A
Bíblia diz que Jesus viu uma grande multidão e teve grande compaixão
para com ela, e os seus discípulos aproximaram-se dEle, não para
auxiliá-lo, mas para Ele despedir a multidão para que fosse pelas
aldeias e comprasse comida para si. Mas Jesus, sentido a fome da
multidão, disse: "Dai-lhes de comer".
Devemos pedir ao Senhor que nos dê sua audição para ouvir o clamor das
almas, que nos dê o seu amor para amarmos o mundo sem Deus. Para que nos
dê sua visão, a fim de vermos as grandes necessidades dos povos que
precisam ser alcançados para Deus.
Missão e missões
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Há vários paradigmas e modelos de missão ao longo da história. O momento
histórico e a diversidade geográfica, de um lado, e a teologia
subjacente, do outro, são variáveis fundamentais para entendermos as
convergências ou as continuidades e, também, as diversidades e as
descontinuidades. Há algumas constantes que perpassam a espiritualidade
missionária, como podem ser vistas a partir da vida de muitos
missionários e missionárias. Uma característica da espiritualidade
missionária, e certamente ocupando o lugar central, é a paixão pelo
Cristo vivo e pelo Reino.
A pessoa de Cristo inspirou e continua motivando a opção profunda dos
missionários e das missionárias. Não é possível que alguém trilhe este
caminho sem ter sido arrebatado pelo Cristo Pascal. Somente quem tem um
vínculo e uma intimidade excepcional com o Mestre pode percorrer o
caminho da missão sem retorno. A busca e a construção desta intimidade
podem ser diferenciadas. Os caminhos da proximidade com o Mestre podem
seguir diferentes métodos, mas ninguém pode se aventurar no
empreendimento da missão sem ter sido arrebatado pelo amor do Senhor.
Cada vocação, e especialmente a missionária, pressupõe um chamado íntimo
e radical por parte do Mestre. Este chamado decorre de uma experiência e
de um encontro transformador da vida. É este o ponto de partida para o
caminho da missão e que explica a adesão radical do discípulo. Em todas
as figuras e as testemunhas que vemos ao longo da história, a paixão
pelo Cristo missionário é o eixo motivador da própria espiritualidade.
É um Cristo, no entanto que está situado e caminha junto com os pobres
deste mundo. Os deserdados, os danados da terra, os sem esperança, os
feridos no caminho revelam o rosto sofrido de Cristo. Qualquer
experiência de Jesus que não passa através da solidariedade com os
abandonados, faz da experiência religiosa uma aventura romântica e
intimista, mas não atinge o núcleo da experiência religiosa cristã. Dar
a vida, como Jesus, é preciso, fazendo-se companheiro dos despossuídos.
A ótica do Reino e a paixão pelo sonho de Jesus fazem da espiritualidade
missionária um caminho sem retorno. Historicamente, a aventura
missionária nem sempre teve uma perspectiva reino-cêntrica. Hoje, após o
Concílio Vaticano II, ficou clara a origem trinitária da missão, como
fonte, método e fim, e, também, o serviço aos valores do Reino. Na
história da missão, no entanto, vários modelos focalizaram
diferentemente o objetivo da missão. É conhecido o modelo da "salvação
das almas", a qualquer custo. Várias testemunhas, inseridas nesta
teologia da missão, sonhavam "salvar uma alma e depois morrer". Pouco
atentos ao contexto histórico que era o seu, transplantavam um modelo de
evangelização e fundamentavam-se na exclusividade do batismo, como
horizonte primeiro. Muitas vezes, ingenuamente, os missionários andavam
de mãos dadas com os vários processos de colonização.
Mais tarde, a perspectiva da implantação da Igreja (plantatio Ecclesiae)
absorveu toda a ação missionária. Formaram-se, assim, muitas comunidade
cristãs espalhadas no mundo todo. No fundo, este modelo continuava sendo
muito eclesiocêntrico. A perspectiva do Reino, com toda sua aproximação
metodológica, é algo de muito recente e está re-focalizando o caminho da
missão. O profetismo também nunca esteve ausente do caminho da missão,
sendo mesmo seu núcleo central . Há, também, o sentido do envio e da
saída, sobretudo física, da própria terra de origem. A missão é um longo
caminho que não tem mais retorno. O sentido do "sair da própria terra"
significa a radicalidade de pertencer somente a Deus e ao seu projeto.
Quem conduz a missão é Deus . Não há outro projeto a ser implementado se
não o Reino de Deus. É ele que toma conta completamente da vida dos
missionários e das missionárias para conduzi-los aonde ele quer e
segundo a maneira que ele quer.
Esta radicalidade é revelada através do ato de entrega e do fato de não
pertencer mais a si mesmo. Concretamente, traduz-se no processo de
deixar tudo, a pátria, os amigos, os pais, as pessoas mais queridas e os
lugares mais familiares para ser conduzidos pelo Mestre. Em época de
"globalização, quando parece que as distâncias se encurtam e as divisões
territoriais não são tão rígidas como aos tempos do surgimento dos
Estados Nacionais, há a necessidade de manter vivo o sentido do "além
fronteiras", também geográficas, para significar a entrega total ao
projeto do mestre. A exemplo de Abraão, o pai da fé de algumas grandes
religiões, continua explicito o sentido da saída, sem saber aonde se vai
e sem conhecer tudo sobre o que fazer.
Confia-se somente na promessa de Deus. O mesmo Jesus, movimentando-se ao
interior da Palestina e sem ter saído fisicamente de seu contexto
cultural, indica a categoria do deslocamento e o abandono nas mãos de
Deus como processo radical do seguimento. O sentido do caminho de Jesus,
como enviado e primeiro grande missionário, começa quando deixou o lugar
que lhe pertencia, como Deus, e se encarnou no meio de nós, pondo sua
tenda no meio dos seres humanos. Ele tinha a condição divina, e não
considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas
esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a
semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se e foi
obediente até a morte." (Fil. 2. 6-8).
A primeira grande epopéia missionária começou com a Igreja primitiva. Em
poucos anos houve cristãos que se espalharam para todo o mundo
conhecido, testemunhando a universalidade da mensagem de Jesus. Os Atos
dos Apóstolos representam a atividade e a consciência missionária das
primeiras comunidades cristãs.Sem saída, portanto, não há missão. Quem
retiver a própria vida vai perde-la, mas que a oferecer, irá ganha-la
para sempre.
O cristão e o mundo
Gloecir Bianco
"Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não
são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua
palavra é a verdade." (João 17:15 a 17)
Não é nada fácil viver neste mundo. O Cristão sofre angústias,
tribulações, problemas financeiros, doenças, miséria, fome, desemprego
etc. Tudo que o mundo sofre. Qual será o propósito de Jesus para seus
seguidores neste mundo, já que ele pede abertamente ao Pai no texto
citado, que não nos tire do mundo? Parece contraditório, entretanto, é
exatamente este o propósito. O Cristão precisa ser sal "Vós sois o sal
da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?
Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos
homens." (Mateus 5:13) e precisa ser luz: "Vós sois a luz do mundo. Não
se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma
candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a
todos os que se encontram na casa." (Mateus 5:14 e 15) Não tem jeito, a
interferência do Cristão precisa ser no mundo a fim de "restaurar o
sabor" a fim de "alumiar a todos".
Certa ocasião o Senhor Jesus foi visto na companhia de muitos pecadores,
imaginem, para o evangelista chamá-los de pecadores é porque a fama
destas pessoas era declarada, todos os conheciam como pecadores. Os que
procuravam condenar a Jesus e para isto viviam procurando argumentos,
logo questionaram: "Por que come vosso Mestre com publicanos e
pecadores?" e "Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e
sim os doentes." (Mateus 9:10 a 13)
Durante muitos séculos o homem sofreu muito com interpretações errôneas,
equivocadas e até extremas desta realidade e como sabemos, tentou viver
isolado para assim servir a Deus de maneira "santa". Isolou-se em
mosteiros, conventos e ordens religiosas, tendo como única finalidade
estudar a Bíblia e orar. Que fracasso, que frustração descobrir o que
Jesus disse e está registrado à nossa disposição nos evangelhos: "vocês
têm que estar no mundo a fim de restaurar-lhe o sabor", "vocês vão ter
que se expor a fim de alumiar a todos".
Como é difícil estar inserido neste mundo e fazendo diferença no
trabalho, na escola, na vizinhança, na rua, nas férias, nas viagens. Não
podemos nos enclausurar em "mosteiros", em "igrejas", somente com amigos
Cristãos. Precisamos "restaurar o sabor de nossos amigos no trabalho, na
escola, na vizinhança, na rua, durante nossos momentos de lazer" é assim
que tem que ser.
A principal missão da Igreja de Cristo no mundo é evangelizar,
promovendo a conversão dos descrentes pelo exemplo de nossa própria vida
transformada. O amor ao próximo deve levar o Cristão à prática de obras
de misericórdia em favor de todas as pessoas, tanto crentes como
descrentes. E sem dúvida o mais difícil: Os Cristãos são chamados a
cumprir sua "missão cultural", que Deus lhes deu na criação (Gênesis
1:28 a 30 e Salmos 8:6 a 8). A humanidade foi criada para administrar o
mundo de Deus, e essa administração é parte da vocação humana em Cristo,
tendo por alvo a honra de Deus e o bem dos outros. A "ética do trabalho"
Cristão é, essencialmente, uma disciplina religiosa, o cumprimento de um
"chamamento" divino para administrar a criação de Deus.
Como tem sido nossa interferência neste mundo de Deus, você tem
administrado a criação de Deus com ética, responsabilidade, amor ou tem
se escondido em "mosteiros"?, Lembre-se: os Cristãos devem envolver-se
em todas as formas de atividades humanas lícitas e agir de acordo com os
valores Cristãos, tornando-se sal (agente profilático) e luz (mostrar o
caminho) na comunidade humana, somente quando cumprirmos nossa vocação
dessa maneira, poderemos transformar as culturas ao nosso redor.
O ensino na igreja missionária
Josué Adam Lazier
Tito 2.7-8
Introdução
A Igreja Metodista destaca em sua doutrina de missão os seguintes
aspectos: testemunho (martiria), que é a razão de ser da Igreja e que se
expressa na solidariedade, na evangelização, no discipulado, no apoio,
no cuidado, na sinalização do Reino de Deus, etc.; serviço (diakonia),
onde todos os membros participam do cumprimento da missão; comunhão (koinonia),
fundamental para que a integração entre os diversos ministérios seja
pautado no amor, no perdão, no apoio mútuo, na solidariedade, na
valorização, no relacionamento e no reconhecimento do dom e do
ministério do outro. O ensino é ação ministerial que alimenta estes
aspectos da missão da Igreja e prepara a membresia para atuar no
cumprimento integral do Evangelho de Jesus Cristo
O texto de Tito 2.7-8 nos inspira nesta linha de reflexão. Ele está num
bloco de recomendações ministeriais para a liderança da Igreja. O texto
começa com a expressão tu, porém, denotando os contornos do ministério
exercido pela liderança (Tt 2.1). A orientação é para que os líderes
ensinem em todo tempo a sã doutrina para os diversos grupos presentes na
igreja, em destaque os idosos (2.2), as idosas (2.3-5), os jovens (2.6)
e os servos (2.9-10). Paulo faz várias recomendações usando esta
expressão (I Tm 6.11; II Tm 1.14; 2.1; 3.10; 3.14; 4.5 e Tt 2.1). Elas
apresentam as características que devem acompanhar a vida e o ministério
daqueles e daquelas que foram alcançados pela graça de Deus.
O ensino cristão
Os falsos mestres que atuavam na igreja desviavam as pessoas do caminho
da cruz. Tito deveria contrastar estes ensinos falsos falando da sã
doutrina (2.1) e enfatizando o ensino bíblico no seu ministério (2.7).
No meio da relação dos deveres das diversas classes, é destacado o papel
da liderança que deve ser padrão das boas obras e ser modelo no ensino (didaquê).
Ao usar a palavra grega didaquê, o apóstolo está se referindo as ações
de Tito como mestre no Corpo de Cristo. Se os falsos mestres ensinavam
doutrinas equivocadas ele deveria ser um mestre que educava os membros
da igreja fundamentado na Palavra de Deus.
O vocábulo mestre vem do termo grego didaskalos, que quer dizer
"professor", "mestre" ou "aquele/a que transmite um conhecimento". Em I
Coríntios 12.28, didaskalos aparece como o terceiro dom espiritual de um
grupo de três. Era o ofício na Igreja Primitiva de explicar aos outros a
fé cristã e providenciar uma exposição cristã do Antigo Testamento.
O ensino foi fundamental na preparação dos novos membros para o batismo.
Foi fundamental também para a transmissão da tradição cristã, que se
constituía das palavras, ensinos e atos de Jesus Cristo. Para a
compreensão de muitas coisas que Jesus disse e ensinou o uso do Antigo
Testamento foi necessário e determinante. Isso dá evidência de que algum
método de ensino foi usado e de que a educação cristã na igreja foi
observada com bastante rigor.
Vemos, portanto, que a função de ser mestre é um dom (ou talento) dado
por Deus para a edificação do Corpo de Cristo (I Co 12.28, Rm 12.6-8 e
Ef 4.11).
Modelo de ensino
Paulo desenvolveu a ação docente na instalação de novas igrejas. Em
Colossenses 1.28 encontramos uma tríade paulina sobre a estratégia usada
para a edificação da igreja em Colossos: “anunciamos, advertimos e
ensinamos”. O primeiro verbo vem do grego kataggélo, que quer dizer
proclamar, anunciar. O segundo vem do termo noutheteo, que indica a
instrução, recomendação, aconselhamento e admoestação. O terceiro vem do
grego didasko e indica a educação.
A ação educativa deveria ser exercida de forma a ser modelo, sobretudo
para os mais jovens. Trata-se de uma orientação para todos, pois o
“estar apto para ensinar é uma qualidade que todos os homens e mulheres
podem desenvolver, para atingirem a maturidade cristã". Para assinalar a
importância do ensino algumas qualidades são relacionadas ao mesmo:
Integridade
Quer dizer ausência de qualquer interesse outro que não a edificação na
vida cristã. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade
de íntegro; inteireza; retidão; pureza; etc. Já o termo íntegro
significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso; etc.
Reverência
Indica o zelo e a seriedade com que o ensino é desenvolvido na vida do
líder.
Linguagem sadia
Indica a doutrina dos profetas e dos apóstolos, ou seja, o que foi
ensinado e que se constitui na essência do fundamento da Igreja, a sã
doutrina, a Palavra de Deus.
Irrepreensível
Denota a prática do ensino, ou seja, Tito não deveria “ensinar aos moços
uma coisa e viver algo diferente”.
Para que os falsos mestres sejam envergonhados
Os falsos pregadores e mestres, as falsas doutrinas e os adversários da
igreja seriam envergonhados diante do ensino e da vivência da Palavra de
Deus. Em outras palavras, Tito deveria “combinar uma motivação pura com
uma exposição sadia e com um comportamento sério. Isso para que, como
Paulo lhe disse, aqueles que se opõem fiquem envergonhados por não
poderem falar mal de nós”.
Conclusão
A educação cristã é mais do que simplesmente a informação bíblica e o
acúmulo de conhecimentos. Implica no ensino prático para atender as
necessidades dos membros da igreja, na capacitação para o trabalho, no
treinamento para o exercício dos ministérios, etc. Numa igreja
ministerial e missionária o ensino é fundamental para o processo de
preparação e de envio. Encontramos na Bíblia vários termos que nos
apontam para isto. Vejamos:
1. Ensinar - uma palavra muito freqüente no NT é o verbo didasko, que
quer dizer ensinar. Ele era usado para referir-se a instrução verbal e
prática. Ex.: Mt 4.23, 5.2, 9.35, 13.54, Mc 1.21, 4.1, 6.34, Lc 4.15,
5.3, etc.
“Em Efésios 4.11-16 aprendemos que a principal função dos líderes
pastorais do povo de Deus é a capacitação desse povo para a realização
dos ministérios (v.12). Nas pastorais, Paulo alista características que
devem compor a identidade dos ministros e ministras do Evangelho – todas
no âmbito da ética e dos relacionamentos, com exceção de uma, relativa à
função ministerial, que é a do ensino da Palavra de Deus em todas as
suas dimensões (I Tm 3.1-7; Tito 1.6-9)”.
2. Educar - palavra usada para referir-se a educação de crianças (Atos
7.22, 22.3) e no sentido de disciplina e correção (I Co 11.32, I Tim
1.20, II Tim 2.25, Tito 2.12).
3. Aprender - palavra usada para falar do conhecimento já adquirido.
Pode ser a capacidade de reconhecer entre o bem e o mal ou capacidade de
discernir (Gn 3.22, 39.6, I Sm 28.9, etc.).
4. Conhecer - várias palavras gregas são traduzidas por "conhecer". Está
implícito nesta palavra o conhecimento, a compreensão, o saber fazer ou
ser capaz de fazer, etc. (M. 12.33, Lc 12.47, Lc 18.34, I Ts 4.4, etc.).
5. Seguir - palavra que designa o seguimento de Cristo e quer dizer
comunhão de vida com Jesus. Seguir a Jesus significa colocar-se a
serviço do Reino de Deus. Esta palavra é usada pelos Evangelistas para
relatar os discípulos "seguindo" a Cristo. Marcos (3.14) explica melhor
o que significa este "seguir". Ele usa a expressão "andar com ele".
Segundo os Evangelhos, Jesus dedicou mais tempo a seus discípulos,
ensinando-os e preparando-os para o cumprimento da missão.
Neste sentido, a educação desenvolvida no ambiente eclesiástico e no
lar, o estudo bíblico e a aula na Escola Dominical são atividades que
acompanham o carisma apostólico dos diversos dons e ministérios,
sobretudo do ministério pastoral.
O desafio missionário da igreja
Sérgio Fonseca
“Quão amáveis são os teus tabernáculos... Bem-aventurados, Senhor os que
habitam em tua casa: louvam-te perpetuamente” (Salmo 84). Que privilégio
nosso estarmos na casa do Senhor experimentando uma deliciosa comunhão
com Ele. Aqui, na casa do Senhor, em cada culto vamos sendo tratados,
consolados, renovados, fortificados, exortados a luz das Escrituras.
Estar na igreja e fazer parte da igreja é bom demais!
Apesar desta maravilhosa realidade, trago comigo uma preocupação que aos
meus olhos caracteriza a igreja evangélica brasileira nesses últimos
tempos: introversão. Uma igreja voltada para si mesma. Nela encontramos
homens e mulheres preocupados somente com suas questões existenciais,
familiares, profissionais e por aí em diante. Uma igreja muito mais
voltada para o seu próprio coração, do que para o que está no coração de
Deus. Será que estamos perdendo a nossa consciência missionária? Será
que estamos perdendo nosso ardor na proclamação do evangelho? A igreja
precisa aprender a se desprender mais das suas questões intimistas. A
igreja precisa sair da igreja!
Creio que eu não sou o primeiro a dizer que Deus tem um coração
missionário, mas gostaria que você constatasse isso comigo nas páginas
das Escrituras em três momentos:
“Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3).
Em Gênesis nos deparamos com Deus chamando, separando e vocacionando um
homem - Abraão, que mais tarde seria a nação de Israel, para abençoar
todos os povos da terra. Nesta passagem temos a inauguração oficial das
atividades missionárias na Bíblia.
Quando analisamos a história de Israel podemos constatar que ela tem um
caráter eminentemente missionário. Tanto Abraão como Israel foram
abençoados para abençoar. Daí o porque das manifestações divinas no meio
do povo: “Para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor
é forte, a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias” (Josué
4:24).
“Assim como o Pai me enviou...” (João 20: 21).
Temos na colocação acima o ápice do envio missionário na pessoa do
próprio Senhor Jesus. Ele não somente assumiu a forma humana como nos
diz em Filipenses 2:6 a 7,mas também assumiu um estilo de vida
missionária, deixando-nos o maior exemplo.
Na segunda parte da colocação feita por Jesus em João 20:21, “...eu
também vos envio”, somos chamados a uma responsabilidade; somos chamados
em Jesus para testemunhar: “...e lhes disse: Assim está escrito que o
Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia,
e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados, a
todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas
coisas” (Lucas 24:46 a 48).
“Vós, porém, sois raça eleita... a fim de proclamardes as virtudes
daquele que vos chamou...” (I Pedro 2:9). A Igreja, comissionada e
autorizada por Jesus, tem a responsabilidade de dar continuidade às
atividades missionárias, visando o cumprimento do plano de Deus que é
abençoar os povos da terra. E quando nos referimos a Igreja não
entendemos simplesmente que é uma responsabilidade “institucional”, mas
também responsabilidade de cada membro do Corpo de Cristo, portanto,
individual.
Podemos ver no texto da grande comissão em Mateus 28:18 a 20 Jesus
transmitindo aos discípulos uma responsabilidade: “Ide, portanto, fazei
discípulos”. Esse comissionamento por sua vez geraria novos discípulos e
assim sucessivamente, comprometendo-os a fazer discípulos de todas as
nações.
É verdade que cada um de nós traz sua história pessoal. Todos nós temos
nossas dores, problemas e questões particulares que pela misericórdia do
Senhor vão sendo tratadas em sua presença. No entanto, as nossas
questões pessoais não devem nos fazer perder a nossa consciência daquilo
que o Senhor deseja realizar através de nós como membros do Corpo de
Cristo dentro e fora da igreja.
Igreja em missão
Ricardo da Mota Leite
Definir “Igreja” pode ser simples. Poderíamos, dogmaticamente, dizer que
igreja consiste no número dos eleitos, reunidos num só “Corpo”, tendo
Jesus Cristo como a “Cabeça”. Todavia, se pensarmos em “Igreja” não
apenas de forma dogmática mais pragmática, talvez nos situaríamos
sociologicamente e espiritualmente melhor. Entender igreja apenas de
forma teórica leva-nos a mesmice e improdutibilidade. A teoria deve
estar associada à prática para sua própria sobrevivência. Teoria sem
prática perde-se na história ou, pior ainda, pode produzir vaidade e
ufanismo. Sim, a Igreja se denomina efetivamente à medida que vive, em
missão, seu projeto original.
O corpo humano é um organismo que cresce e se fortalece conforme se
movimenta. Certamente, também por isso, a metáfora é usada para definir
o que é “Igreja”. Igreja é um corpo, que cresce e se fortalece quando se
movimenta. A “missão” da igreja é o seu movimento, se movimentar é sua
vocação. Conforme a ordem já dada pela “Cabeça”, o Corpo deve obedecer.
O cumprimento de sua missão garantirá seu crescimento e fortalecimento.
A missão foi claramente enfatizada, a saber: testemunhar. O testemunho,
missão da igreja, é movido pelo amor, como movido pelo amor, foi Deus ao
movimentar-se em encontro ao perdido.
A grande tentação da igreja é acomodar-se nos braços institucionais. As
instituições religiosas, ainda que importantes, são apenas alguns dos
instrumentos que podem ser usados no cumprimento da missão. A
institucionalização da igreja tem sido a grande falácia histórica e
teológica que cumpre-nos combater. A instituição religiosa pode ser uma
bênção de Deus se não viver voltada para si mesma e sim, para os outros.
A Igreja, Corpo de Cristo, em missão. Os membros desse corpo se reúnem
com o objetivo de louvarem a Deus, exaltando a Jesus Cristo, e
promovendo através do compartilhar dos dons, a edificação e
fortalecimento uns dos outros. Assim, bem ajustado, o Corpo se fortalece
e cresce. Os crentes vão sendo equipados e equipando uns aos outros,
tendo como instrutor maior o Espírito Santo. Recebendo o poder do
Espírito Santo, a igreja vai ao mundo testemunhar.
