além do crescimento quantitaivo, também o qualitativo e o orgânico.

3.- MOVIMENTO ANO 2000 ( AD 2000)
Em janeiro de 1989, foi realizada em Cingapura, uma consulta global de evangelização mundial para o ano 2000 e além. Esta consulta deu origem ao movimento denominado AD 2000. O movimento tem o propósito de: “Em um espírito de serviço, buscar motivar, fomentar e fazer redes de homens e mulheres lideres eclesiásticos, que sejam motivados pela visão de alcançar os não-alcançados até o ano 2000”, cumprindo assim a grande comissão de Jesus.
Os objetivos deste movimento são:
• Trabalhar, enfocando particularmente aqueles que não têm ouvido a Palavra de Deus.
• Dar a cada pessoa a possibilidade real de ouvir a Palavra de Deus em um idioma que possa entender. O alvo é que pelo menos a metade da população mundial professe sua fé em, Jesus.
• Estabelecer um movimento de plantação de igrejas com orientação para missões, dentro de cada grupo de pessoas não alcançadas pela Palavra de Deus.
• Estabelecer uma comunidade cristã marcada pela adoração, discipulado, evangelismo e de interesse missionário em cada grupo humano.
Um enfoque principal dentro do movimento AD 2000, está para a chamada janela 10/40. esta janela representa os países no norte da África, sul da Ásia e todo o oriente médio. Nesta área vivem 97% das pessoas menos evangelizadas, a maioria delas muçulmanas. A janela 10/40 é também a região onde menos esforços evangelisticos têm sido empreendidos.
A historia de missões continua a ser escrita e a obra missionária está mais viva do que nunca.
Deus continua vocacionando vidas para servirem como missionários em muitas maneiras.

A RESPONSABILIDADE DO JOVEM PELO MUNDO
John R. Mott estava no segundo ano da Faculdade em Cornell, quando certo dia entrando atrasado em sua sala de aula onde J.K. Studd dissertava, ouviu que este dizia como se dirigindo diretamente a ele:
“Jovem, buscas grandes coisas para ti mesmo? Não a busques! Busca primeiro o reino de Deus”.
A subseqüente conversão e consagração de Mott colocaram-no no caminho que o conduziu a participar da Conferencia de Monte Hermon em 1886, ocasião em que surgiu o Movimento Voluntário Estudantil e do qual se tornou um voluntário e líder. Ele serviu na primeira Comissão Executiva do Movimento e por mais de trinta anos foi seu presidente.
Liderando ao mesmo tempo, com grande capacidade, dois movimentos de forte ênfase evangelística para a época: A Associação Crista de Moços e a Federação Crista Estudantil Mundial. Laourette faz o seguinte comentário:
“Mott se tornou um dos mais destacados lideres de toda a historia do cristianismo, combinando sua fé singela, fruto de uma completa dedicação a Cristo, com uma liderança marcante, uma visão que abrangia o mundo todo, uma capacidade para identificar e alistar jovens hábeis e uma capacidade para conquistar a confiança de homens de negócios, ao mesmo tempo em que, atravessava barreiras eclesiásticas para unir os cristãos de muitas tradições no esforço de ganhar toda a humanidade para fé crista”.
Ate’ sua morte ele se tornou, um simples evangelista. Em 1901, aplicou a seguinte mensagem:
“ E’ um fato muito inspirador que os jovens desta geração não duvidem da causa das missões mundiais. O cristão que se acanha em nossos dias de participar desta causa deve ser considerado ignorante e insensato. O individuo que, põem em duvida a causa de missões suspeita na verdade de toda a religião duradoura, pois, como disse Max Muller, ‘as religiões não cristas estão morrendo ou estão mortas”.
Ele duvidava abertamente do cristianismo por ser em essência um empreendimento missionário. Duvida da Bíblia porque missões constituem seu tema central. Duvida da oração do Pai nosso e do credo Apostólico, bastando repetir suas frases familiares para que se sinta humilhado com a idéia. Ele duvidava da paternidade de Deus e com isto, também, da fraternidade dos homens.
Se for cristão, suspeita do vigor de sua vida espiritual e na pior das hipóteses, duvida de Jesus Cristo, que e’ a propiciacão não só dos nossos pecados, mas, dos pecados de todo o mundo. Reputo, portanto, ou ele e’ ignorante ou insensato.