Com o ajuntamento dos crentes de forma organizada e ordeira, a
comunidade dos santos se mobiliza em projetos de amor que sinalizam para
o mundo a missão da Igreja. O testemunho ao mundo se dá por meio da
proclamação e da ação amorosa em direção ao perdido. A ação da Igreja
salvará o perdido do poder do pecado, o libertará das opressões do
Diabo, da miséria sócio-religiosa e o curará de suas enfermidades. Por
sua vez, o neófito, deve integrar-se ao grupo dos remidos para que
também viva em missão. Mas em qual instituição ele deverá se filiar?
Bom, sua decisão será muito mais sociológica do que espiritual.
Não podemos é supervalorizar as instituições como sendo elas portadoras
de um tipo de franquia do Reino de Deus.
Nosso grande desafio como membros da igreja, o Corpo de Cristo, é apenas
testemunhar com fidelidade. Caso não façamos isso, acabaremos criando
modismos, fazendo com que a instituição passe a ser um tipo de empresa
prestadora de serviços “franqueados” e as pessoas como clientes
vitimados de um sistema sociológico doentio. Aproveitar a “demanda de
mercado” e explorar tais pessoas impondo-lhes taxas, seria muito leviano
de nossa parte. Tão somente, cumpramos nossa missão, testemunhemos sobre
Jesus.
Cristianismo e cultura
Henrique Alves da Silva
Nos mêses de julho comemora-se o aniversário do Congresso Internacional
de Evangelização, que aconteceu na cidade suíça de Lausanne. O evento
representou um marco na história das missões contemporâneas e alavancou
a evangelização ao redor do Planeta. Ao final do Congresso foi produzido
um documento conhecido como "O Pacto de Lausanne", que consta de 15
Artigos e uma Conclusão. É uma autêntica confissão de fé moderna, que
reafirma as crenças básicas do Cristianismo, com forte ênfase na
evangelização. O Pacto é também um tributo à unidade da igreja. Quero
destacar, do Artigo 10 uma crítica muito sugestiva:
As missões, muitas vezes, têm exportado, juntamente com o evangelho, uma
cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos
ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras.
Os redatores do Pacto mexeram em casa de marimbondos. É fato que, ao ser
transmitido, o evangelho carrega muito da cultura do transmissor. Nada
de mais se dermos um desconto às ambigüidades humanas. Mas a situação se
complica quando a avaliação do que é evangelho passa pela reprodução,
tintim por tintim, do modelo cultural recebido. Nesse caso os
evangelizados são também colonizados ao tentarem reproduzir os hábitos e
costumes dos missionários. Podemos verificar um tal desvio
comportamental em muitas de nossas igrejas. Por vezes nos esquecemos que
somos latinos tropicais e assumirmos uma cosmovisão euro-americana. Tem
igreja que é pouco mais do que uma estação repetidora das centrais
difusoras do Norte. Esquecemos que somos bandeirantes e não pioneiros;
meridionais e não setentrionais; brasileiros e não ianques.
Não proponho que sujemos o prato em que comemos. Devemos reconhecer o
esforço missionário do outro hemisfério. Entretanto, o preço desse
reconhecimento não nos pode tornar culturalmente alienados. Quer
queiramos ou não, somos parte de um caldo cultural tupiniquim. O que
seria de nós, só pra imaginar, se tivéssemos sido evangelizados por
esquimós? Já sei: estaríamos cultuando em iglus, usando peles de foca e
cantando hinos com melodias polares! Nada mais estranho, não?
Pois bem, que contornos culturais envolvem o evangelho que vivemos?
Cultura por cultura, prefiro a nossa. É mais nossa. Que a deles fique
com eles! O tempo da tutela já passou. Se o evangelho tem de ter cores ,
que sejam as nossas. Com decência e ordem podemos expressar a fé de um
modo mais nosso, mais brazuca, mais caldo de cana, menos coca-cola.
A cidade edificada sobre o monte
Ed René Kivitz
Este mundo vai de mal a pior, e aqueles que acreditam que o mundo vai
melhorar precisam ler a Bíblia outra vez. Ou fazer teologia novamente.
Quem acredita que "o dia de justiça, o dia de verdade, o dia em que
haverá na terra paz, em que será vencida a morte pela vida, e a
escravidão enfim acabará" refere-se às possibilidades de estruturação
social está iludido.
A teologia da missão integral da Igreja deu passos significativos para
que o assistencialismo evoluísse para a solidariedade emancipadora. Na
verdade, a bandeira da responsabilidade social da Igreja levantada pelo
movimento chamado evangelical foi além do velho paradigma "dar o peixe e
ensinar a pescar" e profetizou a necessidade da transformação das
estruturas sociais, isto é, lutar pela igualdade de condições entre os
pescadores: instrução a respeito de pescaria, acesso aos apetrechos de
pesca e às margens dos rios. A visão sistêmica que compreende a
interação entre o indivíduo e a sociedade não dá margem para outra
postura que não a implicação social da evangelização. Ponto para os
herdeiros de Lausanne.*
Os discursos a respeito da Igreja como agência de transformação
histórica e os apelos para que as cidades sejam conquistadas para Cristo
foram, entretanto, inseridos nas agendas dos políticos cristãos,
distorcendo o próprio propósito do Senhor Jesus para sua Igreja e seu
Reino. Boa parte da chamada Igreja Evangélica brasileira (cada dia gosto
menos desta expressão) padece de um crasso erro hermenêutico, a saber, a
transposição simples das promessas do Velho Testamento para o contexto
social e histórico atual.
Quero dizer que a promessa de Deus ao povo de Israel ("Se o meu povo que
se chama pelo meu nome se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se
converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu e sararei a
sua terra") jamais pode ser aplicada ao Brasil e significar que a terra
a ser sarada é a nação brasileira. Deus tinha um povo, e o seu povo
tinha uma terra, um projeto de Estado, uma ética social e uma agenda
litúrgica em unidade coerente. Isto é, o povo de Israel, habitando na
terra da promessa, organizado num Estado regido pela Lei divina em suas
múltiplas dimensões e sujeito ao único e verdadeiro Deus, seria luz para
todas as nações.
Hoje, Deus ainda tem um povo: a Igreja (e se você ainda acredita que o
povo de Deus é a nação de Israel, leia Gálatas novamente). Mas este
povo, a Igreja, não tem uma terra delimitada como espaço geográfico,
tipo território nacional. Mais do que isso, quando o povo de Deus fala
em "organização social", não está falando de um estado de direito, uma
ordem social temporal, mas sim do Reino eterno de Deus. E o Reino de
Deus não é um reino a ser instaurado na história, mas sim sinalizado na
história.
A Igreja não vive sob a promessa de que a sociedade pode ser sarada. A
Igreja vive sob o imperativo de oferecer-se ao mundo como humanidade e
sociedade redimida, que se estrutura, de maneira alternativa, e através
de suas relações internas anuncia profeticamente o Reino que virá. Como
aprendi com os evangelicais, a Igreja é responsável por manifestar aqui
e agora a maior densidade possível do Reino que será estabelecido ali e
além. Mas esta manifestação histórica do Reino de Deus, entretanto, não
se dá pela cristianização da sociedade ou, como pretendem alguns, pela
tomada do poder temporal pela Igreja Evangélica.
A igreja, leia-se comunidade cristã local, é uma cidade edificada sobre
o monte, uma luz na escuridão, que, inserida na sociedade corrompida e
vivendo em meio a uma geração perversa, que se opõe a Deus e é inimiga
da cruz, funciona como um sinal do Reino que virá. Não se iluda,
esperando que o Brasil inteiro um dia fique iluminado. Ele, assim como
todo o mundo, continuará em trevas. Mas em meio a estas trevas, viva em
comunidade, uma comunidade que "vive o que prega para que possa pregar o
que vive".
Isso significa que os cristãos devem se recolher de sua inserção social?
Eu não disse isso. Aliás, o Senhor Jesus disse que a luz acesa não pode
ser colocada embaixo da cama.
Transformação, testemunho e diálogo: reflexões missiológicas a partir de
Tillich
Carlos Eduardo B. Calvani
Toda vez que membros da igreja se encontram com aqueles que estão fora
da igreja, são missionários da igreja, voluntária ou involuntariamente.
Seu próprio ser é missionário” (Paul Tillich)
A igreja de Cristo nasceu com forte impulso missionário. Tal como Jesus
espalhara a mensagem do Reino por onde passava, em palavras e atos
libertadores, também era desejo dos apóstolos espalhar a boa mensagem
por todos os lugares. A primeira atividade missionária registrada no
livro dos Atos acontece já no dia de Pentecostes, quando Pedro prega aos
judeus e um grande número de pessoas aceita a Palavra e recebe o santo
batismo. A proclamação começa com a interpretação dos escritos judaicos
a partir da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Mas a missão
continua através de outros atos: o testemunho de vida comunitária (At
2.42-47) que despertava a simpatia das pessoas e as atraía ao convívio
da primeira comunidade; a restituição de mobilidade a um coxo na porta
do Templo, que motiva outra pregação pública e a primeira prisão dos
apóstolos (At 3 e 4) e prossegue nos muitos relatos de “sinais e
prodígios” dos apóstolos, sempre visando o bem do povo. O testemunho
missionário começa em Jerusalém e derredores, alcança a Samaria (At 8)
e, após a conversão de Saulo se espalha até chegar à Europa. A
estratégia de Paulo em sua primeira viagem missionária era de anunciar o
evangelho a partir das sinagogas e tradições judaicas. Mas logo o
apóstolo compreendeu que o evangelho não é apenas para uma etnia ou para
um povo privilegiado, mas para toda humanidade e, com a intensificação
das perseguições judaicas, passa a anunciar a mensagem libertadora aos
não-judeus. O ingresso desses na igreja marcou a primeira grande
instabilidade na comunidade dos seguidores de Cristo. Chegou-se a um
acordo mais ou menos pacífico no concílio de Jerusalém (Atos 15) onde o
testemunho de Pedro foi decisivo (At 15.7-11), evocando, certamente, sua
própria admiração com a ação livre de Deus na casa do centurião
Cornélio, um romano “piedoso e temente a Deus” (At 10 e 11).
Desde então, a mensagem do evangelho se espalhou pelo mundo de diversas
formas, pela coragem, desprendimento, ousadia e dedicação de mulheres e
homens. A história das missões narrada pelo bispo Stephen Neill [1] traz
inúmeros relatos sobre essa atividade. A era missionária não começou,
como querem alguns, com os movimentos reavivalistas e evangelicais do
século XIX. Naturalmente, houve diferentes interpretações de missão e,
em muitos casos, uma desastrosa simbiose entre a mensagem eterna do
evangelho e as formas culturais daqueles que o transmitiam. Hoje em dia,
praticamente todas as denominações que compõem a Igreja cristã têm
departamentos ou secretarias com orçamento e funcionários dedicados à
tarefa missionária. Em alguns casos essa ainda é compreendida como
implantação de igrejas num determinado local, onde se colocará a placa
da denominação. Há também quem compreenda a missão como um esforço para
persuadir pessoas a abandonarem uma determinada igreja e se filiarem a
outra, onde supostamente o evangelho é pregado com integridade e os
benefícios espirituais e materiais são superiores aos oferecidos pelo
outro grupo. Tais questões nos remetem à urgência de refletirmos sobre
alguns aspectos da missiologia à luz de alguns desafios e problemas
atuais, tais como: a incontornável necessidade de conviver com pessoas
de diferentes religiões (ou mesmo com pessoas sem-religião) num mesmo
espaço social; a identificação do modo como agem os poderes demoníacos
em nosso mundo globalizado e capitalizado e, finalmente, o tipo de
testemunho dado pelos cristãos de diferentes igrejas, o que nos remete à
questão ecumênica. Esses assuntos não são de competência exclusiva dos
missiólogos, mas merecem ser abordados a partir de outras perspectivas.
Neste artigo, pretendo apresentar algumas pistas oferecidas por Paul
Tillich.
Falecido em 1965, Tillich é mais conhecido no Brasil pela obra Teologia
Sistemática. Mas ele também escreveu sobre outros assuntos e de vez em
quando fazia inserções na Pastoral. Seus livros de sermões se tornaram
best-sellers nos EUA nos anos 60 e alguns de seus artigos sobre cultura,
política, educação cristã e missões têm sido redescobertos e relidos nos
últimos anos. Ele nunca escreveu uma obra específica sobre missiologia e
seria esforço inócuo tentar apresentar a “missiologia de Tillich”. O
máximo que podemos fazer é recolher aqui e ali pinceladas sobre o
assunto, apresentadas em artigos curtos ou em trechos de palestras sobre
diálogo inter-religioso. Selecionei três artigos ainda não traduzidos
para o português e desconhecidos da maior parte dos estudantes de
missiologia no Brasil que serão analisados cronologicamente, bem como
algumas menções sobre o assunto na Teologia Sistemática. Perceberemos
nesses textos, uma argumentação por vezes ambígua e paradoxal, oscilando
entre a ingenuidade e a lucidez, as convicções de fé pessoais de Tillich
e uma grande abertura ao diálogo macro-ecumênico.
Missão como transformação
O primeiro texto é um artigo intitulado “Missions and World History ”,
publicado originalmente no jornal “Occasional Bulletin of the Missionary
Research Library”, vol. V, n.10, (10 de agosto de 1954) e posteriormente
no artigo que estou usando como fonte, que é um dos capítulos do livro
editado por Gerald Anderson, com prefácio do bispo Lesslie Newbigin e
que contou com a colaboração de alguns dos principais teólogos e
biblistas protestantes da época (G. E. Wright, J. Blauw, O. Cullman, K.
Barth, H. Lindsell entre outros). Nesse texto, Tillich segue o método da
correlação, abordando o tema da missão a partir de sua teologia do Reino
de Deus como resposta às questões da história humana. Em linhas gerais,
a construção de sua argumentação segue os seguintes passos:
a. A agência que representa o Reino de Deus na história é a Igreja
cristã. Esta, porém, não é o Reino de Deus, mas sua antecipação
fragmentária;
b. O momento no qual o sentido da história tornou-se plenamente
manifesto e que é, por isso, o centro da história, foi o aparecimento do
Novo Ser em Jesus como o Cristo;
c. A partir de Cristo, a história é dividida em “antes e depois dele”.
Tillich dá a esse detalhe cronológico uma importância teológica: “muitas
pessoas, mesmo hoje, ainda vivem antes do evento de Jesus como o
Cristo”. Desse modo, o período que antecede a manifestação ou o
reconhecimento de Jesus como o Cristo, seja em indivíduos ou culturas, é
o período de latência da Igreja: “isso se aplica ao paganismo, judaísmo
ou humanismo. Em todos esses grupos e formas de existência humana, a
Igreja ainda não está manifesta, mas está presente de forma latente”.
A partir dessa argumentação, Tillich propõe sua definição de missões:
“são todas as atividades da Igreja, pelas quais ela age em prol da
transformação de si mesma onde quer que ela se encontre em estado de
latência, para seu estado manifesto – a recepção do Novo Ser em Jesus
como o Cristo”. Essa definição traz algumas implicações, dentre as quais
destaca: (a) missão não é simplesmente a tentativa de salvar da
condenação eterna o maior número possível de indivíduos dentre as nações
do mundo. Essa visão pressupõe separa o indivíduo do grupo social ao
qual pertence; (b) missão não é mera função cultural de fertilização das
culturas pelo Evangelho; (c) missão também não é a tentativa de unir
diferentes religiões, pois isso faria de Cristo algo menos que o centro
da história. Missão é, simplesmente, “a tentativa de transformar a
Igreja latente – que está presente em todas as religiões mundiais – em
algo novo: a Nova Realidade em Jesus como o Cristo. Missão significa
Transformação e, por isso é uma função que pertence à Igreja e é o
elemento básico de sua vida (...) essa transformação de algo latente em
algo manifesto refere-se não apenas a nações e grupos fora da
Cristandade, mas também às próprias nações e grupos nominalmente
cristãos”.
Tillich não usa a palavra conversion (conversão), mas, “transformation”.
Mas o que significa, propriamente, “transformação”? Ele observa que um
tema muito discutido no período final do liberalismo clássico foi o do
caráter absoluto da religião cristã em relação às demais religiões do
mundo. Para muitos teólogos liberais, o cristianismo era parte
integrante do mundo ocidental e não deveria interferir no
desenvolvimento religioso das culturas orientais. Porém, para Tillich,
essa opinião “nega a reivindicação de que Jesus é o Cristo, o portador
do Novo Ser. Tal pensamento torna obsoleta tal afirmação, pois aquele
que traz o Novo Ser não é uma figura relativa, mas uma figura absoluta e
única. O Novo Ser é um, como o Ser-em-si é um”.
Porém, é bom observar que Tillich nunca confunde o Novo Ser, tal como
revelado em Cristo, com as expressões históricas e culturais do
cristianismo. Ele se recusa a utilizar a expressão “caráter absoluto do
Cristianismo”, optando por “universalidade do Cristianismo”, mas
reconhece que essa universalidade não pode ser comprovada por argumentos
teóricos, pois esses não provam nada – simplesmente reforçam a crença
daqueles que já fazem parte do círculo cristão. Isso significa que não é
por argumentos teóricos ou mesmo teológicos que se prova a
universalidade do cristianismo. Essa prova deve ser pragmática (“It is a
pragmatic proof”): “Só a própria atividade missionária pode provar que a
Igreja é agente através da qual o Reino de Deus continuamente se
atualiza na história”. Isso acontece quando reconhecemos, valorizamos e
respeitamos as manifestações religiosas de cada cultura como sinais do
estado de latência da Igreja. Tillich reconhece que os símbolos
religiosos de todas as culturas revelam um tipo de relacionamento com o
Sagrado. É isso que torna possível a missão cristã entre as nações.
Finalmente, Tillich dirige sua atenção para um problema de sua época: o
humanismo presente nas sociedades cristãs em suas expressões mais
secularizadas. Para ele, todas as críticas humanistas ou seculares que
se dirigem contra a Igreja acontecem porque “tudo o que está latente
deve tornar-se manifesto, e há, freqüentemente, um forte desejo da parte
das pessoas que pertencem à Igreja latente, de se tornarem membros da
Igreja manifesta. Isso poderá acontecer, somente se a Igreja manifesta
aceitar o criticismo proveniente da Igreja latente”. Isso significa,
para ele, que missão é uma via de mão-dupla. Ou seja, não há somente a
missão cristã entre não-cristãos, mas também está em curso um processo
de transformação da Igreja manifesta por parte daqueles que,
tradicionalmente, são alvo da missão promovida pela Cristandade. Em
outras palavras, as críticas contra as igrejas cristãs provenientes de
religiões não-cristãs, de grupos humanistas ou agnósticos, devem ser
levadas em consideração, por serem expressões da “igreja latente”.
Tillich conclui daí, que o que as missões cristãs têm a oferecer não é o
cristianismo americanizado, germanizado ou britanizado, mas a mensagem
de Jesus como o Cristo, o Novo Ser, pois o centro da história não é o
cristianismo nem a Igreja cristã: “O objetivo das missões é proporcionar
a mediação de uma realidade que é o critério para toda história humana e
não apenas para o judaísmo, o paganismo ou o humanismo. É um critério
também contra o cristianismo organizado, pois toda humanidade está sob o
julgamento do Novo Ser em Cristo”.
Tillich insere ainda, um último parágrafo, que não estava presente no
artigo original de 1954, sobre o que, na época, era denominado
“igrejas-novas”, ou seja, grupos cristãos que surgiam à margem das
igrejas tradicionais e que hoje conhecemos como igrejas pentecostais,
neo-pentecostais, pós-pentecostais ou qualquer outra terminologia. Para
Tillich, esses grupos que se organizam de forma livre, criticam a
arrogância das igrejas tradicionais e, provam que Jesus é o centro da
história: “O fato de que são igrejas novas que desenvolvem sua
independência e resistem à identificação do reino de Deus com qualquer
forma específica e tradicional de cristianismo, talvez seja o maior
triunfo da missão cristã”.
Já observei em outro texto que o uso que Tillich faz das categorias da
ontologia aristotélica (“estado latente” e “estado manifesto”) pode
suscitar críticas por teólogos tanto de linha conservadora como por
teólogos mais liberais por diferentes razões: “Para alguns, tais
categorias relativizam a mensagem do Evangelho; outros, por sua vez,
dizem que essa definição permanece condicionada ao preconceito que
coloca o cristianismo como centro e referencial de plenitude para, a
partir daí, julgar as demais religiões como estágios imperfeitos que
ainda hão de alcançar aquilo que já alcançamos. É uma crítica que deve
ser levada em conta, mas sem nos esquecermos de que, se Cristo deixa de
ser nosso centro e referencial, dificilmente poderíamos continuar
fazendo teologia cristã”, pois, como afirma o teólogo, Jesus não é uma
figura relativa, mas uma figura absoluta e única.
Mas algumas de suas declarações encontraram eco na reflexão missiológica
a partir dos anos setenta. Por exemplo, ao afirmar que a “transformação”
refere-se não apenas a grupos não-cristãos, mas também às próprias
nações e grupos cristãos, Tillich retira das igrejas a pretensão de
administrar a Missio Dei ou de ter exclusividade sobre essa. Sendo
primeiramente, missão de Deus, ela também se dirige à igreja, pois no
contato com o diferente, a Igreja não tem só coisas a transmitir e
ensinar, mas também a aprender. Isso aconteceu com a igreja primitiva.
Inicialmente restrita aos judeus que aceitavam Jesus, a Igreja
posteriormente se universaliza quando entra em contato com os
não-judeus. Atos 10 conta que Pedro estava muito reticente quando foi ao
encontro de Cornélio. Seus preconceitos eram fortes, mas Deus usou o
pagão Cornélio para que o apóstolo - e posteriormente toda igreja -
aprendesse o significado da palavra “universalidade”. A Bíblia afirma
que o Espírito Santo se manifestou entre os gentios na casa de Cornélio
“enquanto Pedro ainda pregava” (At 10.44), o que muito admirou os
companheiros do apóstolo. E isso aconteceu antes do batismo de Cornélio.
Como era possível? Quando o próprio Pedro relata essa visita no capítulo
seguinte, essa mesma surpresa – do agir do Espírito entre os gentios – é
reforçada: “Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre
eles, como também sobre nós, no princípio... se Deus lhes concedeu o
mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era
eu para que pudesse resistir a Deus?” (At 11.15,17). Em outras palavras,
era como se o apóstolo dissesse: “desculpem... não sei como aconteceu...
mas o Espírito já estava lá... nem foi preciso que eu pregasse muito”. A
partir de então começa um processo gradativo de abertura da comunidade
judaico-cristã aos gentios. Ou seja, houve “transformação”, não apenas
em Cornélio, mas também em Pedro e na Igreja. Em todo contato
missionário, Deus sempre nos precede e está à nossa espera, no outro.
Missão entre a apologética e o diálogo inter-religioso.
O segundo texto no qual Tillich tece considerações missiológicas é um
pequeno livro que reúne quatro palestras (“Bampton Lectures”)
apresentadas em 1961 na Universidade de Columbia em 1962. Não é um texto
específico sobre missiologia, mas sobre o relacionamento do cristianismo
com outras religiões. Os comentários seguintes são baseados na edição em
francês .
O primeiro capítulo, intitulado La situation présente: Les religions,
Les quase-religions et leurs affrontements, tem como ponto de partida o
conceito específico de religião desenvolvido anteriormente por Tillich,
como a condição de estar tomado por uma preocupação última que ofereça
resposta à questão do sentido da vida. Essa preocupação comporta uma
seriedade incondicional e exige o sacrifício de toda preocupação
preliminar. A designação religiosa mais comum para o conteúdo de tal
preocupação é o termo “Deus”, seja um Deus ou deuses. A partir daí, ele
observa que, em nosso mundo, essa preocupação se expressa em diferentes
formas, nas religiões mono ou politeístas, nas religiões “não-teístas” e
nas “quase-religiões”. Na sua opinião, o que caracterizava a situação
das grandes religiões do mundo em sua época era o fato de terem que
conviver e enfrentar as “quase-religiões” como os nacionalismos
fascistas e o comunismo que exigiam aceitação incondicional e absoluta
de símbolos escatológicos que negam suas próprias ambigüidades e
distorções, como o Reino de mil anos do 3o Reich ou a sociedade sem
classes, por exemplo: “considero o nacionalismo sob a forma radicalizada
de fascismo e o socialismo sob a forma radicalizada de comunismo, como
os exemplos mais significativos de movimentos quase-religiosos em nosso
tempo”. Deve ser lembrado, porém, que a crítica de Tillich ao comunismo
soviético e chinês nunca anulou suas firmes convicções socialistas,
declaradas desde sua inserção no movimento do Socialismo Cristão quando
ainda morava na Alemanha.
Tillich analisa o desenvolvimento tecnológico e o secularismo como armas
principais da ofensiva das “quase-religiões” contra as religiões
tradicionais, por sua capacidade de enfraquecer tradições culturais e
religiosas e cita, como exemplos, o desenvolvimento técnico-industrial
do Japão e o fascismo japonês, referindo-se, naturalmente, à aliança
japonesa com a Alemanha e a Itália na 2a guerra mundial e, mais à
frente, o surgimento do nacionalismo indiano. Nos anos seguintes, o
nacionalismo e o desenvolvimento tecnológico cresceram muito na Índia e
no Paquistão. Apesar da pobreza extrema da maior parte da população,
Índia e Paquistão fazem parte do restrito grupo de países com arsenal
atômico e convivem em estado de permanente tensão política. No caso do
secularismo, seu efeito cultural mais visível é a indiferença religiosa.
As religiões tradicionais perdem seu vigor e se enfraquecem em uma de
suas funções sociais que é dar coesão e unidade ao grupo. A conseqüência
desse processo é que as práticas religiosas passam para o âmbito
privado, sendo compartilhadas por pequenos grupos. Assim, o caminho fica
preparado para as “quase-religiões” que se oferecem para preencher o
vazio das tradições religiosas, exaltando a um nível absoluto, valores
necessários à auto-estima de todo grupo social, como a idéia de Nação.
Ele observa que, na época pré-secular, a idéia de Nação estava unida à
de Religião – a coesão social era garantida pela uniformidade religiosa.
Nação e religião não se distinguiam, por exemplo, no Império Bizantino,
na Igreja Ortodoxa grega e russa, em certas regiões da Alemanha
luterana, no xintoísmo, confucionismo, etc, algo que foi separado com o
conceito de estado-leigo. Na reforma inglesa, o rei se tornou chefe
supremo da Igreja e durante um tempo, somente os anglicanos podiam
desfrutar de certos privilégios políticos.
Tillich reconhece que há dois elementos que determinam uma nação: a
afirmação de sua natureza e a consciência de sua vocação. Os dois juntos
formam o nacionalismo. O perigo é a perversão desse nacionalismo. O
nacionalismo deturpado torna-se uma “quase-religião” fascista. Como
exemplos, ele cita Grécia, Alemanha, os judeus (a idéia da Aliança),
França, China e os EUA com sua idéia de liberdade. Diga-se de passagem,
hoje em dia é comum referir-se à “religião civil americana”, fortalecida
na era Reagan e atualmente liderada por George Bush. Algo semelhante
ocorre com o comunismo – tem raízes religiosas (profetismo e
escatologia) que o faz atacar sistemas sacramentais oferecendo propostas
éticas e sociais de mudança na história. Todos esses movimentos são
ameaças à paz mundial.
Tillich inicia o segundo capítulo (Principes d’un jugement chrétien sur
les religions non chrétiennes) com uma afirmação de ordem geral que ele
considera fundamental para todas as religiões e grupos sociais: a de
que, se um grupo – ou um indivíduo – crê possuir uma verdade, ele
recusará por princípio, toda afirmação de uma verdade que se oponha à
dele e esse é um direito que não pode ser negado. Portanto, “é natural e
inevitável que o cristão proclame a afirmação fundamental do
cristianismo de que Jesus é o Cristo e que ele recuse tudo o que
contradiga essa doutrina (...) isso significa que o cristianismo, no seu
encontro com as outras religiões e com as quase-religiões, deve rejeitar
suas afirmações à medida que elas se opõem, implícita ou explicitamente,
ao princípio cristão”.
A questão é saber qual a natureza dessa rejeição, se total ou parcial. A
rejeição total impossibilita qualquer relação. Na rejeição parcial há
mais tolerância, mas continuam a existir pontos intocáveis e a
conseqüência é que a relação torna-se geralmente superficial. Ele propõe
uma relação de “união dialética de recusa e reconhecimento recíprocos,
com todas as tensões, incertezas e flutuações que tal dialética
implica”. Para ele, se considerarmos a história do cristianismo como um
todo, observaremos uma predominância dessa última posição na atitude
cristã em relação às religiões não-cristãs. Essa observação contradiz a
opinião geral de que o cristianismo tem uma atitude exclusivamente
negativa em relação a outras religiões. Ele busca exemplos dessa atitude
já na tradição judaica que afirmava ser Javé superior aos outros deuses
porque era o Deus da justiça e na autocrítica profética que ameaçava o
povo de Israel por sua injustiça. Isso significa que “o monoteísmo
exclusivo da religião profética não é a afirmação do caráter absoluto de
um deus particular contra os outros, mas a afirmação do valor universal
da justiça (...), um princípio que transcende todas as religiões
particulares”. Isso é reafirmado por Jesus em Mateus 25 e na parábola do
bom-samaritano.
Na seqüência, Tillich cita o evangelho joanino e o apóstolo Paulo,
argumentando que João sublinha mais que os sinóticos o caráter único de
Cristo, mas o faz à luz da idéia mais universal de sua época: o Logos.
Desse modo, “a pessoa de Jesus é libertada de um particularismo que a
teria tornado propriedade de um grupo religioso específico”. Paulo, por
sua vez, transcende o legalismo judaico e a libertinagem pagã, incluindo
ambos na escravidão do pecado e na necessidade de redenção. Porém, “esta
redenção não provém de uma nova religião que seria a religião cristã,
mas de um evento da história que julga todas as religiões, inclusive a
própria religião cristã”. Esse evento é a manifestação do Novo Ser em
Cristo. Da Patrística, Tillich destaca a importância da doutrina do
Logos, o Verbo, presente em todas as culturas, preparando-as para sua
manifestação definitiva numa pessoa histórica, o Cristo. Essa atitude
deu ao cristianismo primitivo uma característica sem precedentes – de
não rejeitar absolutamente as demais religiões e, ao mesmo tempo, não
aceitá-las sem reservas.
Percorrendo a tradição cristã, Tillich destaca a utilização de conceitos
de outras culturas e religiões (especialmente o helenismo) pela teologia
cristã e observa que esses conceitos não eram meramente filosóficos, mas
também religiosos (physis, hypostasis, ousia, prosopon, Logos, etc).
Para ele, o cristianismo primitivo nunca se considerou sob o prisma da
exclusividade. Ao contrário, via-se como religião universal, pois a
verdade, não importa sua procedência, é cristã. Ele observa que a igreja
primitiva moldou suas estruturas litúrgicas a partir de moldes judaicos
e das religiões de mistério e organizou-se sob formas jurídicas romanas.
A partir daí, propõe traduzir as palavras de Jesus, “sede perfeitos como
o vosso Pai Celeste é perfeito”, por “sede universais, como vosso Pai
Celeste é universal” e observa, na nota de rodapé, que a palavra
“Universal” deve ser entendida como “inclusiva”, ou seja, “que inclui
todos e não exclui ninguém”.
É bom observar que, para Tillich, esse universalismo não é sincretismo,
pois há um critério último: a afirmação de que Jesus é o Cristo. Ele
afirma que, durante séculos, o cristianismo foi universal na Europa e
que essa atitude só mudou depois do século XII, quando se intensificaram
os conflitos com o Islamismo. A insegurança motivou as cruzadas e o
retrocesso posterior, quando o cristianismo fechou-se e fanatizou-se,
desenvolvendo um sentimento de medo para com tudo que fosse estranho e
passando a encarar com desconfiança tudo que lhe fosse externo.
Particularmente, considero essa afirmação bastante discutível, pois
muito antes do século XII, as missões cristãs nas ilhas britânicas
lutaram fervorosamente para exterminar a religião celta e o mesmo
aconteceu em outras regiões.
Mas, em apoio a essa tese, Tillich apresenta uma linha de pensamento que
reconhece a existência de uma revelação além dos limites do judaísmo e
do cristianismo: Nicolau de Cusa, Erasmo, Zwínglio (que admitia a
presença do Espírito além das fronteiras da Igreja cristã), os
socinianos que foram os predecessores dos unitarianos e até certo ponto,
da teologia protestante liberal, ensinando a existência de uma revelação
universal operando em todas as épocas da história, Locke, Hume e Kant,
que julgaram o cristianismo à luz do critério da Razão e se serviram do
mesmo critério para julgar as demais religiões, o que permitiu o
surgimento da filosofia da religião. Cita ainda Schleiermacher e seu
mestre, Troeltsch, para quem o cristianismo é a realização de tudo o que
há de positivo nas demais religiões. Por outro lado, reconhece que
sempre houve também quem enfatizasse o caráter particular e absoluto do
cristianismo. Essa linha predominou na teologia de alguns reformadores,
na ortodoxia protestante, no pietismo e culminou na neo-ortodoxia de
Barth. Embora reconheça que a posição de Barth estava relacionada ao seu
confronto com o nazismo, afirma que “o preço que ele (Barth) teve que
pagar por essa resistência coroada de sucesso foi a estreiteza teológica
e eclesiástica” porque Barth e toda sua escola abandonaram a doutrina
clássica do Logos. A conclusão desse capítulo é que ”o cristianismo não
pode se contentar em recusar pura e simplesmente as religiões ou
quase-religiões com as quais convive. A relação com elas deve ser
essencialmente dialética, e isso demonstra, não a fraqueza do
cristianismo, mas, ao contrário, sua grandeza”.
A partir dessas premissas, Tillich esboça no capítulo seguinte, um
exercício de diálogo entre cristianismo e budismo (Un dialogue entre
chrétiens et bouddhistes), servindo-se do método dialético da
correlação. Trata-se de um capítulo bastante delicado e até diríamos,
ingênuo, pois na verdade, não se trata propriamente de “diálogo”, mas de
monólogo, posto que não há um interlocutor budista. Tillich trabalha com
“tipos ideais” de cristianismo e budismo. Esses “tipos” são idéias que
nos ajudam a compreender e distinguir religiões, mas não existem
efetivamente no tempo e no espaço devido às variações particulares de
indivíduos e grupos. Ou seja, os tipos não são estáticos, sobretudo num
mundo onde há cada vez mais interações culturais e todos os sistemas
religiosos acabam se permeando e se influenciando mutuamente. Ele chega
até mesmo a estabelecer (sozinho!) os pressupostos para esse “diálogo”,
que seriam os seguintes:
a. Cada participante do diálogo deve reconhecer o valor das convicções
religiosas do outro e concordar que, em última análise, ela se
fundamenta numa experiência revelatória;
b. Os participantes devem representar posições essenciais de maneira
convicta para que o diálogo seja uma confrontação série, e não algo
superficial;
c. As duas partes devem estar abertas à crítica do outro;
d. Deve-se manter como pano-de-fundo, a referência contínua ao
secularismo e às quase-religiões. Assim, o diálogo ultrapassaria o nível
das discussões sobre sutilezas dogmáticas e se aprofundaria em problemas
comuns a ambas as religiões à luz da situação mundial.
A partir daí, Tillich inicia reconhecendo que a pergunta à qual todas as
religiões e quase-religiões oferecem uma resposta é a do fim inerente a
toda existência – o telos. É a partir dessa pergunta e resposta que deve
se estabelecer o diálogo, e não a partir da comparação de conceitos
divergentes sobre Deus, o ser humano ou a salvação. No cristianismo, o
telos é a realização de todas as coisas (ser humano e natureza) no Reino
de Deus; no budismo, o telos é a unificação de todas as coisas no
Nirvana. São duas expressões simbólicas. Reino de Deus é um símbolo
social, político e pessoal, enquanto Nirvana é um símbolo ontológico.
Contudo, o diálogo é possível porque as duas representações se
fundamentam numa apreciação negativa da existência. O Reino de Deus se
estabelece em oposição aos reinos deste mundo e contradiz as estruturas
de poder demoníaco que dominam a história e a vida pessoal; o Nirvana
opõe ao mundo das aparências, a verdadeira realidade da qual procedem
todas as coisas e à qual tudo deve retornar.
Mas apesar dessa base comum, há algumas diferenças essenciais: o
cristianismo vê o mundo como criação de Deus e o considera
essencialmente bom (ou seja, o julgamento negativo do cristianismo sobre
ao mundo refere-se às condições da existência e não à sua essência),
enquanto o budismo considera o mundo na ótica da queda ontológica na
finitude. As conseqüências dessas duas perspectivas são fundamentais –
no Cristianismo, o absoluto é simbolizado a partir de categorias
pessoais, enquanto os símbolos budistas são transpessoais; o
cristianismo responsabiliza o ser humano pela queda, enquanto no
budismo, o ser humano é considerado prisioneiro do movimento circular da
vida, que produz cegueira e sofrimento. Ainda assim, Tillich vê amplas
possibilidades de diálogo se dermos atenção a certas nuances de cada
religião. Por exemplo, na doutrina cristã clássica, o termo “Deus”
designa o Último, o Incondicional e o Infinito, que jamais pode ser
identificado como um ente condicionado à existência.
O diálogo pode se desenvolver também no plano ontológico, por exemplo:
subjacentes às expressões Reino de Deus e Nirvana, encontramos dois
princípios ontológicos diferentes, mas não necessariamente antagônicos:
“participação” e “identificação”. A escatologia paulina fala da
consumação de todas as coisas em Deus, quando Deus for tudo em todos e o
símbolo joanino “vida eterna” pode ser entendido como a participação
individual na eterna alegria divina, perspectiva semelhante à esperança
budista de felicidade eterna além da história. O símbolo cristão fala
mais em “participação” (participamos, como indivíduos, do Reino de Deus
e, enquanto indivíduos, desfrutamos a felicidade eterna). Já o símbolo
budista prioriza a “identificação” de todas as formas de existência no
Nirvana.
Esses princípios produzem atitudes diferentes em relação à natureza, à
sociedade e à história, mas que convergem em alguns momentos. Com
relação à natureza, a tradição judaico-cristã, ao considerar o ser
humano “coroa da criação”, favoreceu uma atitude de distanciamento que
impulsionou a manipulação da natureza e o desenvolvimento da tecnologia,
com conseqüências desastrosas do ponto de vista ecológico. Mas essa
mesma tradição cristã dá testemunho de atitudes de identificação do ser
humano com a criação, como no caso da mística franciscana e o romantismo
alemão. Em termos de ética social, o conceito de “participação” conduz
ao ágape (viver, historicamente, a antecipação do amor divino na
sociedade), enquanto o conceito de “identificação” conduz à compaixão
(“sofrer com”). Em relação à história, onde predomina o símbolo Reino de
Deus, a história é compreendida não apenas como o cenário no qual se
decide o destino dos indivíduos, mas como o movimento no qual se cria o
novo e que se dirige para uma novidade absoluta que é simbolizada pela
expressão “novos céus e nova terra”. Ou seja, o Reino de Deus é um
símbolo com potencial revolucionário e se o cristianismo tomar esse
símbolo com seriedade, manifestará uma vontade revolucionária de
transformar radicalmente a sociedade. Para Tillich, “não há nada análogo
no budismo. O objetivo do budismo não é transformar a realidade, mas
libertar-se dela (...) é impossível derivar da idéia de Nirvana a idéia
de criar algo novo na história ou qualquer impulso de transformação da
sociedade”.
A meu ver, a leitura desse capítulo serve-nos apenas para compreender um
pouco da metodologia teológica de Tillich na análise que faz de uma
outra religião tentando identificar pontos de contato com a mensagem
cristã. Porém, por mais que tenha se esforçado por estabelecer um
diálogo frutífero com o budismo, o capítulo é muito apologético. Não se
trata de um diálogo real, pois falta um interlocutor budista para
responder a Tillich (e eu, particularmente, desconheço qualquer resposta
budista posterior a esse texto). Na verdade, ao invés de “diálogo”,
trata-se de um monólogo a partir de seus próprios referenciais,
conduzido num tom bastante apologético, visando apresentar ao
“tipo-ideal” de budismo que ele conhecia, a superioridade do símbolo
cristão do Reino de Deus em relação ao Nirvana.
No quarto capítulo, (Le jugement que le christianisme porte sur lui-même
à lumière de sa rencontre avec les grandes religon”) Tillich afirma que,
no contato com outras religiões, o cristianismo tem sido julgado e
enriquecido e passa a esboçar algumas idéias com o objetivo de
identificar de que modo o diálogo inter-religioso pode ajudar o
cristianismo a se auto-criticar. Ele relembra alguns pontos já
apresentados anteriormente, sobretudo sua convicção de que, o
cristianismo, por sua natureza, é aberto a todas as contribuições e essa
abertura revela sua grandeza. Ao mesmo tempo, reconhece que há dois
fatores que contribuem para limitar essa disposição do cristianismo em
acolher críticas externas: a hierarquia das igrejas e as polêmicas
doutrinárias, porque essas, ao definir dogmas sempre geram retrocessos,
aumentam a disposição para condenar e diminuem a capacidade de aceitar
críticas externas uma vez que fecham as portas para o diálogo. Aqui
aparece uma consideração missiológica. Conforme Tillich, a maioria dos
empreendimentos missionários contribuiu para conduzir o cristianismo a
ocupar o lugar de uma religião entre as outras, ao invés de permanecer
como um centro de catalisação de elementos positivos das mesmas: “à
medida que o cristianismo negligenciou a aplicação do julgamento da cruz
de Cristo contra si mesmo, desenvolveu-se como uma religião particular
ao lado das outras”.
Na visão de Tillich, se o cristianismo não quer se considerar como uma
religião ao lado das outras, deve combater aqueles elementos que lhe
caracterizam como uma religião: os mitos e cultos. Ele vê sinais dessa
“luta por Deus contra a religião” nos profetas do Antigo Testamento
contra o próprio culto judaico e as tendências politeístas da religião
nacional. Essa atividade profética “foi uma espécie de
‘desmitologização’ que elevou Deus à categoria de Deus do universo, face
aos deuses das nações que são ‘nada’ (...) Deus recusou ser um deus”.
Esse processo continuou no Novo Testamento, particularmente na crítica
de Jesus contra o Templo e em sua reinterpretação da Lei; na afirmação
paulina de que os rituais da lei foram abolidos pela revelação em Cristo
e na visão joanina de que a “vida eterna” é aqui e agora e que o juízo
se realiza quando acolhemos ou rejeitamos a luz. Tillich interpreta
essas afirmações como a mensagem de um “Deus acima de Deus” e identifica
a continuidade desse processo na resistência dos pais da Igreja em
aceitar qualquer representação de Deus que o fizesse semelhante aos
deuses contra os quais lutavam, na convicção dos reformadores de que
Deus está presente mesmo nos domínios profanos e no Iluminismo que
rejeitou mitos e cultos, ficando apenas com um conceito filosófico de
Deus como garantia do imperativo categórico. Tudo indica que aqui o
teólogo chega a um impasse, pois em seguida ele mesmo reconhece a
impossibilidade de eliminar os mitos e ritos da experiência cristã na
história: “não é possível eliminar o mito e o rito, apesar de todas as
tentativas de desmitologização e desritualização. Eles ressurgem sempre
(...) a luta por Deus contra a religião é travada na situação paradoxal
de nos servirmos da religião para combater a própria religião”.
Na conclusão, Tillich observa que a única possibilidade de testemunho
cristão junto às religiões não-cristãs é renunciar à estratégia da
conversão em prol do diálogo. Esse diálogo poderá se desenvolver a
partir de uma ameaça comum a todas as religiões: a insegurança frente ao
adiantado processo de secularização e desumanização. Esse diálogo não
implica em uma fusão de religiões porque isso destruiria as
características peculiares que dão a cada religião seu dinamismo; também
não se trata de propor a supremacia de uma religião particular sobre as
outras. Tampouco devemos esperar que as religiões morram por si só, pois
a questão do sentido último da vida sempre acompanhará os seres humanos.
No que se refere ao cristianismo, Tillich rejeita a proposta de
abandonar nossa própria tradição religiosa em prol de uma “idéia
universal” que não seria mais que uma abstração. O caminho seria outro:
o aprofundamento em nossa própria tradição religiosa através da oração,
meditação, reflexão e ação, porque “na profundidade de toda religião
viva há um ponto onde a religião como tal perde sua importância, rompe a
particularidade e se eleva a uma liberdade espiritual que lhe dá uma
visão da presença do divino em todas as expressões do sentido último da
vida humana”.
Esse talvez seja um dos textos mais ambíguos de Tillich. Ao mesmo tempo
em que se esforça de modo sincero por estabelecer um diálogo com outras
religiões, ele mesmo não consegue abandonar suas convicções de que o
cristianismo representa um tipo superior de atitude religiosa, que se
autocritica e que está sempre aberto a se enriquecer de outras
influências religiosas. Por outro lado, há instigantes provocações em
seu texto que mereceriam melhor consideração, como por exemplo, a
afirmação de que o cristianismo é capaz de absorver e reinterpretar
influências de outras religiões. De fato, o cristianismo é uma das
poucas tradições religiosas capaz de aceitar e incorporar como escritura
sagrada de caráter revelatório, o texto de outra religião, no caso o
judaísmo. O que nós, cristãos, chamamos “Antigo Testamento” continua a
ser a escritura sagrada do judaísmo. O cristianismo relê esse texto à
luz da experiência de Jesus Cristo como revelação plena de Deus e o tem
como “Palavra de Deus”. Esse processo desenvolveu-se de modo natural na
história da Igreja cristã, que usou amplamente o Antigo Testamento até
que o próprio cânon cristão estivesse definido. Porém, a canonização dos
escritos que hoje compõem o Novo Testamento, infelizmente pôs fim a esse
processo, ao mesmo tempo em que excluiu escritos cristãos tão antigos
quanto os que hoje fazem parte do Novo Testamento. Seria muito bom se
hoje o cânon do Novo Testamento fosse reconsiderado incluindo outros
evangelhos e escritos primitivos. Mais desafiante ainda seria
compreender que a Palavra de Deus, o seu Logos eterno, não se limita à
tradição judaico-cristã. Desse modo, poderíamos aceitar a revelação
divina transmitida em textos de outras religiões como o Bhagavad-Gita,
Upanishades, etc e aprendermos com eles, pois “Deus falou muitas vezes e
de muitas maneiras” (Hb 1.1).
Missão como representação do Reino de Deus
Cronologicamente, o terceiro texto que nos interessa é o terceiro volume
da Teologia Sistemática, publicado em 1963, onde ele trata daquilo que,
tradicionalmente chamamos pneumatologia, eclesiologia e escatologia. É
na parte II, intitulada “A Presença Espiritual”, que encontramos algumas
referências missiológicas. O argumento é construído da seguinte maneira:
o Espírito é a resposta às ambigüidades da vida (sejam individuais ou
comunitárias). A Presença Espiritual se manifesta no espírito humano,
levando ao reconhecimento do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo e cria
a Comunidade Espiritual, que vive sob o impacto criativo desse evento
central. Essa comunidade é “invisível”, “escondida”, “aberta somente à
percepção da fé”, mas apesar disso real, irresistivelmente real (TS:
500). Porém, essa comunidade não é idêntica às igrejas cristãs. Essa
Comunidade está latente antes do encontro com a revelação central, e
está manifesta depois desse encontro e do reconhecimento do Novo Ser em
Jesus enquanto o Cristo. “As igrejas representam a Comunidade Espiritual
numa auto-expressão religiosa manifesta, enquanto que os outros
representam a Comunidade Espiritual em latência secular” (TS: 502).