TODA A HUMANIDADE NA PERSPECTIVA MISSIONARIA
Perspectiva alguma da raça humana pode ser resumida sem que haja uma tendência simplista. Quando Deus escolheu Abrão e sua descendência, tanto para uma bênção especial como para uma responsabilidade especial de partilhar aquela bênção com “todas as família da terra”, Gn 12.3; 18.18, etc., Abrão misericordiosamente não entendeu como essa tarefa era grande e complexa.
Agora, entretanto, 4 mil anos depois, mais da metade de “todas as famílias da terra” são pelo menos o que Taynbbe chama de “judaicas” em religião e certamente receberam pelo menos alguma bênção direta através de pessoas com uma fé semelhante a de Abrão e através da obra redentora daquele para quem Abrão olhou (Jo 8.56).
Se levarmos em consideração influências, seria possível calcular que nove décimos de toda a humanidade já recebeu parta dessa bênção, mesmo quando misturada com outros elementos.
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UM FUTURO REAVIVAMENTO
O mundo vai passar por um grande reavivamento antes do fim dos tempos? Esta possibilidade tem sido discutida pelos cristãos que crêem que as ultimas lutas convulsivas de nossa civilização já começaram.
As Escrituras parecem aludir a um reavivamento mundial, embora, esta interpretação não seja de maneira nenhuma unânime. Muitas referencias estão ligadas a outras situações históricas, tais como a volta dos judeus do cativeiro e a restauração de sua nação. Também é preciso levar em consideração como uma pessoa encara o milênio, a tribulação e o arrebatamento. A complexidade destas profecias faz com que nenhuma conclusão seja definitiva. Mas, reconhecendo que atualmente vemos obscuramente como através de um vidro embaçado, podemos encontrar algumas vagas indicações de um ultimo e poderoso despertamento espiritual.
• O reavivamento será um derramamento universal do Espírito Santo.
• O reavivamento vira num período sem procedentes de tribulação.
• O reavivamento purificara o povo de Deus e este será levado a verdadeira beleza de santidade.
• O reavivamento vai preparar o caminho para a vinda do Rei.
Finney comentando sobre este assunto disse: “Reavivamento é renovada convicção de pecado e arrependimento, seguida de um intenso desejo de viver em obediência a Deus. É a entrega da vontade a Ele em profunda humildade”.
Charles Finney
“Avivamento é santidade, humildade, crucificação do ego, amor fraternal, paixão pelas almas perdidas. É o sopro do Espírito para acordar o que dorme, para o crescimento na graça, na alegria e na paz”. Enéas Tognini
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CONCLUSÃO
Poucas vezes foi possível, na historia da Igreja ou do mundo, indicar algo que seja inconfundivelmente novo. Mas, no século XX surgiu um fenômeno que ‘’e sem duvida novo, pela primeira vez existe no mundo uma religião universal, o cristianismo.
Foi esta a única religião entre o Budismo e o Islamismo, a saber, adaptar-se em cada continente e quase que em cada pais. Em muitas zonas a situação pode ser precária e pequeno o numero de fieis, contudo, em cada pais a religião crista mostra ser uma minoria dinâmica que se enraíza a cada dia mais fortemente, não por importações estrangeiras, mas, como Igreja universal do Senhor Jesus Cristo.
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BIBLIOGRAFIA
Gonzalez, Justo L., “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, 1ª Edição, 1984, Sociedade
Religiosa Edições Nova Vida, São Paulo - SP.
________________ “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, (A era dos Altos Ideais),
Vol. 4, 2a. edição, 1986. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, pp. 185.
A. Tucker, Ruth, “... Até aos Confins da Terra”. 1ª Edição, 1986, Sociedade Religiosa
Edições Nova Vida, São Paulo - SP.
Ekström, Bertil, História da Missão. 1a Edição, 2001, Editora Descoberta, Londrina, PR,
pp.136.
Neill, Stehen, Historia das missões. 1 Ediçao, 1997, Editora Vida Nova, São Paulo – SP
JORGE MANRIQUEZ
MESTRANDO EM MISSIOLOGIA
SERRA NEGRA 10 de Agosto de 2004.

 

Mensagens

Aqui você tem um estudo sobre Missões.
Uma mensagem preparada numa mente alcança uma mente; uma mensagem preparada numa vida alcança uma vida. (Bill Gothard)

Missões é ouvir o gemido das almas como nosso Deus ouvia; Deus, em Ex 3:7, disse: "Tenho visto a aflição do meu povo que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor".
Missão é contemplar o mundo agonizando e fazer depressa a Obra de Deus. Os discípulos estavam preocupados em comer e beber, mas Jesus disse em Jo 4:35: "Não dizeis: ainda há quatro meses até a ceifa?
Eu vos digo: Erguei os vossos olhos, e vede os campos! Já estão brancos para a ceifa".
Devemos olhar para os sinais que se cumprem a cada momento, e levantar os nossos olhos e ver como Jesus via.
Missão é sentir o que Jesus sentia; sentiu compaixão pela multidão.

 

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