Esses “outros” são “alianças de jovens, grupos de amizade, movimentos
educacionais, artísticos, políticos, e mesmo de forma óbvia, indivíduos,
sem qualquer relação visível uns com os outros nos quais é sentido o
impacto da Presença Espiritual, embora sejam indiferentes ou hostis às
expressões visíveis de religião. Eles não pertencem a uma igreja, mas
não estão excluídos da Comunidade Espiritual”. (TS: 502).
Num capítulo anterior, Tillich já tratara da “Presença Espiritual e a
antecipação do Novo Ser nas religiões”. Ele retoma agora as mesmas
idéias, argumentando em favor de uma Comunidade Espiritual “latente” no
povo de Israel, no islamismo, nas comunidades adoradoras dos grandes
deuses mitológicos, nos grupos sacerdotais esotéricos, no misticismo
clássico da Ásia, etc. O estado é de latência porque “o critério último,
a fé e o amor do Cristo ainda não apareceu àqueles grupos... eles são
dirigidos inconscientemente ao Cristo, mesmo quando o rejeitam caso ele
seja apresentado a eles mediante a pregação e as ações das igrejas
cristãs” (TS: 503).
Como se dá o relacionamento entre os membros da Comunidade Espiritual
manifesta (os cristãos) e os da Comunidade Espiritual latente? A
resposta é dada de modo bastante natural: “Toda vez que membros da
igreja se encontram com aqueles que estão fora da igreja, são
missionários da igreja, voluntária ou involuntariamente. Seu próprio ser
é missionário” (TS: 532). Trata-se aqui, muito mais de testemunho
visando a transformação daquela Comunidade Espiritual latente em
Comunidade manifesta.
Tillich reconhece, porém, que é difícil para qualquer igreja separar a
mensagem cristã da cultura particular dentro da qual é pregada. “Num
certo sentido é impossível, porque não existe mensagem cristã abstrata.
Ela está sempre incorporada a uma cultura particular” (TS: 553). Em todo
caso, há de ser sempre um esforço pautado pelo reconhecimento prévio de
todo cristão de que não se dirige aos não-cristãos para levar-lhes algo
que não tenham, mas em testemunhar em amor e serviço, o poder do Novo
Ser manifesto em Jesus, a fim de que os “cristãos latentes” o
reconheçam. É uma posição semelhante à esboçada por Karl Rahner, da
“presença de Cristo nas religiões”. Mas não é idêntica, pois o conceito
de Rahner mais popularizado foi o de “cristãos anônimos” - todos que
aceitam livremente a oferta da autocomunicação de Deus, mediante a fé, a
esperança e a caridade, mesmo que do ponto de vista social (através do
batismo e da filiação à Igreja) e de sua consciência objetiva (através
de uma fé explícita, nascida da escuta da mensagem cristã) não tenham
formalmente assumido o cristianismo. Porém, Tillich aqui evita usar o
termo “cristãos latentes” ou mesmo “Igreja latente”, como fizera no
primeiro artigo citado. Ou seja, nessa parte da Teologia Sistemática não
há uma identificação tão clara e explícita da Comunidade Espiritual
manifesta com as igrejas cristãs, mas sim com o reconhecimento do Novo
Ser em Jesus enquanto o Cristo, embora na parte V, essa identificação
volte a ocorrer parcialmente. Outra diferença está no fato de que, a
posição de Rahner foi acusada de comodista por von Balthasar, por
esquivar-se da tarefa missionária, enquanto que, para Tillich, trata-se
de um elemento imprescindível da Comunidade Espiritual nascida do
Pentecostes - “o impulso missionário daqueles que foram tomados pela
Presença Espiritual. Era-lhes impossível não passar adiante a mensagem
daquilo que lhes tinha acontecido, a todo mundo, porque o Novo Ser se a
humanidade como um todo e mesmo o próprio universo não estivessem
incluídos nele. À luz do elemento de universalidade no relato de
Pentecostes devemos dizer que não existe Comunidade Espiritual sem
abertura a todos os indivíduos, grupos e coisas e o impulso de
incorporá-los a si” (TS: 501).
Na Teologia Sistemática temos então um movimento que evita centralizar a
posse da mensagem salvífica na Igreja. Essa mensagem é o poder do Novo
Ser em Cristo, capaz de vencer as ambigüidades da religião, da cultura e
da moral e oferecer fragmentariamente (embora de modo real) a vitória
sobre as diversas marcas da alienação através da regeneração
(participação no Novo Ser), justificação (aceitação por parte Novo Ser)
e santificação (transformação pelo Novo Ser). Essas palavras são
definidas por Tillich da seguinte maneira: “Regeneração... é o novo
estado de coisas, o novo eon, que foi trazido pelo Cristo; o indivíduo
‘entra’nele, e ao fazê-lo, ele próprio participa dele e é renascido
mediante essa participação... regeneração e conversão, entendidas nesse
sentido, tem pouco coisa em comum com a tentativa de criar reações
emocionais apelando ao individuo em sua subjetividade. Regeneração é o
estado de haver sido transportado para a nova realidade manifesta em
Jesus como o Cristo. As conseqüências subjetivas são fragmentárias e
ambíguas e não constituem a base para reivindicar participação no
Cristo. Mas a fé que aceita Jesus como o portador do Novo Ser é essa
base” (TS: 380). Justificação “significa literalmente, ‘tornar justo’, a
saber, tornar o homem aquilo que ele é essencialmente e do qual está
separado... é um ato de Deus que não é dependente do homem, um ato pelo
qual Ele aceita aquele que é inaceitável... não existe nada no homem que
obrigue Deus a aceitá-lo. Mas o homem deve aceitar exatamente isso. Ele
deve aceitar que é aceito; ele deve aceitar a aceitação. E a questão é:
como é possível isso, apesar da culpa que o torna hostil a Deus? A
resposta tradicional é: ‘por causa de Cristo’”. (TS: 381). Santificação,
“é o processo no qual o poder do Novo Ser transforma a personalidade e a
comunidade, dentro e fora da Igreja” (TS: 382).
Qual seria então a função das igrejas enquanto Comunidades Espirituais
manifestas, que reconhecem o poder salvífico de Deus em Cristo e que
vivem desse poder? Algumas pistas são dadas na parte V da Teologia
Sistemática, seção II.B.1. As igrejas são representantes do Reino de
Deus na história. O símbolo “Reino de Deus” é, para Tillich, “o mais
importante e o mais difícil do pensamento cristão e um dos mais
críticos, tanto para o absolutismo político quanto eclesiástico” (TS:
658). É um símbolo de conotações políticas, sociais (inclui as idéias de
paz e justiça), pessoais (confere sentido eterno ao indivíduo com a
promessa de participar das bênçãos desse reino) e universais (não é um
reino apenas para os seres humanos, mas envolve a realização da vida sob
todas as dimensões). As igrejas, para Tillich, são representantes do
Reino de Deus na história, apesar de todas as ambigüidades
eclesiásticas: “A representação do Reino de Deus pelas igrejas é tão
ambígua como a incorporação da Comunidade Espiritual nas igrejas”. (TS:
671).
Aqui são necessários alguns esclarecimentos que lançam luzes sobre o
relacionamento entre cristãos e não-cristãos. Tillich argumenta que “não
existiam igrejas manifestas antes da manifestação central do Novo Ser no
evento sobre o qual se baseia a igreja cristã, mas havia e há igreja
latente em toda a história, antes e depois desse evento... portanto, se
dizemos que as igrejas são forças de vanguarda no impulso em direção à
plenitude da história, devemos incluir a igreja latente nesse
julgamento. E podemos dizer que o Reino de Deus na história é
representado por aqueles grupos e indivíduos em que a igreja latente é
efetiva” (TS: 672). Isso significa que, todo movimento missionário
cristão em direção a grupos não-cristãos implica na abertura para que
também sejamos abençoados pela Presença Espiritual nesses grupos.
Missão como aprofundamento na mística e despertamento da profecia
O quarto texto no qual Tillich nos oferece algumas impressões a respeito
do relacionamento do cristianismo com as outras religiões é o último
artigo por ele escrito, uma conferência apresentada em 12/10/1965 para
um simpósio sobre história das religiões, organizado por Mircea Eliade
na Universidade de Chicago. [30] É um texto relativamente curto, no qual
Tillich, logo no início, evita duas possíveis abordagens sobre esse
tema: a dos teólogos que rejeitam todas as demais religiões, com exceção
daquela da qual ele é teólogo (exemplifica citando Barth e Brunner) e a
dos teólogos radicais da secularização. Ele usa a expressão “teologia-sem-Deus”,
referindo-se, provavelmente, a um movimento que fez certo estardalhaço
nos círculos norte-americanos da década de sessenta e que ficou
conhecido como “Teologia da morte de Deus”, “Teologia do ateísmo
cristão” ou simplesmente “Teologia radical”. Os mais conhecidos
representantes desse círculo são Paul van Buren, William Hamilton,
Gabriel Vahanian e Thomas Altizer. Há quem associe também Harvey Cox a
esse movimento, sobretudo por seu livro The Secular City. Os
pressupostos anunciados por Tillich no início da conferência são os
seguintes:
1. As experiências revelatórias são universalmente humanas. Existe
revelação em todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si
mesmo;
2. O ser humano recebe a revelação no contexto de sua finitude humana.
Devido a nossas limitações biológicas, psicológicas e sociológicas, a
recepção dessa revelação sempre será distorcida, especialmente se a
religião toma a revelação como um meio para atingir um fim e não como um
fim em si mesma;
3. Não há experiências revelatórias isoladas na história humana, mas
todo um processo revelatório, no qual os limites da adaptação e os erros
da distorção estão sujeitos à crítica mística, profética e secular.
4. Pode haver um acontecimento central na história das religiões que uma
os resultados positivos das diferentes recepções da revelação. Tal
acontecimento possibilitaria uma teologia concreta de significado
universal.
5. A história das religiões não se desenvolve dentro da história da
cultura, mas em seus subterrâneos, ou em suas profundezas.
Para Tillich, o teólogo que aceita esses pressupostos poderá defender,
com seriedade, a importância da história das religiões para a teologia
contra os representantes das duas abordagens supracitadas (a barthiana e
a da teologia radical), embora possa - e deva! - aceitar a crítica da
secularização. O teólogo deve, também, assumir o fato de que a religião,
como uma estrutura de símbolos intuitivos e ativos (que implica em mitos
e ritos) estará sempre presente na história humana, mesmo nas culturas
mais secularizadas, pois o espírito sempre busca corporificar-se, a fim
de se manifestar como algo concreto e efetivo. Essa atitude implica em
enfrentar com seriedade a ortodoxia exclusivista e o secularismo
radical, porque ambos são reducionistas e tendem a eliminar todos os
elementos religiosos do cristianismo, com exceção, talvez, da pessoa de
Jesus – “o grupo neo-ortodoxo faz de Jesus o único lugar onde se pode
ouvir a palavra da revelação; o grupo secular procede do mesmo modo,
transformando-o no mais perfeito representante da secularização.
Trata-se de uma redução drástica tanto da imagem como da mensagem de
Jesus. Esta se limitaria a ser uma corporificação do chamado ético ou de
uma função social e, por conseguinte, isso seria a única coisa que
restaria da mensagem de Cristo”.
Ao mesmo tempo em que rejeita a visão ortodoxa tradicional de que as
religiões não-cristãs são perversões de uma espécie de revelação
original, carentes de valor para a teologia cristã por não serem
portadoras da revelação ou da salvação, Tillich busca um ponto de
equilíbrio entre a valorização positiva da revelação universal e a
crítica secular. Ele reconhece a influência positiva em seus tempos de
estudante da antiga Escola da História das Religiões, que lhe mostrou
como a tradição bíblica foi enriquecida pelas religiões pagas e lhe
abriu os olhos para compreender a revelação progressiva na história rumo
ao kairos, a plenitude do tempo, com a manifestação de Jesus como o
Cristo. Isso lhe abre a brecha para levantar a pergunta sobre a
existência de outros kairoi na história das religiões.
Tillich chama sua abordagem de “dinâmico-tipológica”, reconhecendo que
“não existe (na história) um desenvolvimento progressivo que evolua de
maneira constante, mas há elementos da experiência do Sagrado que sempre
estão presentes”. Quando esses elementos predominam numa cultura, criam
um estilo religioso particular. Por isso, todas as religiões repousam
sobre uma base sacramental: a experiência do Sagrado em seu caráter
misterioso.
Mas há também um segundo elemento, presente em muitas religiões, a
saber, tendências críticas contra a demonização do sacramental,
transformando-o em objetos manipuláveis. O primeiro desses elementos
críticos é o místico, ou seja, a recusa a conformar-se com expressões
concretas do Último, do Transcendente. Todos os movimentos místicos
compreendem as corporificações culturais do Sagrado como secundárias e
busca transcendê-las rumo ao mais elevado, ao Último. Outro elemento é o
profético que rejeita a sacramentalização por causa de suas
conseqüências demoníacas, tais como a negação da justiça em nome da
santidade. Mas Tillich reconhece que se o elemento profético suprimir
totalmente o sacramental e o místico, se transformará em puro moralismo
e secularismo. Por isso, é preciso unir esses três elementos
(sacramental, místico e profético) numa religião que não se identifica
com nenhuma das religiões particulares, nem mesmo o cristianismo e que
ele chama “Religião do Espírito Concreto”.
Apesar da hesitação em identificar essa tal “Religião do Espírito
Concreto” com o cristianismo, Tillich refaz o mesmo movimento de
avanço-e-retrocesso do texto Le Christianisme et les religions. Dá um
grande passo macro-ecumênico e, de repente, retorna ao particularismo
cristão: “Atrevo-me a dizer (logicamente, na qualidade de teólogo
protestante) que não existe exemplo maior de uma síntese desses três
elementos que a doutrina paulina do Espírito. Ali temos os dois
elementos fundamentais: a união do extático e do racional. Há êxtase,
mas sua expressão máxima é o amor no sentido de ágape. Há êxtase, mas
sua outra criação é a gnosis, o conhecimento de Deus”.
Assim, toda história da religião é contemplada a partir daí: uma luta em
prol da Religião do Espírito Concreto; uma luta de Deus a partir da
religião e contra ela. Como cristãos, vemos a vitória decisiva dessa
luta na manifestação de Jesus como o Cristo e em sua vitória na cruz e
ressurreição sobre os poderes demoníacos. Esse seria o critério maior do
cristianismo - a própria cruz de Cristo: “Aquilo que se produziu ali de
maneira simbólica, que nos outorga o critério, também ocorre, de modo
fragmentário, em outros lugares, em outros momentos, e continuará
acontecendo mesmo quando estes outros lugares não estejam conectados
histórica ou empiricamente com a cruz”. A partir dessas pistas, Tillich
finaliza sua conferência anunciando seu desejo de reconstruir sua
Teologia Sistemática a partir do diálogo inter-religioso e não mais a
partir do confronto com os poderes da secularização. Essa era sua
esperança quanto ao futuro da teologia.
A “Religião do Espírito Concreto” seria o telos da
história das religiões, de características teônomas. É a unidade do que
foi descrito como “elementos” na experiência do Sagrado (a base
sacramental, o elemento místico e o profético). Embora nessa palestra,
Tillich afirme que ela não se confunde com o cristianismo, sabemos que
em outra palestra anterior, nunca publicada ele tenha sugerido que o
Cristianismo é a única religião que combina esses três elementos.
Sempre é possível aprender algo de Tillich. Nessa que foi sua última
palestra, a principal contribuição para os missiólogos está na defesa de
que as experiências revelatórias a partir das quais nascem as religiões
são universalmente humanas e que é preciso identificar a revelação em
todas as religiões porque Deus sempre deu testemunho de si mesmo; a
recepção e transmissão cultural dessa revelação, porém, sempre
permanecerá distorcida devido às limitações humanas. Resta, então, ao
missionário cristão em contato com outras religiões, evitar o confronto
teológico e dialogar a partir de dois pólos: o místico e o profético. Ou
seja, aprofundar-se na própria mística cristã, a fim de perceber que, no
seu conteúdo último, a experiência mística cristã não difere da
experiência mística de outra religião e, ao mesmo tempo, identificar e
valorizar os elementos proféticos da outra religião.
Pistas para uma reflexão missiológica
Nos estudos atuais sobre o relacionamento do cristianismo com outras
religiões há, pelo menos três diferentes atitudes que têm sido
identificadas como “exclusivismo, inclusivismo e paralelismo”. O
exclusivismo se funda sobre um conceito de verdade que reduz a revelação
e a salvação de Deus à linguagem e às formas unívocas da tradição
cristã. O clássico axioma extra ecclesiam nulla salus (fora da Igreja
não há salvação) traduz muito bem essa posição no campo católico. No
campo evangélico, essa posição se expressa na missiologia do Pacto de
Lausanne e na perspectiva fundamentalista da escola de missões do
Seminário Fuller. A posição inclusivista descobre valores positivos e
verdades fora da própria tradição religiosa e procura reduzir as
diferenças (J. Daniélou, H. de Lubac, Karl Rahner), mas está
constantemente sob o risco de degenerar em hybris, devido à pretensão
explícita de ter o privilégio do julgamento final e dos critérios claros
de discernimento do que ocorre nas outras religiões. Conforme Panikkar,
“a partir do momento em que é só você quem tem o privilégio de uma visão
que abarca tudo, e de uma atitude tolerante, é você quem determina o
posto que os outros devem assumir no universo”. No paralelismo (Paul
Knitter, John Hick, Hans Küng), as religiões correm caminhos paralelos
rumo ao mesmo fim (telos) onde todas se encontrarão. O caminho de cada
religião deve ser respeitado e não sofrer interferências externas. É uma
posição que “evita sincretismos e ecletismos que tentam harmonizar as
religiões entre si, ao mesmo tempo em que assume uma posição tolerante e
de respeito pela religião do outro”.
A posição de Tillich certamente não é exclusivista e também não chega ao
paralelismo, pois ele sempre retorna a Cristo como a manifestação plena
do Novo Ser e critério para cristãos e não-cristãos. Talvez prefiram
classificá-lo como “inclusivista”. Essa atitude pode ser identificada no
segundo texto que analisamos de Tillich, particularmente no capítulo que
propõe o diálogo entre cristianismo e budismo. Ali, o teólogo pressupõe
conhecer com relativa segurança a teologia budista do Nirvana e, em
todas as suas comparações, o símbolo cristão do Reino de Deus sempre
prevalece como superior ao símbolo do Nirvana. Sem referir-se
especificamente a Tillich ou ao texto em questão, Bartholo afirma: “essa
soberba inclusivista é a pretensão do crente ser proprietário de uma
verdade plena e absoluta e, portanto, apto a identificar nos outros, mas
nunca em si mesmo, apenas verdades parciais e relativas”. Mas é preciso
reconhecer que Tillich é coerente com sua convicção de que o poder
salvífico de Deus se manifestou plenamente em Jesus como o Cristo. Esse
poder, quando reconhecido e aceito pelos seres humanos, causa impactos
decisivos na vida pessoal e social, criando a Comunidade Espiritual
manifesta, que se tornará, por suas palavras e atos, testemunho e
representação do Reino de Deus.
Embora critique o inclusivismo, algumas afirmações de Panikkar podem nos
ajudar a compreender melhor Tillich. Panikkar reconhece, por exemplo,
que a vivência religiosa está no campo das paixões e adesões pessoais e
não das escolhas racionais e, por isso, toda epoché fenomenológica que
pretenda colocar “entre parêntesis” a própria fé no momento do diálogo,
se revela fonte de erro e falsidade. Para Pannikar, a epoché
inclusivista seria “psicologicamente impraticável, fenomenologicamente
inapropriada, filosoficamente carente, teologicamente débil e
religiosamente estéril”. Isso talvez explique a fragilidade do pretenso
“diálogo” cristão-budista esboçado por Tillich.
Que contribuições os missiólogos podem extrair das observações de
Tillich e da discussão atual sobre paralelismo, inclusivismo ou
exclusivismo?
Recentemente foi publicada no Brasil a obra de um dos mais conhecidos e
respeitados missiólogos de nosso tempo, o sul-africano David Bosch. Em
muitos pontos, a obra de Bosch aproxima-se da perspectiva tillichiana,
sobretudo em sua pressuposto básico de que a fé cristã é uma fé
missionária com uma perspectiva intrinsecamente universal e ecumênica.
Bosch argumenta que o evangelho é universal, que Deus é missionário e a
missio Dei (singular) antecipa, fundamenta e critica as missiones
ecclesiae (plural). Nessa perspectiva, a Igreja perde seu lugar de
relevo e passa a um “segundo plano” porque se reconhece como realidade
descentrada de si e concentrada no Reino.
As atividades missionárias levadas a cabo pela igreja devem estar
submetidas ao propósito maior do reinado de Deus no mundo. Isso
significa que é preciso falar primeiro de Reino de Deus e só depois da
Igreja, enfatizar o caráter escatológico da missão e o papel provisório
da igreja como agente do reino. Na América Latina, a chave hermenêutica
para compreender a missão, não é a igreja enquanto instituição, mas o
reinado de Deus. A igreja não inicia nem controla a missão de Deus, pois
ela é, também, resultado dessa missão. Portanto, a implantação de
igrejas em todos os lugares ou o crescimento da denominação numa
sociedade, por mais desejável que seja, não é o fim último da missão. O
mandato de Jesus é “ide e pregai...” e não “ide e implantai igrejas”.
Outro ponto de contato entre Bosch e Tillich é a defesa de que Deus
continua a realizar a nova realidade que foi inaugurada e manifesta na
vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo – o seu reinado
de vida, amor, dignidade, justiça e paz. Embora esse reinado pareça
oculto, está presente na história como fermento, sal e luz em diversos
grupos. A igreja participa na missão de Deus na medida em que busca
identificar os sinais atuais do reinado de Deus agora e para sempre. A
igreja-em-missão é um sinal da intenção de Deus para a humanidade e a
criação, “ela é chamada a encarnar, já no aqui e agora, algo das
condições que hão de prevalecer no reinado de Deus”.
Bosch, tal como Tillich, também dá atenção a um paradoxo incontornável
na vida da Igreja em sua missão: o de ser, ao mesmo tempo, uma
comunidade exclusiva, com senso de pertença a um reino próprio, mas que
deve abrir-se ao mundo num movimento inclusivo. Isso conduz ambos a
propor a estratégia do testemunho e do diálogo com adeptos de outras
religiões. Novamente, Bosch retoma algumas idéias de Tillich, afirmando
que, quando nos predispomos ao diálogo missionário, é preciso aceitar de
boa vontade e sem relutância a coexistência de crenças diferentes no
mesmo espaço social; que todo diálogo autêntico pressupõe compromisso
confessional dos dois lados; que os cristãos devem predispor-se ao
diálogo não apenas com a tentativa de vencer uma batalha argumentativa,
mas de encontrar o Deus que nos precede, que nos espera e que está
preparando pessoas para o contato. Nas palavras de Queiruga, “a missão
cristã... chega sempre a uma casa já habitada pelo Senhor e o que faz é
oferecer seu novo e plenário modo de compreendê-lo como único e comum a
todos”.
Mas Bosch e Tillich concordam também que o diálogo não é um substituto
nem um subtefúrgio para a missão. A fé cristã não pode deixar de falar
do que vimos e ouvimos e do que nos contaram nossos pais. Ela é
intrinsecamente missionária, universal e inclusiva, embora não absoluta:
“Conhecemos apenas em parte, mas conhecemos. E cremos que a fé que
professamos é tanto verdadeira quanto justa e deve ser proclamada. Não o
fazemos, todavia, como juízes ou advogados, mas como testemunhas; não
como soldados, mas como mensageiros da paz; não como vendedores
persuasivos, mas como embaixadores do Senhor Servo”.
Um dos efeitos do fenômeno da globalização foi colocar em contato
bastante próximo pessoas de diferentes orientações religiosas numa mesma
sociedade. A despeito da supremacia histórica do cristianismo católico
no Brasil, as religiões indígenas e africanas nunca foram completamente
extintas, mas sobreviveram, em alguns casos com adaptações sincréticas.
No século XX o protestantismo que aqui se implantou acompanhava o
otimismo do Atlântico-Norte, propondo “a evangelização do mundo nesta
geração” e grupos mais pentecostais pretendiam salvar “o Brasil para
Cristo”. Esses diferentes empreendimentos cresceram, se solidificaram e
se estabeleceram na sociedade, mas o mundo não foi evangelizado no
século XX e tampouco o Brasil se converteu para Cristo. Algumas dessas
comunidades protestantes e pentecostais transformaram-se em espécies de
abrigos para refugiados que não se sentem à vontade num mundo que passa
por rápidas mutações. No final do século XX, o fenômeno neopentecostal
cresceu bastante, propondo um tipo de cristianismo diferente dos
conhecidos até então.
Nos últimos anos, as igrejas protestantes tradicionais no Brasil
passaram a falar muito em missão. Houve até mesmo uma febre de
“conferências missionárias” em todas as denominações, inclusive na IEAB
com a Confelíder. Porém, a boa intenção missionária de alguns
organizadores às vezes era contaminada pelo interesse de outros no
crescimento denominacional. Em muitos casos, o conceito de missão
permanecia subordinado ao objetivo do crescimento e expansão da igreja
cristã. Isso acaba servindo muito bem para bispos, pastores e líderes
personalistas que conseguiram multiplicar o número de membros de suas
paróquias e dioceses que fazem dos números, armas ideológicas para
criticar regiões da igreja onde a ênfase não é o crescimento
quantitativo, mas o testemunho evangélico e o acompanhamento pastoral
como sinais do Reino.
O conceito teológico “Reino de Deus” merece ser mais aprofundado por
todos, pois ele é o referencial da missão. Toda e qualquer discussão
sobre missões deve ser impulsionada pelo objetivo da proclamação do
Reino (com suas implicações políticas, sociais e universais) e o
testemunho da Presença Espiritual e não na Igreja. A criação de
comunidades cristãs filiadas a uma denominação cristã deve ser esperada
como uma conseqüência da missão, e não exigida como objetivo, porque a
igreja não vive para si, mas para os outros em prol do Reino. Em alguns
casos, o compromisso com o Reino, ao invés de produzir crescimento do
grupo, poderá levá-lo à extinção. O critério para medir o grau de
fidelidade de um grupo cristão ao Evangelho não é a expansão e o
crescimento. Já observei, alhures, que “se usarmos esse mesmo critério
para algumas comunidades neotestamentárias, verificaremos que muitas
delas não conseguiram sobreviver às perseguições em algumas cidades.
Simplesmente foram extintas à força da espada ou tiveram que se mudar em
movimentos migratórios de fuga para outras regiões menos hostis. Tais
fatos não desqualificam em nenhum momento o grau de fidelidade daquelas
igrejas a Cristo. Ao contrário, algumas comunidades acabaram porque
acompanhavam o fluxo do sangue dos mártires. Sua fidelidade residia
exatamente no martírio e na morte, como grão que morre debaixo da terra
para produzir vida. A morte de algumas comunidades não significa a morte
do cristianismo”.
A missão deve ser a contínua atividade da igreja no mundo, identificando
a ação salvadora e libertadora de Deus que produz vida, unindo-se a ela
e fortalecendo-a, mesmo quando essa ação está sendo empreendida e vivida
por grupos não-cristãos. Em termos aristotélico-tillichianos, seria o
encontro da “comunidade manifesta” com a “comunidade latente”. Esse
encontro enriquecerá ambos e poderá levar a “comunidade latente” a
encantar-se com o testemunho de amor, serviço e justiça da comunidade
manifesta, feitos em nome e no poder de Jesus Cristo. Isso não significa
que não seja mais necessário evangelizar explicitamente. Quem foi
impactado pelo poder salvífico do Novo Ser em Jesus enquanto o Cristo,
sempre se sentirá motivado a compartilhar as bênçãos da salvação. Mas o
processo de crescer no conhecimento e amor de Cristo nos universaliza a
ponto de sairmos ao mundo com a boa notícia de que Deus está em toda
parte, em missão, criando comunidades espirituais que sejam sinais do
seu Reino. Quando a missão se torna testemunho em favor do Reino, “a
Igreja não perde sua singularidade e importância, mas é provocada a
viver sua identidade com um novo estilo, em que a dinâmica do testemunho
e do serviço passa para um plano de maior importância”.
A partir de Tillich, podemos identificar grandes desafios para a missão
transformadora hoje. Alguns grupos cristãos ainda se preocupam muito em
investir energias no trabalho missionário junto a povos não-cristãos
(culturas orientais, indígenas, africanas, etc), mas pouco fazem contra
as “quase-religiões”. No seu tempo, Tillich as identificava no fascismo,
nazismo e comunismo, em todo totalitarismo político de pretensões
globais. Hoje costumamos falar em “religião do mercado” e estamos sempre
dispostos a denunciar seus efeitos visíveis no desemprego e miséria. A
religião do mercado é idolátrica porque faz do dinheiro e da
prosperidade o seu deus. Mas há muitos grupos cristãos que se aliaram ao
mercado. Boa parte das grandes agências missionárias tem aplicações no
mercado financeiro, sem contar os grupos cristãos que associam evangelho
com prosperidade. Não deveriam eles também ser alvo de nosso testemunho
missionário de serviço, desprendimento, justiça e solidariedade?
Essas reflexões oferecidas para discussão não têm como objetivo esfriar
o ardor missionário de nenhum grupo, nem tampouco menosprezar o dever de
proclamar a salvação em Jesus Cristo. Ele, o Logos que ilumina todo ser
humano e que nos transforma dia-a-dia à sua semelhança, é uma boa
notícia que deve ser ouvida por todos. E sob a inspiração do seu poder,
comunidades podem ser criadas para preservarem sua memória, nutrirem-se
de seu corpo e sangue, anunciarem e viverem o Reino, pois esse era o
conteúdo central da mensagem de Jesus.
Missão, evangelização e proselitismo
Steven Hayes
Uma das mais importantes questões que a missão ortodoxa enfrenta, diz
respeito à evangelização e o proselitismo e a diferença entre ambos.
Alguns tem dito que não há diferença entre ambos. Se as pessoas falam a
respeito da necessidade de evangelização, eles encontram a resposta: "A
Igreja Ortodoxa não promove conversões", como se evangelização e
proselitismo fossem a mesma coisa.
Outros estão mais preocupados com o proselitismo que vem de fora da
Ortodoxia - de missionários que desde o fim do comunismo tem se
apressado em converter a Rússia, Bulgária, Romênia e outras terras
tradicionalmente ortodoxas, para sua forma de pensamento.
Os cristãos do Ocidente tendem a pensar que o Oriente Ortodoxo não é
"missionário". O século XX, depois da Primeira Guerra Mundial, tem sido
o período de contato "ecumênico" entre os cristãos de diferentes
tradições. Porém, a metade do séc. XX, de 1920-1970, foi o período
quando as atividades missionárias da Igreja Ortodoxa atingiu seu ponto
mais baixo. Após a Queda de Constantinopla para os turcos, em 1453, a
Rússia era realmente o único centro da missão ortodoxa, e a Revolução
Bolchevique colocou um fim a isso.
O renascimento da missão ortodoxa em nosso tempo é resultado de sementes
plantadas por pessoas como o Arcebispo Yannoulatos da Albânia, cuja
publicação "Porefthendes" apela para uma renovação da visão missionária,
já nos anos 1950 e 1960. Na África, muitas pessoas estavam pedindo para
se unir à Igreja Ortodoxa em 1930, e trouxeram uma nova visão
missionária para a ortodoxia no Leste Africano após a Segunda Guerra
Mundial.
Mais recentemente, pessoas em outros lugares foram levados à Ortodoxia,
não por missionários ortodoxos que viajam fazendo proselitismo, mas,
porque eles acreditaram que Deus os chamava para tornarem-se cristãos
ortodoxos. Houve muitas conversões de evangélicos à Ortodoxia na América
e em outros lugares como Portugal e Filipinas.
Este processo de pessoas vindo para a Ortodoxia levou alguns a afirmar
que a missão ortodoxa não é "centrífuga" mas "centrípeta". Ao invés de
missionários partirem, a Igreja espera que as pessoas venham até ela.
Mas isso não é bem verdade. Se olharmos para a história da missão
ortodoxa, há muitos momentos em que os missionários buscaram povos de
diferentes culturas, ou quem vive em diferentes partes do mundo. Santo
Cirilo e Metódio, Santo Estevão de Perm, Santo Inocêncio de Alaska e São
Nicolau do Japão, são justamente alguns exemplos de tais missionários.
A diferença entre evangelização e proselitismo não é a mesma que a
diferença entre missão centrífuga e centrípeta, embora essa talvez possa
ser uma pista para tal.
Em lugares como a Rússia e a Romênia onde a Igreja Ortodoxa ficou bem
estabelecida, mas no último par de gerações foi perseguida, também há
uma grande tarefa de evangelização. Lugares como a Rússia e a Romênia
precisam ser re-evangelizadas. Será que esta pode ser a diferença entre
evangelização e proselitismo? É "evangelização" quando feita por
cristãos ortodoxos no interior de um país tradicionalmente ortodoxo, e
"proselitismo" quando feito para não-ortodoxos de fora? Não penso que
seja assim.
Evangelização, dentro do uso do termo (em inglês), significa dizer ou
espalhar a Boa-nova. Os quatro Evangelhos falam das boas novas sobre
Jesus Cristo. Quando nós, como cristãos, dizemos aos outros o que Deus
fez em Jesus Cristo, nós estamos evangelizando.
Proselitismo, de outro lado, significa "trazer pessoas para dentro",
fazendo-as mudar suas convicções, seu partido, suas opiniões ou sua
religião. No proselitismo há uma forte tendência de dizer às pessoas o
quão ruim ou erradas são suas crenças atuais. Dizer às pessoas que suas
crenças são más ou erradas não parece ser "Boa-nova". Se nós
evangelizamos, não estamos dizendo "nossa religião é melhor que a sua
religião". Não estamos nos colocando como seres moralmente ou
espiritualmente superiores, e tentando conquistar pessoas para deixar
sua religião juntando-se a nós, de forma que se sintam tão superiores
como nós. Quando evangelizamos, dizemos, de fato, que Deus fez grandes
coisas. Alguém descreveu uma vez a evangelização como "um mendigo
dizendo a outro mendigo aonde conseguir pão". Para um mendigo faminto,
esta é uma "boa-nova". E um mendigo transmitindo a outro mendigo tais
"boas notícias" não pode se sentir vangloriado ou superior por este
motivo.
Quando missionários budistas primeiro saíram da Índia para ir a outros
lugares, chegando ao novo local, disseram apenas dois tipos de coisas:
"Isto é o que fazemos" e "Isto é o que não fazemos". Eles não fizeram
nenhum comentário sobre o que as pessoas lá já estavam fazendo em sua
religião ou filosofia. Não criticaram ou condenaram as crenças e
práticas das pessoas. E este pode ser um bom exemplo para os
missionários cristãos também seguirem. Se agirmos assim, então estaremos
evangelizando e não fazendo proselitismo. Muitos missionários ortodoxos
seguiram seguem este exemplo.
Se as pessoas que ouvem a Sagrada Escritura dizem que querem seguir
Cristo e ser batizados, então, é claro, haverá mais o que aprender. Se
eles quiserem realmente seguir Cristo, então vão querer também aprender
mais a respeito da fé cristã e sua aplicação em suas próprias vidas e
comportamento. Às vezes eles surpreendem os missionários com seu fervor.
Quando o Príncipe Vladimir de Ruskiev se tornou cristão em 988, ele
surpreendeu os missionários bizantinos ao buscar abolir a principal
punição em seu reino. Houve uma mudança radical em seu estilo de vida.
Necessariamente, as pessoas não se tornam cristãs simplesmente mudando
seu estilo de vida, especialmente se elas mudaram através da força ou
fraude. Forçar tais mudanças nas pessoas é proselitismo e não
evangelização. Evangelização é feita com espírito de humildade e amor,
enquanto o proselitismo é caracterizado pela arrogância e orgulho. É
muito mais fácil fazer proselitismo do que evangelizar; entretanto,
somos chamados a evangelizar.
Tentei, neste artigo, indicar onde, segundo penso, residem as principais
diferenças entre evangelização e proselitismo. A diferença é importante
e acredito que é uma das mais sérias questões que os estudiosos de
missiologia da Igreja Ortodoxa enfrentam nos dias de hoje. Se não
enfrentamos, nós, cristãos ortodoxos, podemos nos deparar fazendo
críticas às ações que nós próprios praticamos, e condenando o que, em
certos lugares e situações, relevamos e perdoamos.
Os desafios do cristianismo
Robinson Cavalcanti
O cristianismo, hoje em dia, positivamente, cada vez se universaliza
mais. Está presente na maioria dos países, etnias e classes sociais, e
sua força missionária está em expansão. No entanto, o cristianismo atual
tem de enfrentar sérios desafios e obstáculos, tanto externos quanto
internos.
Não se pode menosprezar o desafio do Islã, que se expande, não aceita a
laicidade do Estado, a liberdade religiosa com igualdade perante a lei.
Os Estados islâmicos são espaços de restrição, discriminação e repressão
ao cristianismo missionário. A imigração a partir deles já afeta a
cultura européia. O zelo expansionista desses Estados, alimentado pelos
petrodólares, é real e crescente. O nacionalismo bramânico, na Índia, ou
o budista, em Myanmar (ex-Birmânia), também atestam o endurecimento das
outras grandes religiões em relação à fé cristã.
No Ocidente — historicamente um espaço geopolítico do cristianismo —
sofremos a violenta devastação causada pelo secularismo. Assistimos à
drástica redução do número de freqüentadores dos cultos, à indiferença,
ao materialismo prático consumista e à negação de valores cristãos. Uma
minoria de praticantes exerce uma religiosidade individualista e
subjetiva, sem impacto na vida cultural. Essa falha vem sendo preenchida
por diversos tipos de misticismo.
Internamente, o cristianismo sofre de dois grandes males: o liberalismo
e o neofundamentalismo.
O liberalismo moderno — filho do racionalismo e neto do iluminismo —
cede, rapidamente, lugar ao liberalismo pós-moderno, ou revisionismo. A
verdade não mais é atingida apenas pela razão; simplesmente ela não pode
ser atingida. Não há verdade revelada; não há verdade objetiva e
universal, mas apenas o relativismo da verdade de cada um. A autoridade
das Sagradas Escrituras e da tradição apostólica, o caráter único da
Igreja como agência do reino, e a unicidade de Jesus Cristo como Senhor
e Salvador são negados e combatidos. Portanto, morrer pela boca dos
leões ou pela mão dos gladiadores se torna algo exótico ou ridículo.
O neofundamentalismo possui uma eclesiologia débil e equivocada, baseada
na sociologia e não na teologia. Fragmenta de forma trágica e
interminável as “denominações”, dilacerando o Corpo de Cristo — Igreja
una, santa, católica e apostólica — ao promover o espírito sectário e
intolerante, o antiintelectualismo, o legalismo, o moralismo, a
irresponsabilidade social e cívica, e a proliferação de distorções
doutrinárias (e de usos e costumes). Esses males adoecem os membros da
comunidade de fé, que deveria ser terapêutica e agência de transformação
histórica. A liderança da Igreja — rígida, autofágica, ambiciosa,
carreirista, narcisista, triunfalista — abandona os seus soldados
feridos, foge dos riscos. É incapaz de se unir, de expressar gestos de
solidariedade, ou de elaborar respostas adequadas aos desafios atuais.
Mea culpa, mea maxima culpa . Que o Senhor da Igreja tenha piedade de
nós. Que ele purifique e reavive o seu Corpo, ilumine o nosso
discernimento, a nossa dependência do Espírito Santo, o nosso
conhecimento e compromisso com a Palavra, e aumente a nossa paixão
missionária. Que faça, poderosamente, florescer entre nós uma ortodoxia
com compaixão.
A missão segundo o modelo de Jesus Cristo
Júlio Zabatiero
Introdução
O modelo missionário a ser seguido pela Igreja é o praticado pelo nosso
Senhor Jesus Cristo. As características básicas da missão de Jesus
Cristo foram: (1) Enviado pelo Pai, como Seu representante na terra, a
fim de revelar a Sua graça e demonstrar a Sua justiça (Jo 1,12-14; Rm
3,21-26), Jesus viveu praticando a vontade do Pai, sendo fiel a Ele e
rejeitando o caminho de Satanás (Mt 4,1-11); (2) Ungido, guiado e
dirigido pelo Espírito Santo (Lc 4,18-21), de quem recebia a energia e o
poder para servir ao Pai e à humanidade, e em cujo poder foi ressureto
(Rm 1,1-4); e (3) Encarnado como ser humano, dentro da cultura e
sociedade judaicas (Jo 1,1-11), e assumindo a condição de escravo, sendo
obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2,5-11), Jesus tornou-se
plenamente solidário com a humanidade em sua necessidade e sofrimento,
sem, porém, pecar (Hb 2,14-18).
• A pós-modernidade como a face “deste presente século” (Rm 12,1-2)
Assim como Jesus, enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito, encarnou-se
na sociedade e cultura de seu tempo, também a Igreja deve se encarnar na
sociedade e cultura de seu próprio tempo. A cultura de nosso tempo é a
forma de vida chamada de “pós-modernidade”. Como a cultura no tempo de
Jesus, ela oferece oportunidades e desafios para a missão da Igreja.
Seguindo o exemplo de Jesus, a Igreja deve se encarnar de forma crítica
na pós-modernidade. As duas características básicas da encarnação
missionária são: (a) o discernimento do Espírito (Cl 1,9-11), a fim de
podermos distinguir entre o pecado e a justiça, o certo e o errado, o
bem e o mal, a verdade e o erro em nossa cultura e sociedade; e (b) a
compaixão (Mc 6,34), para podermos anunciar o Evangelho da salvação às
pessoas que estão escravizados pelos poderes do pecado e da morte, e que
caminham cegas, como ovelhas perdidas, sem pastor.
1. O desafio da fidelidade
1.1. A religiosidade peregrina e perambulante
A forma predominante da religiosidade pós-moderna é a da peregrinação. A
religião é vista pelas pessoas como um meio para conseguir resolver os
problemas que a ciência, a técnica e a política não conseguem resolver.
As necessidades de saúde física, saúde emocional, amor e companheirismo
não são supridas adequadamente na sociedade pós-moderna. Por isso, as
pessoas buscam religiões que satisfaçam essas necessidades. Entretanto,
como somente Jesus Cristo pode satisfazer plenamente as necessidades
humanas – e transformar o nosso ser interior – a pessoa sedenta busca
resposta nas várias religiões que se apresentam no “mercado de bens
simbólicos” – dá uma passeadinha pelo caminho de São Tiago, toma um
chazinho do Santo Daime, vai pedir a bênção da Mãe Tereza, ou do Pai
João, entrega um dinheirinho na Universal, pega uma águinha benta na
Catedral ... A religiosidade pós-moderna não sabe o que é fidelidade, a
não ser a fidelidade ao interesse próprio, que pode ser chamada de
egoísmo. E até no meio evangélico já se começa a ver a penetração dessa
perambulação pós-moderna, com os crentes assistindo a todos os programas
de TV e rádio, ouvindo todos os CDs que consegue comprar, freqüentando
todas as reuniões de diferentes igrejas, etc. Onde houver uma oferta de
bênção, aí também o crente estará. A fidelidade a Deus começa em casa.
Para podermos dar testemunho aos peregrinos pós-modernos, precisamos
aprender a fidelidade, seguindo o exemplo de Jesus!
1.2. A pregação do Deus dinheiro e a vida sacrificial
A outra face da religiosidade pós-moderna não tem “cara” de religião.
Por isso mesmo, é muito mais perigosa, porque muitos não a reconhecem. A
religiosidade pós-moderna tem como seu grande “deus” o dinheiro – seja
na forma de Capital, seja na forma de lucro, seja na forma de desejo
dele – que cobra uma séria e rigorosa disciplina sacrificial de vida.
Para que as economias funcionem bem, os países exigem “sacrifícios” de
seus cidadãos (desemprego, apertar os cintos, corte de gastos com saúde,
educação, transporte, moradia; privatizações sem fim ...), e na
expectativa de ter dinheiro para poder consumir, as pessoas se submetem
ao estilo de vida sacrificial exigido pelo Mercado. Nesse estilo de vida
sacrificial, a compaixão e a solidariedade não têm lugar. É cada um por
si, e o “deus” dinheiro por todos. Só que o deus dinheiro e seu profeta,
o mercado, são deuses rigorosos que não conhecem a compaixão. Não
aceitam as pessoas que não conseguem competir e vencer. Eles as excluem
– do acesso à saúde, à moradia, à vida, à dignidade, e exigem total
fidelidade – mesmo excluídos, têm de aceitar a sua condição e reconhecer
o seu “pecado capital”. Quem não consegue “vencer” é sacrificado no
altar do lucro, da produtividade e da qualidade total. Lembremo-nos do
que ensinava Jesus: “ninguém pode servir a dois senhores ...” (Mt 6,24)
1.3. A fidelidade ao verdadeiro Deus e a Seu povo
O primeiro grande desafio missionário da pós-modernidade é o da
fidelidade ao Deus verdadeiro. Só pode fazer missão o povo que anda na
presença de Deus e procura fazer a sua vontade. Nas palavras de Jesus,
“buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). Somente
quando o povo de Deus se submete ao reinado de Deus e tem a Sua justiça
como critério de vida e missão, é que pode fazer frente ao caráter
peregrino e sacrificial da religiosidade pós-moderna. Neste tempo em que
as informações voam distâncias e tempo através dos satélites e
televisões, rádios, Internet ... Neste tempo em que temos um volume de
informações imenso, mas pouco sabemos realmente de importante, é
fundamental a fidelidade ao verdadeiro Deus. Doutra forma, nossa
mensagem cairá no vazio do excesso de informações. As pessoas só crerão
no Deus verdadeiro se virem a Sua verdade amorosa, justa e compassiva em
ação na vida dos filhos e filhas de Deus. Como diz uma canção brasileira
a respeito do culto: “E ao sairmos daqui, que poderemos fazer? Deixar
que o mundo veja em nós a Cristo e o Seu poder.” Para fazer missão na
pós-modernidade, é preciso que nossa vida seja missionária, que nosso
comportamento seja semelhante ao de Jesus Cristo, que recusou todas as
tentações satânicas, todas as tentações de dinheiro, prestígio, consumo
e poder, e foi fiel ao envio do Pai, e submisso à direção do Espírito
Santo. Como Jesus, precisamos conhecer a Palavra de Deus para vencer as
tentações (Mt 4,1-11).
2. O desafio do discernimento
2.1. A vida não refletida, apenas sentida ...
Uma das características fundamentais da chamada pós-modernidade é o
abandono da reflexão crítica racional. Reconhecendo a incapacidade da
razão resolver todos os problemas humanos, as pessoas que aderem ao novo
modo de ser pós-moderno preferem levar a vida a partir dos sentimentos e
desejos, e não da reflexão, ou, em linguagem bíblica, do discernimento.
Sentir é mais importante do que saber, e sentir-se bem é o que realmente
importa para o indivíduo pós-moderno. Essa ausência de reflexão é
conseqüência da negação das utopias (propostas de transformação social e
econômica) e da afirmação do “fim da história” (a crença de que o
estágio atual do capitalismo neo-liberal é a forma mais completa da
evolução humana). Se nada há adiante de nós, se já alcançamos a forma
mais evoluída possível de organização social, econômica e política, para
que refletir criticamente sobre a realidade? Basta viver, e curtir a
vida. Basta sentir e deixar-se levar pelos sentimentos. Para que pensar,
se os governantes irão fazer o que for necessário para a vida melhorar?
Para que pensar, se o mercado “livre” é capaz de organizar a atividade
das pessoas, distribuir oportunidades e castigos? Vamos aproveitar a
vida! Ou, nas palavras de um antigo filósofo, “comamos e bebamos porque
amanhã morreremos”! Precisamos de uma renovação de nossa vida litúrgica,
que está cedendo ao irracionalismo pós-moderno. Como conseqüência do
irracionalismo, na vida da igreja, nossos cultos têm cada vez menos
conteúdo e cada vez mais emoção. Cada vez menos Palavra de Deus, e cada
vez mais desejos e sonhos humanos. Cada vez procuramos menos agradar a
Deus, e mais a nós mesmos – afinal, “o culto não é para a gente se
sentir bem?” Liturgias irracionais não ajudam a Igreja a enfrentar a
pós-modernidade. A rejeição da razão não é a solução para os males da
racionalidade moderna, voltada inteiramente para a técnica e a eficácia.
Ao invés de vivermos levados pelos sentimentos, precisamos de uma
racionalidade ampla, humana, plena. Precisamos de uma “razão
comunicativa”, que, ao invés de se centrar na técnica e eficácia, tenha
seu eixo na relação pessoal e social com o “outro” (próximo, na
linguagem bíblica). Como cristãos, em particular, precisamos de uma
inteligência crítica, que nos torne capazes de “dar a razão da nossa
esperança a quem nos perguntar” (I Pedro 3,15).
2.2. A vida sem integridade, apenas com interesses e desejos
Uma vida vivida em função dos sentimentos, além de negar a capacidade
humana de crítica e pensamento construtivo, também nos torna fáceis
presas de nossos interesses e desejos pecaminosos. Vários são os
sintomas da crise da razão e do reinado do sentimentalismo. Por exemplo:
a desestruturação da vida familiar, em função de uma visão meramente
romântica do amor, mediante a qual “João ama Maria, que gosta de José,
que ama Antônia, que prefere Pedro, mas está triste porque ele ama José
...”. Outra causa da desestruturação familiar é o afastamento cada vez
maior entre pais e filhos, a falta de comunicação eficaz entre as
gerações dentro de casa, a tentativa de cada lado impor a sua vontade e
seus desejos. Além da desestruturação da vida familiar, outro exemplo da
crise da razão é o abandono da integridade como padrão ético de
comportamento. Tudo vale para a realização dos desejos pessoais – uma
mentirinha, um jeitinho, uma fezinha ... A palavra não precisa ser
cumprida, os compromissos não são levados a sério, os relacionamentos
pessoais servem apenas enquanto se “leva vantagem”; entre os
adolescentes e jovens a moda é “ficar”, pois quem “fica” não se
compromete com a outra pessoa. Não há integridade nos negócios, nas
relações pessoais, na política, no exercício do poder público. Neste
sentido, a pós-modernidade não é tão “pós” assim, pois a falta de
integridade é uma característica da pecaminosidade humana. Todavia, em
nossos dias, como nos tempos de Paulo, a ausência de integridade tem se
tornado o ponto mais crítico da ética individual e social (cp. Rm
1,28-33). O mais preocupante, porém, é a penetração da falta de
integridade nos meios evangélicos! Líderes internacionais de missões e
pastoral, como Frank Dietz e Warren Wiersbe têm escrito livros
defendendo a necessidade da volta da integridade à vida cristã,
particularmente entre os líderes do povo de Deus. Como poderá Deus nos
escutar se não vivemos de forma íntegra a Sua vontade? (cf. Amós
5,21a-24). Como anunciar o Deus da justiça sem integridade? Como crerão
se não virem em nós a verdade de Deus em ação?
2.3. A vida cheia do Espírito Santo, refletindo e crescendo no saber de
Deus
Contra o irracionalismo da pós-modernidade, a resposta bíblica é a vida
cheia do Espírito Santo. Em sua exortação aos efésios, Paulo disse:
“Sede verdadeiramente atentos a vosso modo de viver: não vos mostreis
insensatos (sem juízo, sem razão), sede, antes, pessoas sensatas, que
põem a render o tempo presente, pois os dias são maus. Não sejais
portanto sem juízo, mas compreendei bem qual é a vontade do Senhor ...
sede cheios do Espírito Santo” (Ef 5,15-18). A exortação paulina é muito
apropriada para os nossos dias. Precisamos de uma renovação da vida
intelectual da Igreja. Precisamos de que o povo de Deus assuma a sua
função de teólogos e teólogas! Pois é isso que Paulo está pedindo de
nós. Estar atentos a nosso modo de viver, sermos sensatos, significa
refletirmos sobre a nossa realidade à luz da Palavra de Deus, movidos
pelo Espírito. E a teologia é exatamente isso! Na modernidade, a
teologia era rejeitada em troca da “prática”, na pós-modernidade ela é
rejeitada em troca da “beleza”. Mas nós precisamos urgentemente dela. De
uma teologia prática, bela, racional e cheia do Espírito Santo.
Precisamos de uma teologia baseada no discernimento do Espírito, que nos
faça andar de modo digno do Senhor, que nos faça crescer no conhecimento
de Deus, que nos faça transbordar em boas obras missionárias (cf. Cl
1,9-11). Nossas igrejas precisam redescobrir o valor da reflexão séria e
profunda sobre a vida baseada na Palavra de Deus. Precisamos de pastores
que devolvam ao púlpito o seu vigor teológico, precisamos de mestres que
devolvam à educação cristã seu vigor pedagógico e reflexivo. Precisamos
de renovação de nossa vida eclesial, de nossos programas e encontros, de
forma que a reflexão ocupe um lugar tão importante quanto a comunhão, a
oração e a adoração a Deus. A renovação da vida dos “leigos” é
fundamental para que a Igreja possa realizar sua missão no mundo
pós-moderno. O primeiro grande desafio para o laicato pós-moderno é a
vida de discernimento. Precisamos de um povo cheio do Espírito Santo,
capaz de refletir sobre a vida sensatamente, capaz de interpretar a
Bíblia fielmente, capaz de anunciar a Palavra inteligentemente!
3. O desafio da compaixão
3.1. Vivendo em uma sociedade e economia sem compaixão
A sociedade capitalista neo-liberal pós-moderna é perversa e sem
compaixão. Nela só há lugar para as pessoas capazes e competentes, que
conseguem cumprir todas as exigências do mercado de trabalho e de
consumo. Cada vez mais as empresas exigem maior qualificação para seus
trabalhadores, e cada vez mais as máquinas substituem as pessoas no
desempenho de funções e realização de serviços – e com isso aumenta o
desemprego, a economia informal e a marginalidade. Todavia, o
capitalismo neo-liberal afirma que esse é o único caminho para a
prosperidade das nações! Decretando o “fim da história” o capitalismo
neo-liberal tomou o lugar do marxismo como a religião messiânica sem
Deus. Nas pertinentes palavras de um teólogo brasileiro, “não nos
esqueçamos que o sistema de mercado, para conseguir totalizar-se como
‘único caminho’ para o bem comum ... exigia ser considerado como
societas perfecta (sociedade perfeita) e ‘única religião verdadeira’,
fora da qual não há salvação para ninguém, ainda que a condenação lhes
tocasse a muitos. Para tanto era necessário um deus absconditus (deus
oculto) de uma infinitude realmente ‘perversa’, quer dizer, que virasse
tudo ao revés (per-verter) e direcionasse tido em uma mesma direção: a
autovalorização, sem limite, do Capital. Já não se trata, obviamente, da
simples acumulação de dinheiro e riquezas. Estamos diante de um deus
infinitamente insaciável, para o qual todos os sacrifícios serão
insuficientes.” (Hugo Assmann, Clamor do Pobres e ‘Racionalidade’
Econômica, pp. 44s.) A sociedade pós-moderna, dominada pelo “deus
Capital” gera um sistema social de exclusão, mediante o qual um número
cada vez maior de pessoas é excluído do mercado de trabalho, da
educação, da saúde, da dignidade, da própria vida! As pessoas excluídas
são os “bodes expiatórios” dos pecados da ineficiência econômica e da
falta de competitividade produtiva. Em primeiro lugar o bem-estar da
economia, depois, cuidemos das pessoas ... A chamada “globalização” da
economia traz consigo uma perversa globalização da miséria e do
sofrimento humano. Só tem valor aquilo que dá lucro, aquilo que aumenta
a produtividade e a qualidade, aquilo que é “total”. Nessa sociedade
“qualidade total” pouco lugar há para os seres humanos, que são
parciais, incompletos, pecadores. Recusados, ou elogiados, pelo “deus
escondido”, as pessoas cada vez mais se refugiam nas drogas, na
violência, nas religiões sem compromisso, no sexo sem amor, no
individualismo, no consumismo; ou simplesmente caem para o submundo da
miséria, da fome da marginalidade. É a todas essas pessoas que iremos
pregar o Evangelho, pessoas sacrificadas ao altar do Capital, submissas
ao mando do seu profeta, o Mercado. Pessoas sem compaixão, porque
acreditam que a competitividade é o melhor meio de eliminar a pobreza e
o sofrimento humano. Pessoas sem compaixão, porque são vítimas
sacrificiais de uma economia perversa, e se tornaram brutalizadas pelo
sofrimento. Neste contexto, o segundo grande desafio para a Igreja é a
vida de compaixão!
3.2. Compaixão e solidariedade na proclamação do Evangelho
Precisamos de compaixão e solidariedade para proclamar o Evangelho! Ao
olhar para as pessoas e para as multidões de seus dias, Jesus as via
como “ovelhas sem pastor” e demonstrava-lhes compaixão. A compaixão
(solidariedade) era o motor de suas ações a favor das pessoas (v. Mt
9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Mc 6,34; 8,2; Lc 7,13, etc.). Jesus
demonstrava, através de seus atos, a compaixão de Deus pelos seus filhos
e filhas escravizados ao pecado; demonstrava a solidariedade do Deus
encarnado para com a humanidade pecadora (cf. Hb 2,14-17; 4,15-16). Para
pregar o Evangelho não posso ver o “outro” como adversário – a batalha
espiritual não pode gerar inimigos, mas, sim, pessoas reconciliadas com
Deus e, conseqüentemente conosco e com elas mesmas – geramos, com a
pregação do Evangelho, amigos e amigas de Jesus Cristo (15,14-15). Para
pregarmos o Evangelho precisamos resistir à tendência desumanizadora e
brutalizante de nossa sociedade pós-moderna; precisamos resistir à
tentação de vivermos apenas em função de nós mesmos e de nossos
interesses e desejos. Precisamos de solidariedade, compaixão: sentir o
sofrimento do outro, como o nosso próprio sofrimento. Participar na
libertação do outro, como se a nossa própria libertação disso
dependesse. Se somos amigos e amigas de Cristo, fazemos o que Ele manda.
E o que Ele manda? “Eu vos escolhi para irdes produzir frutos e para que
o vosso fruto permaneça ... O que eu vos ordeno é que vos ameis uns aos
outros” (Jo 15,16-17). A Igreja existe para anunciar o Evangelho – essa
é a grande comissão de Jesus (Mt 28,18-20 e paralelos), e esse é o poder
do Espírito (At 1,8) – e se ela não o faz, deixa de ser povo de Deus, e
se identifica com o mundo; torna-se sal sem sabor, não prestando para
nada. O maior adversário da proclamação do Evangelho na pós-modernidade
não é Satanás, mas a falta de compaixão, a falta de solidariedade para
com os pecadores, a falta de amor uns para com os outros. O problema da
evangelização não está nas técnicas, nos projetos, nas estratégias, nos
recursos financeiros. Há muitas formas diferentes de se evangelizar e
fazer missões. O problema é que não temos recursos humanos. Não temos
crentes dispostos a viver compassiva e solidariamente, fazendo da
pregação do Evangelho uma parte natural de seu dia-a-dia. Deus chama a
Seu povo, nestes dias do mundo pós-moderno, para viver em compaixão e
solidariedade para com os pecadores e pecadoras de nosso tempo. Sejamos
solidários com os pobres e excluídos que clamam por socorro. A partir
dessa solidariedade, tenhamos compaixão de todas as pessoas. Anunciemos,
com toda força de nossos pulmões, o Evangelho de Jesus Cristo, a boa
notícia de que Deus reina e pode mudar a vida das pessoas e das nações!
3.3. Compaixão e solidariedade na diaconia cristã
Assim como Jesus fez acompanhar sua pregação de sinais visíveis do amor
de Deus pelos pecadores, também a Igreja compassiva, na pós-modernidade,
fará sua pregação da salvação ser acompanhada dos sinais do Reino. Quem
ama, é compassivo e solidário com a pessoa toda, não faz divisão entre
“alma” e “corpo”, pregando para salvar “a alma” e deixar o “corpo”
morrer. Jesus cuidava das doenças do corpo, das doenças espirituais, dos
problemas econômicos e sociais. Paulo, o evangelista aos gentios,
recebeu a recomendação de “nos lembrar dos pobres, o que eu tive muito
cuidado de fazer” (Gl 2,10). A diaconia cristã é a expressão concreta da
compaixão evangelizadora da Igreja. A diaconia é o meio pelo qual a
Igreja pratica as boas-obras para as quais cada cristão foi chamado por
Deus (Ef 2,10). Na pós-modernidade, precisamos discernir quais são as
boas-obras mais urgentes, ou quais as formas mais importantes de ação
diaconal. No âmbito da economia, por exemplo, a esmola já perdeu a sua
eficácia (que tinha em períodos muito antigos na história econômica da
humanidade). O socorro econômico através da esmola é insuficiente para
livrar os pobres da miséria. É preciso ações mais eficazes. Por exemplo:
projetos sociais de capacitação profissional, projetos sociais de
desenvolvimento comunitário; movimentos sociais de luta contra o
desemprego, contra a fome; movimentos políticos pela adoção de
mecanismos de defesa econômica dos cidadãos, garantidos pelo Estado –
por exemplo: renda mínima, salário educação, etc. No âmbito da saúde, é
preciso também atuar através de projetos de desenvolvimento
(ambulatórios, clínicas voluntárias, etc.), e de movimentos sociais e
políticos (campanhas contra certos tipos de câncer, instituições
especializadas no atendimento a certos tipos de doenças e deficiências,
etc.; movimentos políticos que visem forçar o Estado a cumprir as metas
de saúde pública mínimas para garantir a dignidade dos cidadãos). No
âmbito da cultura, é preciso que as Igrejas atuem no despertamento de
formas criativas de ação cultural – seja na música, no teatro, nas artes
plásticas, na literatura, etc. É importante atuar em movimentos que
visem o controle, pela sociedade, dos bens culturais produzidos e
difundidos pelos meios de comunicação de massa (TV, rádio, cinema,
etc.). Em uma palavra, é preciso que a Igreja atue de forma a contribuir
para que a cidadania seja uma verdade prática, e não apenas um direito
constitucional. Para que a mensagem do Reino pregada pela Igreja seja
entendida, é necessário que a Igreja demonstre os sinais do Reino
através de sua vida e da vida de seus membros. Na pós-modernidade, em
que a pessoa só é vista como consumidora, ou como produtora de bens,
precisamos ajudar a resgatar a condição cidadã das pessoas, com todas as
implicações sociais, econômicas e políticas da cidadania. Como cidadãos
do Reino de Deus, somos chamados a lutar para sermos cidadãos de um país
justo e livre e para demonstrar solidariedade plena para com os
não-cidadãos! Para isso o Espírito que ungiu Jesus, também pode nos
ungir (cf. Lc 4,18-21; 7,18-23)
Conclusão
A pós-modernidade apresenta à Igreja problemas e oportunidades imensos.
Para superar os problemas e aproveitar as oportunidades, precisamos do
discernimento do Espírito e da compaixão de Jesus. Por isso, o primeiro
desafio da missão da Igreja na pós-modernidade é a qualificação da
Igreja como povo de pessoas cheias do Espírito Santo, que sabem
discernir e ser solidárias. Como povo de ministros e ministras de Deus,
discernindo a vontade de Deus e sendo solidários com os pecadores,
atuaremos no mundo como testemunhas de Jesus Cristo. Nossa pregação e
nossas obras demonstrarão verdade e o caminho do Reino de Deus, e farão
com que as pessoas desejem servir a Cristo e não a Mamon!
Textos extraidos................
História de Missões Mundiais
INTRODUÇÃO
“... e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia
e Samaria e até aos confins da terra”. At 1.8b.
Segundos antes da ascensão do Senhor Jesus Cristo, os discípulos ali
reunidos ouviram de seus lábios a ordem de anunciá-lo até os limites da
terra. Contudo, quase 2000 anos passaram-se e essa tarefa é ainda
inacabada. Observamos nos últimos anos, o despertar de nossas igrejas
por Missões e grande procura de livros, que possam criar uma visão mais
bíblica e global do trabalho missionário transcultural. Excelentes
livros têm sido escritos sobre este tema, mas é muito difícil documentar
tudo, pois houve pessoas anônimas que foram usadas por Deus para serem
canal de benção que não temos nenhum dado.
Neste trabalho de pesquisa, falaremos sobre o avanço do cristianismo ao
redor do mundo e abordaremos também, a HISTÓRIA DAS MISSÕES.
Três religiões denominam-se desde o começo, missionária e universalista:
“Budismo”, “Cristianismo”, e o “Islamismo”.
O Budismo tem sido sempre uma religião oriental. Extinguindo-se na sua
terra de origem, a Índia. Difundiu-se à Norte, Sul, Leste e muito pouco
à Oeste.
O Islamismo, desde o princípio é a religião do deserto, destacando-se no
Oriente Médio, prolongando-se em todas as direções, de Marrocos à China
Ocidental, da Albânia à Indonésia e de uma forma eficaz na África
Tropical.
O Cristianismo foi à única religião que realmente conseguiu
transforma-se em universal. Contudo, isto não significa, que todas as
pessoas da terra se tenham tornado cristãs.
Embora saibamos essa verdade, temos de afirmar também, que não existe
nenhuma religião no mundo, que não haja vista partidários seus
converterem-se ao Cristianismo.
A igreja primitiva era do tipo genuinamente missionária. Havia os que
trabalhavam de tempo completo, como Paulo e Barnabé, destinados a
liderar a obra missionária._Paulo tinha seus auxiliares, aos que
ensinava e que por sua vez fundavam Igrejas. Ex. Epáfras em Colossos, Cl
1.7.
Em virtude da perseguição após a morte de Estevão, espalharam a pregação
pelo mundo, Atos 8.4. Mas, não eram estes os únicos missionários
voluntários. Quando Paulo chegou a Roma, foi recebido por crentes e não
sabemos como eles surgiram na cidade. Alguns dos cristãos eram escravos,
como sabemos pelas epístolas de Paulo, estes eram deslocados por toda à
parte, acompanhando as comitivas dos seus senhores. Outros eram
mercadores e viajavam em razão do interesse de seus negócios. Sabe-se
com certeza, que cada cristão era uma testemunha de Cristo. Onde
existisse um cristão, havia uma fé ardente, viva e em breve uma
comunidade cristã em expansão.
No segundo século, havia três centros importantes de vida cristã no
mediterrâneo:
Antioquia, Roma e Alexandria. Acerca da fundação da Igreja de Antioquia,
Lucas não menciona nenhum nome. A Igreja de Roma, provavelmente tenha
sido organizada por Pedro e Paulo. Em relação à Igreja de Alexandria,
alguém afirma ser o Evangelista Marcos, seu fundador. Porém até agora
existe qualquer prova histórica neste sentido.
Indiscutivelmente, Missões foi a maior glória da igreja dos primeiros
tempos. A igreja era o corpo de Cristo, habitado pelo Espírito Santo. E
aquilo que Cristo começou a fazer continuou, com o objetivo de ao longo
dos dias chegar aos recantos mais longínquos da terra.
AS DEZ ERAS DA HISTÓRIA REDENTIVA
Encontramos no livro de Gênesis em seus onze capítulos iniciais três
fatos, a saber:
1.1. Uma criação original, gloriosa e boa, Gn 1.31;
1.2. A entrada de um poder rebelde, maligno e sobre humano, Gn 3.1-13;
1.3. O envolvimento do homem nesta rebeldia e mantido sobre o poder
deste mal, Gn 6.1-7.
Porém, em todo o restante da Bíblia, até Apocalipse, deparamos com um
único drama: A entrada do reino, do poder e da glória de Deus dentro
deste território ocupado pelo inimigo. Neste trabalho redentivo de Deus
para a humanidade, vemos as dez eras, as quais chamamos de “As dez Eras
da História Redentiva”, trazendo consigo o seguinte tema: “A graça de
Deus que intervém na história a fim de derrotar o inimigo”.
Atentaremos rapidamente para o que ocorreu em cada uma das dez eras,
sabendo que todas somam um período de 4.000 anos.
a. Na 1a era: Abrão foi escolhido em Gn 12.1-3. O mesmo mandamento foi
dado à Isaque em Gn 26.1-5, à Jacó em Gn 28.10,15, e José tranqüilizou
seus irmãos dizendo: “ Vocês me venderam, mas Deus me enviou”, Gn 4.4
-8. Ele se tornou uma Bênção para o Egito.
Até mesmo faraó reconheceu, que José estava cheio do Espírito Santo, Gn
41.38. Porém, esta não foi à obediência missionária intencional que Deus
desejava.
b. Na 2a era, dá-se o cativeiro, 70 anos Israel é escravizado pelo rei
da babilônia, Nabucodonozor, Jr 25.9-11; 29.1,4,10; 2Cr 36.18-21; Ed
5.12.
c. Na 3a era, Deus começa a usar os Juizes para lutar em favor do povo,
Jz 1.16;
d. Na 4a era, Deus começa a contar com reis em Israel, 1Sm 8; 2Cr 36;
e. Na 5a era, dá-se o segundo cativeiro e a diáspora;
f. Na 6a era, Roma foi conquistada, mas não estendeu o evangelho aos
povos bárbaros, celtas e godos. Quase por castigo, Roma foi invadida
pelos godos e toda parte ocidental do império foi desmoronada.
g. Na 7a era, os godos foram evangelizados, mas não levaram o evangelho
mais ao Norte;
h. Na 8a era, novamente quase por castigo os vikings invadiram a região
dos celtas e godos cristãos e os vikings se tornaram cristãos em meio a
esse processo.
i. Na 9a era, a Europa, pela primeira vez mudou na fé cristã, se lançou
a um exercício de pseudomissão aos serracenos e se dirigiu ao oriente
mais distante como conseqüência do grande fracasso das cruzadas.
Na 10a era, a Europa atingiu então aos confins da terra, mas com
motivações muito confusas.
“Deus realiza sua vontade através da obediência voluntária de seu povo,
mas quando necessário realiza o seu querer através de meios
involuntários”.
José, Jonas, Ezequiel, Gideão, são exemplos da obra missionária
involuntária na Igreja no Antigo Testamento.
Notamos em cada era, Deus preocupado em levar avante sua missão, com ou
sem interesse da sua Igreja. A nação escolhida por Deus para receber e
mediar bênção, Ex 19.3-8; Dt 28.8-14; Sl 67.1,2; 96.1-3; Is 49.6, se
afastaram bastante desse ideal. Havia em Jerusalém muitos estudantes
fanáticos da Bíblia, contudo o objetivo principal de cada um era muito
mais sustentar e proteger a nação de Israel do que ser uma bênção para
as demais nações. Elas não se preocupavam com que seus convertidos
fossem circuncidados no coração, Jr 9.24-26; Rm 2.28,29.
“Os que são abençoados não parecem muito ansiosos em compartilhar as
bênçãos recebidas, porém, se insistirmos em guardar para nós as bênçãos
ao invés de compartilhá-las, então, da mesma maneira que Deus agiu com
as nações negligentes, teremos que perder nossas bênçãos para os outros.
Deus continua no propósito de usar sua igreja para alcançar o mundo. O
reino não poderá parar por nossa causa” - Mt 24.14.
PERÍODO DA HISTÓRIA MISSIONÁRIA
Os evangélicos têm refletido bastante sobre tendências na história e
sobre o relacionamento deles com acontecimentos vindouros. Notamos que
as pessoas estão abertas a uma maneira de encarar a vida, a de viver do
tipo, “p ara onde vamos”. Todavia, os cristãos ainda fazem pouquíssima
ligação entre o debate sobre profecias e eventos futuros e o debate
sobre missões. Eles vêem a Bíblia como um livro de profecias, tanto em
relação ao passado como ao futuro.“ A Bíblia toda é um livro
missionário... o ponto central do enredo e que une todas as partes é a
execução de um propósito missionário que é gradual e vai se revelando
aos poucos”.
Todos precisamos entender, que a História das Missões, começa bem antes
da grande comissão, mais uma vez lembramos, que Deus falou a Abrão em Gn
12.1-3, que iria abençoa-lo e que seria uma bênção para todas as
famílias da terra. O apóstolo Pedro citou essa passagem no dia em que
falou no templo, At 3.25. Paulo repetiu-a em sua carta aos Gálatas Gl
3.8.
No entanto alguns comentaristas da Bíblia interpretam que somente a
primeira parte do versículo poderia Ter começado imediatamente.
Concordamos que Abrão ia rapidamente ser abençoado por Deus e somente
depois de 2000 anos poderia se tornar uma bênção para todas as famílias
da terra. Pensam eles, que Cristo precisava primeiramente vir e entregar
a Grande Comissão. Precisamos sempre lembrar, que o mandamento
missionário foi dado para Israel e a nós, Gn 12.1-3; Mt 29.19-20.
Muitos que já receberam em sua vida a bênção da salvação em Cristo Jesus
de um modo especial podem escolher resistir e tentar abafar qualquer
idéia de obrigação ser uma bênção a outros. Mas, essa não é à vontade de
Deus: “Aquele a quem muito for dado, muito se lhe pedirá”, Lc 12.48.
Esse mandato tem sido ignorado a maior parte do tempo desde os
apóstolos.
Mesmo nossa tradição protestante reprimiu essa ordem durante mais de 250
anos, preocupando-se só com si mesma e com as bênçãos que ia receber,
até um jovem de grande_fé e capacidade de suportar as provações surgiu
no cenário, William Carey.
2.1. Primeiro Período
Um homem sapateiro inglês, chamado “O Pai das Missões Modernas” nasceu
em 1761, na cidade de Paulerspury, perto de Northampton, Inglaterra.
Teve uma infância rotineira, não podendo tornar-se jardineiro devido
problemas persistentes de alergias.
Aprendeu a profissão de sapateiro aos 16 anos e trabalhou nela até aos
28. Converteu-se na adolescência, associando-se a um grupo de
Dissidentes Batista, dedicando seus momentos de folga ao estudo bíblico.
Em 1781, quando estava para completar 20 anos, casou-se com a cunhada de
seu patrão, Dorothy, a qual era cinco anos mais velha que ele. Apesar
das dificuldades econômicas William Carey, não desistiu de seus estudos
e da pregação leiga, em 1785 foi convidado a pastorear uma Igreja
Batista. Durante o seu pastorado foi despertado para missões e
desenvolveu uma perspectiva bíblica sobre o assunto, convencendo-se de
que missões estrangeiras eram a responsabilidade principal da Igreja.
Quando muitos na época criam, que a Grande Comissão fora dada somente
aos apóstolos e a conversão dos pagãos não era problemas deles. Porém as
idéias de Carey eram revolucionárias e quando as apresentou a um grupo
de ministros, alguém replicou:
“ Jovem sente-se. Quando Deus quiser converter os pagãos Ele o fará sem
a sua ajuda ou a minha”.
Porém, Carey recusou-se calar, publicando um livro de 87 páginas que
teve conseqüências de longo alcance, intitulado: “Uma inquisição sobre a
responsabilidade dos cristãos em usarem meios de conversão dos pagãos”.
Com muita insistência, os ministros decidiram fundar uma junta de
missões, a qual recebeu o nome de: “ Sociedade Batista Missionária” e
por esta junta William Carey, foi comissionado à Índia, sendo por causa
disto chamado de louco por seu próprio pai e observando a recusa de sua
esposa em partir com ele.
Todavia, ele estava disposto a partir mesmo sozinho, como o fez.
Entristecido viajou deixando esposa e filhos, tendo depois a alegria de
vê-los novamente porque a sua família foi a seu encontro e juntos
chegaram à Índia em 19 de Novembro. Na cidade de Serampore, Índia, Carey
passou os anos restantes da sua vida. Morreu em 1834, mas deixou ali a
sua marca e nas missões de todos os tempos. Carey deixou após si, um
luminoso roteiro cheio de exemplos dignos de serem imitados por todos os
que aspiram andar no caminho do Senhor.
Frases como esta marcaram sua vida:
“ Apesar de tudo, Deus está comigo. Sua palavra é a verdade segura e
ainda que as superstições do paganismo fossem mil vezes piores do que
são; ainda que fosse abandonado pelos meus e perseguido por todos, minha
esperança, fundada na palavra de Deus, permaneceria sobre todos os
obstáculos e triunfaria de todas as provas. A causa de Deus triunfará e
eu sairei destas angústias qual ouro purificado ao fogo”.
Com o embarque de Carey para a Índia, o 1o período das missões
protestantes teve um bom início, pois durante os seus 25 anos de
trabalhos iniciais fundou-se 12 agências missionárias. A idéia de que
deveríamos nos organizar a fim de enviarmos missionários não foi
facilmente recebida, mas finalmente se tornou o padrão aceito. Por sua
influência, Carey levou muitas mulheres para orarem por missões, uma
tendência que fez com que elas se tornassem as principais guardiãs do
conhecimento e da motivação missionária. Depois de alguns anos elas
começaram a ir para o campo como missionárias solteiras.
Há dois destaques a serem observados nesse 1o período da história
missionária. Um é a surpreendente demonstração de amor e sacrifício por
parte daqueles que partiram como missionários. Outro é o desenvolvimento
de uma reflexão perspicaz, de grande valor, acerca da estratégia
missionária.
Henry Venn, em relação à estrutura do campo missionário, diz:
“Do ponto de vista do resultado eclesiástico e considerando o objetivo
final de uma missão como sendo o estabelecimento de uma igreja nativa,
pastoreado por pastores nativos e da posição que irão ocupar, deve-se
também Ter em mente que, conforme já foi dito de modo muito apropriado,
a (eutanásia de uma missão), ocorre quando um missionário, cercado de
igrejas nativas bem treinadas, dirigidas por pastores nativos, é capaz
de renunciar a todo trabalho pastoral que está em suas mãos e
gradualmente transferir todo o seu trabalho de supervisão aos próprios
pastores até que imperceptivelmente o seu trabalho deixe de existir,
quando então, a missão passa a ser uma igreja cristã estabelecida. A
partir desse momento o missionário deve ser transferido para outras
regiões ainda não alcançadas”.
2.2. Segundo Período
A exemplo de Carey um outro homem destaca-se neste segundo período da
história missionária, Hudson Taylor. Tornou-se famoso de repente.
Recebeu quase que só críticas negativas, porém, refletiu longamente
debruçado sobre estatística, quadros e mapas. Quando sugeriu que os
povos do interior da China precisavam ser alcançados, disseram que ele
não conseguiria chegar lá e indagaram-lhe se gostaria de carregar nas
suas costas o sangue dos jovens que ele desejava enviar para morrer. Com
apenas um conhecimento de medicina de nível técnico, sem qualquer
experiência ou conhecimento universitário, sem treinamento missiológico,
foi apenas uma das coisas frágeis que Deus usa para confundir os sábios.
Hudson tinha por detrás de si um sopro divino.
O Espírito Santo o_poupou de perigos inesperados e foi sua organização,
a Missão ao Interior da China, a organização mais cooperativa e serviçal
que já apareceu, atendendo mais de 6.000 missionários, no interior da
China. Este 2o período ficou marcado pela evangelização de áreas no
interior. A missão para o interior da China surgiu na mente e no coração
de um homem que sentia uma profunda responsabilidade pelos milhões de
chineses, que jamais tinham ouvido falar do evangelho.
Uma das frases de Hudson Taylor: “Deus fez de mim um novo homem”.
A grande lição neste segundo período dada por Taylor estava sendo
obedecida. Com isso os missionários alcançaram um recorde incrível. Eles
implantaram Igrejas em milhares de novos lugares, principalmente em
regiões do interior.
2.3. Terceiro Período
Este período teve início com dois jovens: Cameron Townsend e Donald
McGavran.
Cameron estava com tanta pressa para ir ao campo missionário, que não se
preocupou em terminar a faculdade. Trabalhando na Guatemala, observou
que a maioria dos guatemaltecos não falava o espanhol e ficou
tremendamente desafiado, quando um índio daquele país perguntou-lhe: “
Se o seu Deus é tão inteligente e capaz, porque Ele não pode falar em
nossa língua?”. Neste terceiro período Cameron dedicou -se às tribos
indígenas e surgiu então mais uma agência missionária conhecida como:
“MISSÕES NOVAS TRIBOS”.
O tio Cam, como era conhecido e chamado por seus amigos, empenhou-se no
trabalho de tradução da Bíblia para muitas tribos. Em dez anos de
trabalho árduo completou o N.T. CAKCHIQUEL.
Um grupo de mulheres recebidas por Cam, trabalhou entre os shapras, uma
das tribos de caçadores de cabeças mais temidas da selva peruana,
comandada pelo infame chefe Tariri, que obtivera essa posição
assassinando seu predecessor. Porém, com a disposição e coragem das
missionárias, Tariri começou a ajudá-las como informante a respeito da
língua e após pouco anos afastou-se da feitiçaria e do homicídio para
tornar-se cristão, estabelecendo um exemplo que muitos de sua tribo o
seguiram. Mais tarde Tariri confidenciou a Cam: “ Se você tivesse
mandado homens, nós os mataríamos imediatamente. Se fosse um casal, eu
mataria o homem e ficaria com a mulher. Mas, o que poderia um grande
chefe fazer com duas moças inocentes que insistia em chamá-lo de
irmão?”. _
Houve uma filosofia que motivou Cam, mais do que qualquer outra durante
toda a sua vida:
“ O maior missionário é a Bíblia na língua pátria. Ela jamais precisa de
férias e nunca será considerada estrangeira”.
Este período caracterizou-se pela categoria mais difícil de se definir,
de natureza não geográfica, que temos chamado de “povos ocultos”, a
saber, grupos de pessoas que estão socialmente isoladas. Por mais de 40
anos Cameron e Donald McGavran chamaram a atenção para os povos
esquecidos.
HISTÓRIA DAS MISSÕES ROMANAS
A CONQUISTA DO MUNDO ROMANO (100-500)
O mundo a que se chegaram os primeiros cristãos era favorável em muitos
aspectos à pregação do Evangelho. Apesar do Império Romano impor uma
disciplina, a paz nunca foi total. Havia sempre ameaça nas fronteiras;
revoltas nas províncias; a luta pela queda deste ou daquele imperador
ameaçava sempre a organização.
A igreja no princípio falava o aramaico, idioma corrente na Palestina.
No decurso do tempo verificou-se ser necessário empregar várias línguas
para expressão da sua fé. O Império Romano aceitara o grego, para todos
os fins. Quem soubesse o grego poderia comunicar-se com facilidade, por
isso, a Igreja se envolveu com este idioma.
Na época 7% da população nas regiões do Império eram constituídas de
judeus que apesar da sua falta de amizade e secura, atraiam muitos para
a fé judaica. Como os gregos viviam à procura do saber, encontrou na
sinagoga uma sabedora profunda e dinâmica, aparentemente mais antiga que
a de Homero.
Se não existisse o Livro de Atos dos Apóstolos, nada saberíamos do
início da Igreja, exceto o que nos revela as Epístolas. Mas, o Espírito
Santo fez com que Lucas escrevesse essa obra, o qual destaca Paulo como
seu missionário predileto e com muita razão. Este foi o maior e
provavelmente o mais sistemático de todos os missionários. Trabalhou
rapidamente entre os gentios, mesmo nos pontos mais remotos do mundo.
Roma não era seu objetivo. O missionário desejava apenas conhecer os
cristãos romanos e ir para Espanha, Rm 15.23-28. O Império Romano era um
mundo de cidades, estas dominavam o pensamento e a vida econômica da
região que a rodeava. Os judeus encontravam-se fortemente fortalecidos
nas províncias orientais do Império. Roma se tornou no 3o., grande
centro do mundo cristão, depois de Jerusalém e Antioquia.
Seu crescimento se deu principalmente devido ao heroísmo dos crentes dos
dias da perseguição de Nero, em 64-65 AD. Nesta época, 64 AD., como
muitos dos destemidos evangelistas cristãos que o seguiram, Paulo teve
um fim violento. Segundo a tradição ele foi martirizado juntamente com
Pedro. Porém, até no exemplo que demonstrou na morte, Paulo inspirou a
futura geração à não considerar suas vidas preciosas para si mesmos,
pois, se sofressem também reinariam com Cristo, 2Tm 2.11-13; 4.6,7.
Nero, imperador romano e um dos maiores perseguidores da Igreja
alcançaram uma evidência nunca excedida em tudo que é abominável à
natureza humana. À noite freqüentava disfarçados todos os lugares de
libertinagem que havia em Roma, representava publicamente nos teatros em
estado de nudez, praticava as maiores obscenidades que são possíveis
conhecer e impossíveis descrever. Mandou incendiar diversos bairros de
Roma. Tocando em uma lira e cantando em seu palácio, regozijou-se com o
terrível espetáculo, a destruição de Tróia. Para concluir sua
selvageria, tendo falhado no plano para afogar sua própria mãe mandou
assassina-la. Este foi apenas um dos principais imperadores de Roma.
Porém, verdadeiros homens de Deus surgiram nessa época sem preocupação
com tais perseguidores:
3.1. POLICARPO
Um dos primeiros mártires e amado bispo de Esmirna. Em 156 AD., as
autoridades civis o encontraram escondido em um paleiro, com 86 anos de
idade o prenderam e convidaram-no a negar sua fé, que seria uma grande
vitória para o paganismo e um golpe para a “seita de Jesus”.
O bispo teria de dizer: “César é senhor, oferecer incenso e jurar pela
divindade do imperador. Mas decidido, Policarpo olha e acena para a
multidão no estádio, suspira, levanta os olhos pra o céu e gritou:” fora
os ímpios “, durante 86 anos, sirvo a Jesus e ele jamais me fez algum
mal”. Sendo ameaçado com fogo, o bispo diz “O fogo com o qual me ameaçam
queimar, logo se extingue; existe um fogo que vocês não conhecem, o fogo
do juízo vindouro e do castigo eterno, este está reservado para os
‘’ímpios”. Enfurecido o procônsul, mandou ascender à fogueira e uma
grande chama envolveu o corpo desse fiel cristão.
3.2. JUSTINO E PERPÉTUA
Ainda jovem Justino tornou-se um dos mais hábeis defensores da fé.
Perpétua com 22 anos mãe de uma criança pequena, também estava seguindo
a fé, quando o imperador VII Severo em 202 AD., decretou a morte desses
cristãos, que levados à arena foram executados sem misericórdia. Antes
de Perpétua morrer, gritou a alguns amigos cristãos que sofriam torturas
ao seu lado: “Transmitam a Palavra à todos, fiquem firmes na fé, amem-se
uns aos outros e não permitam que nossas mortes sejam um impedimento
para vocês”.
3.3. ULFILA
Um dos maiores missionários estrangeiros. Após 40 anos de trabalho junto
aos godos e até traduzindo a Bíblia na língua nativa desse povo, Ulfilas
morreu numa missão à Constantinopla.
Mesmo diante dessas perseguições o cristianismo crescia
assustadoramente. Cada missionário morto era um desafio para os novos
seguidores da fé em Cristo.
Nos primeiros três séculos da nossa era, ouve um rápido progresso
missionário.
Na Palestina, a destruição de Jerusalém não provocou o fim da Igreja
Cristã.
Terminou sim, com a existência nacional dos judeus, durante um período
de mais de 1.800 anos.
Antioquia na Síria era o segundo lar da Igreja. Foi lá que os discípulos
pela primeira vez foram chamados cristãos, Atos 11.26. A Igreja de Roma
crescia graças às conversões e também em virtude da convergência, nesta
cidade, de cristãos de muitas outras terras. Roma era um pólo de atração
para todos o povos. Acerca do rápido crescimento da Igreja.
Temos duas informações importantes: a) Por volta do ano 166 AD. o bispo
Soter observa que o número de cristãos ultrapassa o dos judeus e b) a
partir do ano 251 temos estatísticas precisas desse período.
Três fatores humanos permitiram a difusão das Escrituras:
1) A fervorosa convicção que possuíam muitos dos primeiros cristãos. O
historiador Eusébio diz: “Nessa época, muitos cristão s sentiram as
almas inspiradas pela Palavra Divina, com um desejo apaixonado de
perfeição. A primeira ação em obediência às instruções do Salvador,
constituiu em vender seus bens e distribuí-los aos pobres. Então,
deixando as suas casas, dedicaram-se a realizar a missão do evangelista,
tendo por ambição pregar a Palavra da Fé àqueles que ainda nada tinham
ouvido a seu respeito e confiaram-lhe a responsabilidade de elevarem
mais aqueles que haviam trazido tão somente a fé. Passaram então a
outros países e nações, com a graça e o auxílio de Deus”.
2) Os filósofos desde Platão, não haviam conseguido mais do que dar
respostas incertas às perguntas mais angustiantes dos homens.
3) As novas comunidades cristãs recomendavam a si mesmas pela evidente
pureza de suas vidas. Os primeiros cristãos eram homens e mulheres, como
nós, vivendo no meio de uma sociedade corrompida e exposta a todas as
tentações. 1 Coríntios nos mostra como era difícil viver segundo as
novas aspirações. Mas, eram ensinados a considerar os seus corpos como
tempo do Espírito Santo.
A IDADE MÉDIA
Em meados do século III o império romano começou a ser perturbado
gravemente pelos povos do norte e encontrar grandes dificuldades no
trabalho de difundir-se. A pressão contra esse velho império durou até
quase a sua destruição. Em 410 AD., Alarico, o Godo, capturou e saqueou
Roma. Alguns dos invasores tornaram-se cristãos. Após o fracasso do
império, muitos homens começaram a se empenhar no assunto das missões
cristãs. Entre eles destacam-se: Gregório, “O Grande” 540 -640, um dos
mais capazes e influentes bispos de Roma, na Idade Média. Nessa mesma
época outros monges, também serviram à causa missionária como, por
exemplo, Bonifácio, apóstolo para Alemanha 700-753, morto por um bando
de pagãos armados, na Holanda.
4.1. ANSKAR
Conhecido como “Apóstolo do Norte”, ele era um ascético de coração,
considerado a oração de máxima importância. Como acontecia com a maioria
dos líderes religiosos da idade média, foram-lhe atribuídos grandes
milagres, mas ele procurava evitar louvores desse tipo, dizendo que: “O
maior milagre de sua vida seria que Deus fizesse dele um homem
completamente piedoso”. Anskar morreu pacificamente em 865, sem a coroa
de mártir pela qual ansiava tanto. Depois de sua morte o povo voltou ao
paganismo e somente após o século X a Igreja católica firmou-se
novamente na Suécia.
4.2. RAIMOND LULL
Nasceu, em 1232 na cidade de Maiorca, junto as costa da Espanha, no
Mediterrâneo.
Aos 30 anos passou por uma profunda experiência religiosa, “nasceu de
novo”. Em uma noite, quando estava compondo uma canção, “ viu o Salvador
pendurado na cruz e o sangue correndo em suas mãos, pés e fronte”. Uma
semana depois, teve a mesma visão e desta vez se entregou a Cristo.
Porém, com dúvidas no coração ele pergunta: “Como posso, corrompido pela
impureza, levantar-me e entrar numa vida mais santa?”
Este sentimento de culpa impeliu Lull a abandonar sua riqueza e
prestígio e dedicar sua vida à serviço de Deus, aplicando-a ao jejum,
oração e meditação. Seu trabalho era lutar contra o Islamismo,
evangelizando muçulmanos e em 1314, com mais de 80 anos na Tunísia
passou mais 10 anos escondido e orando com seu grupo de novos
convertidos. Finalmente, cansado do esconderijo e desejando morrer a
serviço do mestre, pois, o martírio seria para ele o mais alto
privilégio, ele foi até a praça e apresentou-se ao povo, falando
claramente toda a verdade. Enfurecida com ousadia a população o arrastou
para fora da cidade apedrejando-o e morreu logo depois. Apesar de ser
ignorando pela Igreja católico e condenado como herege Lull manteve-se
fiel a seu chamado, sempre consciente de seu dever pessoal em difundir a
mensagem de Cristo.
4.3. LAS CASAS
No final do século XV, a Igreja Católica Romana iniciou um novo período
de missões estrangeiras. O Novo Mundo foi visto como um campo propício
para a expansão do cristianismo. Os papas e líderes políticos estavam
ansiosos para estender o domínio católico a estas terras. A rainha
Isabel considerava a evangelização dos índios como a justificativa mais
importante para a expansão colonial, pelo que insistia em que sacerdotes
e frades estivessem entre os primeiros a estabelecer-se no Novo Mundo.
Os franciscanos e os dominicanos e mais tarde os jesuítas aceitaram o
desafio. Dentro de algumas décadas o catolicismo tornou-se uma força
permanente e de influência. O cristianismo se firmou com extrema
rapidez.
Os maiores obstáculos às missões no Novo Mundo eram criados pelos
próprios colonizadores, com seu tratamento cruel e desumano para com os
nativos. Mesmo após o decreto da rainha Isabel em que consistia em
resguardar a liberdade e a integridade dos índios, este continuavam a
sofrer todo o tipo de desumanidade por parte dos colonos, que se
utilizavam meios para oprimir e escravizar. Os missionários observaram
este tipo de tratamento e muitos passaram a desafiar a ira dos
colonizadores, no intuito de amenizar as dores dos índios. Dentre estes
missionários o que mais se destacou foi Bartolomeu de Las
Casas, que embora tenha demorado a reconhecer e admitir este problema,
tornou-se o maior defensor dos índios durante o período colonial
espanhol.
Las Casas nasceu na Espanha em 1474, e era filho de um mercador que
viajara com Colombo em sua segunda viagem. Depois de licenciar-se em
Leis na Universidade de Salamanca, viajou para a ilha de Espanhola para
servir como Conselheiro legal do Governador. Adaptou-se rapidamente ao
estilo de vida influente dos colonizadores, aceitando o ponto de vista
convencional quanto à população indígena, tendo participado inclusive de
ataques contra as tribos e escravizado-os em suas plantações.
Provavelmente em torno de 1510, Las Casas sofreu uma transformação
espiritual tal, que pediu para ser ordenado, tornando-se então no
primeiro sacerdote a ser ordenado na América. Se interiormente ele havia
mudado muito, exteriormente mudou muito pouco até então, porque aceitava
com facilidade o estilo de vida que caracterizava a maioria do clero.
Aos poucos foi entendendo que o tratamento dado aos índios não
correspondia aos preceitos cristãos e em 1514 por ocasião do
Pentecostes, teve finalmente uma verdadeira conversão com relação ao
tratamento que afligia os indígenas, porque deduziu que a fé cristã era
radicalmente incompatível com o modo desumano pelo qual os espanhóis
tratavam os índios.
A partir desta concepção juntou-se aos dominicanos, onde encontrou apoio
para o seu ponto de vista.
Embora Las Casas seja considerado o pai da Teologia da Libertação, o
primeiro clamor pela justiça no Novo Mundo foi levantado em 1511, pelo
frade dominicano Antonio de Montesinos na Ilha Espanhola. Este clamor
causou muita polêmica, motivo pelo qual mais tarde Las Casas tomou
partido em sua defesa.
Em 1515, Las Casas retornou à Espanha em companhia de Montesinos, onde
conseguiu apoio do Cardeal Cisneros que o enviou de regresso às Índias
com uma comissão para investigar o tratamento dispensado aos índios,
contudo a má opinião de parte dos membros contrária aos indígenas e suas
atitudes protetoras para com os encomendadores, levaram Las Casas a
romper com a comissão e regressar novamente à Espanha.
Para defender os índios no Novo Mundo, Las Casas viajou várias vezes a
Espanha, apelando em favor dos índios aos oficiais do governo e a todos
que quisessem ouvir.
Ele tinha o evangelismo como prioridade e com este propósito viajou pela
América Central fazendo um trabalho pioneiro.
Las Casas foi enviado pelas autoridades espanholas a evangelizar em
Cumaná, como forma de comprovar se realmente ele era capaz de colocar em
prática suas afirmações de que os índios eram de boa índole e que se
convertessem ao verdadeiro Deus seriam os povos mais abençoados da
terra. Contudo Las Casas fracassou porque os colonizadores fizeram todo
o possível para criar obstáculos e todo o tipo de violência.
Posteriormente os próprios índios se rebelaram o que obrigou Las Casas a
se refugiar entre os dominicanos em Espanhola. Unindo-se à ordem de
Santo Domingo, passou vários anos escrevendo obras literárias.
Após doze anos em São Domingos, Las Casas partiu com destino ao Peru,
mas em decorrência de mau tempo, desembarcou na Nicarágua. Os
colonizadores dessa região eagiram violentamente a suas idéias o que fez
com que fugisse para a Guatemala, onde passou a aplicar suas idéias de
que o evangelho era para ser pregado pacificamente, contudo os índios
que já conheciam o tratamento dos espanhóis não demonstraram interesse
de ouvi-lo.
Neste ínterim Las Casas escreveu uma obra chamada “O Único Modo de
Chamar Todos os Povos a Fé”. Daí partiu para o México onde foi nomeado
bispo de Chiapas, on de demonstrou inflexibilidade para com os
encomendadores, como fez constar de seu “Confessionário”, realizou
trabalho missionário e mais uma vez retornou à Espanha em face das
pressões dos colonizadores renunciando à sua diocese.
Na Espanha, Las Casas publicou uma obra chamada “Brevíssimo Relatório da
Destruição das Índias”, que causou grande controvérsia em decorrência da
polêmica em torno dos números por ele apontados que dava margem à
dúvida. Em função deste relatório, Carlos V fez promulgar as Leis Novas,
que limitavam os direitos dos espanhóis sobre os índios. Este fato
causou muita revolta na América, principalmente no Peru aonde chegou a
haver uma rebelião armada. Logo, logo, estas Novas Leis caíram
rapidamente no esquecimento, prevalecendo o abuso e a exploração.
Em 1547, Las Casas com 73 anos de idade, partiu do Novo Mundo para não
mais voltar. Sua luta pelos direitos humanos continuou viva na Espanha
até sua morte que se verificou cerca de duas décadas após seu retorno.
Na Espanha corrigiu e publicou seus escritos, em que se opunha à
política colonial Espanhola.
Em 1566 morreu Las Casas aos 92 anos de idade e até hoje seu nome é
lembrado como um dos maiores humanistas e missionários da história do
cristianismo. Contudo suas idéias foram contestadas tanto no Peru em
1552 quanto na Espanha. Alguns anos mais tarde e no meado do século
seguinte a Inquisição proibiu a leitura de suas obras. Os inimigos de
Lãs Casas se alegravam ao verem fracassar os seus métodos pacíficos de
tratar com os indígenas, porque dizia que “os habitantes originais das
terras eram gente afável e generosa, que facilmente seria ganha mediante
um bom exemplo e amor”.
MISSÕES MORÁVIAS
Surge entre o século XVIII, um grupo na Dinamarca-Halle e logo se tornou
uma das maiores Igrejas missionárias de todos os tempos, “Os irmãos
Morávios”, liderado pelo Conde Zinzendorf. Este abriu o caminho para a
grande era das missões modernas levando a sério a grande comissão. Neste
século os Morávios fundaram postos missionários nas Ilhas Virgens, em
1736, América do Norte em 1734, Lapônia e América do sul em 1735, África
do sul em 1736 e Labrador em 1771. Nota-se que seu objetivo supremo era
espalhar o Evangelho até aos Confins da Terra. Todos os missionários das
Missões Morávias tinham de levantar seus próprios sustentos, levando a
profissão de artesão ao viajarem para o exterior.
Os morávios eram remanescentes da obra de João Hus. Os poucos que
ficaram após as perseguições, encontraram asilo junto ao conde de
Zinzendorf, na Saxônia, onde fundou, em 1722, uma aldeia denominada
Herrnhut (“a cabana do Senhor”).
AVIVAMENTO MORÁVIO
No ano 1727, irrompeu o conhecido avivamento morávio. Por mais que
queiramos, não dá para copiar despertamentos espirituais, mas felizmente
podemos aprender deles.
Zinzendorf
Neste ano 2000, se completam três séculos que o conde Nicolas Ludwig von
Zinzendorf nasceu. A família, luterana muito crente, morava no reinado
de Saxônia, em um castelo a poucos quilômetros da fronteira tcheca. Seu
pai, que era secretário de Estado em Dresden, morreu depois de consagrar
seu filho de 6 semanas para a obra do Senhor. Quatro anos mais tarde,
sua mãe casou-se de novo e o menino foi educado por sua avó e uma tia.
Ambas apoiavam o movimento pietista, que procurava reavivar a igreja por
pequenas reuniões de estudos bíblicos e oração, como “igrejinhas na
igreja” ( ecclesiolae in ecclesia). O líder era o Dr. Spener, que às
vezes visitava a família. O menino amava o Senhor, orava muito e sempre
lia a Bíblia e o Catecismo de Lutero. Depois de estudar em famosa escola
em Halle, aos 15 anos, seguiu para a Universidade de Wittenberg a fim de
preparar-se para o serviço governamental, estudando direito e teologia.
Concluídos os estudos, fez uma viagem aristocrata através da Alemanha,
Holanda, Bélgica e França. Em Düsseldorf, viram uma pintura de Cristo,
coroado de espinhos, com as palavras: “Tudo isto fiz por ti. Que fazes
tu por mim?”, que reforçaram sua decisão de viver para Cristo. De volta
ao lar, casou-se com a condessa Erdmuth von Reuss, que se tornou a “Mãe
Adotiva da Igreja dos Irmãos (morávios)”. Então, aos 22 anos, iniciou
seu ofício como conselheiro real em Dresden. Nas tardes de domingo,
dirigia estudos bíblicos para interessados. Comprou da sua avó a gleba
de Berthelsdorf e, como senhor feudal, instalou seu amigo João Rothe
como pastor, orando para que a vila se transformasse em uma real
comunidade cristã, sem saber como Deus responderia a este desejo.
Unitas Fratrum
Havia uma igreja protestante florescente antes da Reforma na atual
República Tcheca (cujas regiões principais eram Boêmia, ao redor da
capital Praga, e Morávia, no leste).
Estudantes tchecos que freqüentavam a universidade de Oxford ouviam o
professor John Wycliffe e levavam seus ensinos bíblicos para casa. Um
dos influenciados foi o padre João Hus, professor da Universidade de
Praga, que pregava com zelo contra os erros na vida e doutrina da Igreja
Católica Romana. Condenado pelo Concílio de Constança, foi queimado vivo
em 1415, apesar do salvo-conduto imperial.
A Boêmia revoltou-se e foi formada uma igreja evangélica conhecida como
a Unitas Fratrum, a União dos Irmãos. Quando, porém, em 1620, a Aústria
venceu os tchecos, o novo governo decidiu exterminar os evangélicos.
Muitos foram mortos. Outros fugiram, entre eles o famoso educador João
Amós Comênio, bispo da Unitas Fratrum, que soluçou que a igreja de Roma
tinha se tornado vampira dos próprios cristãos.
Parecia que os evangélicos haviam sido extirpados da Boêmia e da
Morávia.
Entretanto havia uma semente oculta e Deus usou um jovem pastor de
ovelhas, Cristiano David, para reacender o fogo. Ele era católico
fervoroso, mas pela leitura da Palavra de Deus conheceu a verdade e
começou a pregar as boas-novas de salvação, causando um despertamento
espiritual, o que levou a mais perseguição. Então, procurando uma saída,
David encontrou-se providencialmente com Zinzendorf por intermédio de um
amigo do pastor Rothe. O conde consentiu em receber crentes perseguidos
em sua propriedade e David voltou para Morávia. Assim, cinco famílias
deixaram seu lar para atravessar as montanhas e, depois de doze dias,
chegaram à vila Berthel em 1722.
Herrnhut
Foram recebidos com carinho. O administrador indicou uma colina distante
para os refugiados se estabelecerem. Neste lugar nasceu o lugarejo de
“Herrn -hut”, debaixo da “guarda do Senhor”. Mais famílias chegaram no
decorrer dos anos seguintes, especialmente herdeiros da Unitas Fratrum.
Além destes, foram recebidos anabatistas, calvinistas e outros, o que
causou tensões. De fato, Herrnhut era uma congregação da Igreja Luterana
de Berthel, mas o líder da confusão conclamou a todos a deixarem-na,
xingando-a de ‘Babilônia’. Muitas pessoas foram levadas pela pregação
inflamada, até mesmo o próprio pioneiro David. Embora o líder da
desavença tenha endoidado e sido internado em um manicômio, o mal
cresceu.
Zinzendorf continuava seu trabalho como conselheiro real em Dresden, no
inverno, e cuidava da sua propriedade rural, no verão. A igreja na vila
Berthel florescia com o trabalho do pastor Rothe. Em sua casa senhorial,
o próprio conde explicava a mensagem aos seus arrendatários. Enquanto as
coisas iam bem, Zinzendorf não se incomodava com Herrnhut, onde somente
perseguidos por causa da fé eram recebidos, prometendo fidelidade à
confissão luterana de Augsburg. Em 1727, porém, o radicalismo pediu
intervenção.
Depois de muita preparação, convocou a todos para uma reunião na
casa-grande em Herrnhut. Ensinou sobre o pecado do separatismo e,
depois, como senhor feudal, explicou suas “ordens e proibiçõe s”.
Finalmente, submeteu uns “Estatutos” como base para uma (futura)
sociedade religiosa voluntária. A reunião foi longa, mas o resultado foi
positivo.
Todos lhe deram a mão, prometendo seguir as normas. Ele, por sua vez,
garantiu que seus arrendatários nunca seriam seus servos feudais nem sua
propriedade pessoal, mas poderiam viver como homens livres, algo
especial para a época. No mesmo dia da reunião, foram eleitos doze
anciãos para a supervisão da congregação. Destes, quatro foram indicados
para servirem como ancião-mor, entre eles o próprio Cristiano David.
Posteriormente, foram eleitos guardas-noturnos, inspetores de serviços
públicos, ajudantes dos enfermos, cuidadores dos necessitados etc.
Também foram organizados grupos pequenos para edificação mútua.
Avivamento
Depois de receber licença da corte real, Zinzendorf dedicou seu tempo a
Herrnhut, deixando seus negócios na mão da esposa. Pelas freqüentes
reuniões com os refugiados e com os anciãos, ele percebeu a profunda
preocupação dos tchecos em ressuscitar a sua igreja. Mas o conde sabia
muito bem que as leis do Estado de Saxônia não permitiriam uma igreja
independente. Chegou à conclusão de que a melhor solução seria organizar
em Herrnhut uma congregação, uma “igrejinha dentro da igreja” (luterana)
de Berthel com características da antiga igreja tcheca. Para isto, quase
todos os habitantes de Herrnhut assinaram a Concórdia
Fraterna, documento que muito ajudou na paz e no crescimento espiritual.
As reuniões de oração, cânticos ou estudos bíblicos era diário. O
movimento era de calmo regozijo no Senhor, sem tentativas de estimular
as emoções, pois o conde alertara: “Criar excitação religiosa é tão
fácil como excitar as paixões carnais. E, freqüentemente, a primeira
leva à segunda”.
Depois que as brigas cessaram, o pastor Rothe convidou a todos para
participar da Santa Ceia na igreja central de Berthel, marcada para o
dia 13 de agosto. Ele enfatizou que, depois de tantas dificuldades, os
irmãos estavam sendo convidados pelo Senhor para sentarem com Ele à
mesa. Em meio às lágrimas de muitos, o conde fez a oração de confissão
pública, pedindo perdão mediante o sangue de Cristo, o livramento de
toda cisão e a bênção de uma união de coração, para que pudessem ser
bênção para outros, perto e longe. A liturgia sobre o perdão dos pecados
foi dirigida por um pastor vizinho que, então, administrou os elementos.
Todos sentiram paz e alegria no Espírito Santo e profunda comunhão com
Cristo e com os outros. Depois disseram: “Aprendemos a amar” (Rm 5.5).
Não houve manifestações especiais, mas foi um avivamento autêntico. Este
foi o dia do renascimento da Igreja dos Irmãos, a Unitas Fratrum.
Resultado
Duas semanas depois, Herrnhut iniciou a “Intercessão de Hora em Hora”.
Durante 24 horas por dia havia oração e cada irmão tomava seu lugar no
rodízio. Foi a reunião de oração mais longa da história, pois durou mais
de um século. Algum tempo depois, jovens solteiros começaram a estudar
juntos (a Bíblia, geografia, medicina, línguas etc.), pois sentiram que
Deus queria prepará-los para uma outra obra. A chamada macedônica veio
em 1731 e, no ano seguinte, começou o imenso trabalho missionário
morávio. “Os seguidores do Cordeiro” foram por toda parte e, em 20 anos,
Herrnhut mandaria mais missionários do que as igrejas protestantes em
seus 200 anos de existência. Lembremo-nos do seu lema:
William Darkeer escreveu: “A contribuição mais importante dos morávios
foi a sua ênfase sobre a idéia de que todo cristão é um missionário e
deve testemunhar através da sua vida diária. Se o exemplo dos morávios
tivesse sido estudado mais cuidadosamente pelos outros cristãos, é
possível que o homem de negócio pudesse ter retido seu lugar de honra na
missão cristã”.
A VIGÍLIA DOS CEM ANOS
Um dos homens destacados dentre os morávios foi o conde Nicolau. Um
grande estadista missionário, o que mais se destacou em todos os tempos.
Nascido na Alemanha em 1700 teve poderosa influência sobre o
cristianismo protestante primitivo e em muito respeito igualou ou
superou seus amigos cristãos, John Wesley e Jorge Whitefield. Fundou a
Igreja Moravia; compôs hinos e inaugurou um movimento missionário
mundial que preparou cominho para William Carey.
Em 1722 um grupo de refugiados protestantes abrigou-se em sua
propriedade em Bertheisdorf. Logo essa propriedade tornou-se própria
comunidade. Em 1727, um período de renovação espiritual chegou ao clímax
em um culto de comunhão dia 13 de agosto com um grande re-avivamento que
segundo os participantes marcou a chegada do Espírito Santo em
Bretheisdorf. Esta noite de pentecostes trouxe uma nova febre pelas
missões que se tornou a principal característica do movimento morávio.
Foi iniciada uma vigília de orações, que continuou noite e dia, sete
dias por semana, sem qualquer interrupção até 1827, denominada a Vigília
dos cem anos.
A missão teve muito êxito, a obra missionária floresceu e por volta de
1950 havia sobre a jurisdição morávia 38 postos e quase 5 mil cristãos
professos. Além do conde Zinzendorf, o individuo que mais se desenvolveu
na fundação da Igreja foi Christian David, seguido de George Schmidt.
Apesar da pobreza e poucos seguidores, os primeiros foram enviados já em
1732.
Após 100 anos de atividade missionária, eles contavam com 41 estações,
40 mil batizados nos campos missionários e 208 missionários. Em 1882 (50
anos depois) já tinham aumentado para 700 estações, 83 mil batizados,
335 missionários e 1500 ajudantes nacionais. A proporção de missionários
por membros do movimento chegou a 1 por 25, dificilmente igualado por
outro grupo na história de missões.
A estratégia empregada pelos morávios era:
Iniciar o trabalho de missões entre povos pouco evangelizados e
esquecidos;
O missionário deveria ser auto-suficiente economicamente através de
comércio, indústria caseira, etc;
Aceitar a cultura do povo, não colocando normas européias de costumes e
valores;
O missionário era servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não
para doutrinar; e,
Se o povo não aceitasse o evangelho, o missionário deveria procurar
outro campo.
Os Irmãos Wesley
A família Wesley, na Inglaterra, era já por tradição profundamente
dedicada a obra cristã. Foram, principalmente, dois irmãos Wesley que se
destacaram na história da Igreja; John e Charles.
John Wesley (1703-1791), a principal figura do metodismo, tinha, já de
berço, influências do puritanismo e do anglicanismo. O movimento que
surgiu buscou, não obstante, também aspectos do herrnhutismo e do
colonialismo. John, justamente com seu irmão Charles, elaborou um método
ritualista e ascético para a vida religiosa dos membros. O uso deste
método levou ao apelido de metodismo.
Foi entre os operários ingleses que o movimento conseguiu maior êxito e,
enquanto John Wesley vivia, tratava-se de avivamento dentro da Igreja
Inglesa. Após sai morte, organizou-se numa igreja própria. O metodismo
alcançou também a América do Norte estabelecendo sociedades metodistas
partindo na divulgação do Evangelho por todo o mundo, com o envio de
missionários mais tarde na história.
MISSÕES NA ÍNDIA – O GRANDE SÉCULO MISSIONÁRIO
A Índia é em si mesma um mundo. Tem milhões de habitantes, imersos em
todas as formas de superstição e paganismo. Ainda que em algumas partes
do prevaleça o budismo e maometismo, a religião que conta com maior
número de aderentes é o bramanismo, que admite três deuses: Brama, o
deus criador; Visnu, o deus conservador; Civa, o deus destruidor. A
essas divindades podem justar-se outras subalternas, representadas por
figuras ridículas ou espantosas e que recebem a homenagem de milhões de
adoradores. Tais são alguns dos costumes e algumas das crenças do vasto
campo de trabalho, que desde longos tempos estão desafiando os
missionários cristãos.
Um nome de destaque na Índia foi, William Carey. Carey (1761- 1834),
chamado de o “ pai das missões modernas”, era inglês. Foi sapateiro dos
16 aos 28 anos de idade. Converteu-se na adolescência e pertencia a um
grupo de batistas. Dedicava-se ao estudo nas horas de folga e assumiu o
primeiro pastorado em 1785. Publicou em 1792 um livro de 87 páginas com
o título: “Uma Inquirição sobre a Responsabilidade dos Cristãos em
Usarem Meios para a Conversão dos Pagãos”. Carey demonstrava uma forte
preocupação missionária e um profundo desejo de se envolver diretamente,
indo ao campo missionário. Numa pregação em Nottingham proferiu as
palavras:
“ Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”.
No mesmo ano de 1792 foi organizada a Sociedade Missionária Batista e no
ano seguinte Carey se baseava nos seguintes pontos:
Conversão individual;
Formação de uma igreja nacional autônoma;
Uso de leigos bem treinados nas Escrituras;
Treinamento de pastores nacionais;
Tradução da Bíblia e de literatura cristã.
Participação ativa na sociedade, influenciando a legislação e o ensino.
Apesar de muito sucesso, Carey também enfrentou enormes dificuldades,
começando pelo seu próprio lar. O relacionamento com a Sociedade
Missionária nem sempre foi harmonioso e os problemas econômicos se
faziam sentir. Sua determinação, no entanto, fez superar as adversidades
e Carey marcou uma era, deixando uma inspiração missionária para as
gerações posteriores e influências positivas no seu país de trabalho.
A exemplo de Carey, outro homem resolveu dar sua vida pela Índia, este
foi, Alexandre Duff Chegou a Culcutá com sua esposa em 1830. Nasceu e
foi criado na Escócia, sendo educado na Universidade de St. Andrews. O
avivamento evangélico, que levou a Escócia a ajoelhar-se na década de
1820, entusiasmou este jovem de 33 anos a se tornar o primeiro
missionário da Igreja escocesa para o interior. Em sua viagem para a
Índia sofreu dois naufrágios, tendo um deles perdido toda sua biblioteca
pessoal. Foi um golpe esmagador para alguém tão aplicada à erudição como
ele.
Quando os hindus souberam que ele escapara do naufrágio, disseram:
“Certamente este homem é um dos favorecidos dos deuses e, portanto de
uma obra importante a realizar entre nós”.
Duff iniciou logo seus trabalhos os quais consistiam na criação de
Institutos destinados a ensinar inglês, língua, que eram obrigados
aprender os hindus que quisessem conservar o contato com os dominadores
do território. Desse modo, Duff queria abrir um caminho para as classes
mais elevadas. Em 1831, abriu sua escola com cinco alunos. No fim da
primeira semana havia mais de 300 pedindo entrada. Com o tempo chegou a
mais de mil o número de alunos. De modo, que ao mesmo tempo, que
ensinava inglês, adquiria influência entre a juventude e ensinava-lhes
também o cristianismo. Alguns dos que vieram a dirigir os destinos do
povo foram ganhos também para Cristo. Entre outros é digno de especial
atenção Ram Mohan Roy.
Por causa da capacidade intelectual de Duff, vários príncipes hindus
vieram do interior para conhecerem sua Instituições.
Em 1864, a falta de saúde obrigou-o voltar para seu país natal, o que
foi lamentado por todos. Apesar de suas escassas forças físicas, fez na
Inglaterra uma obra importante como professor nos colégios indicados a
preparar missionários. Neste trabalho por onze anos e em 1878, faleceu
aos seus 72 anos.
Adoniram Judson (1788-1850)
Judson era americano, inicialmente da Igreja Congregacional, mas foi
enviado pelos batistas americanos para a Índia. Permaneceu ali pouco
tempo e escolheu como novo campo a Birmânia.
David Livingstone (1813-1873)
Livingstone também era escocês, quem sabe o mais famoso de todos os
missionários do período. Estudou medicina e teologia, finalizando os
estudos em 1840, sendo enviado no mesmo ano para a África, pela
Sociedade Missionária Londrina. Foi um grande desbravador do interior
africano, contribuindo, tanto para a divulgação do Evangelho, como para
a exploração do continente.
Mary Slessor (1848-1915)
Slessor era escocesa e representa o grande contingente de mulheres
engajadas na obra missionária durante este período. De origem
presbiteriana apresentou-se em 1875 à Missão de Calabar (Nigéria) que
era uma das missões que aceitavam missionárias solteiras. Fez trabalho
pioneiro de evangelismo, mas também se envolveu no apoio a escolas,
clínicas médicas e servindo o povo local vivendo de forma simples ao
estilo da população de Calabar.
Robert Morrison (1782-1834)
Morrison de origem inglesa era presbiteriano e tinha desde a juventude o
desejo de servir no campo missionário. Apresentou-se à Sociedade
Missionária Londrina em 1804, sendo enviado para a China em 1807. Foi o
primeiro a traduzir a Bíblia ao chinês.
John Paton (1824-1907)
Paton era escocês, também presbiteriano, e trabalhou inicialmente entre
os cortiços de Glasgow, como missionário. Em 1858 navegou para as Ilhas
do Pacífico onde trabalhou em diversas ilhas, contribuindo para que, no
final do século XIX, poucas ilhas não tivessem sido alcançadas.
Quando o rei Frederico IV da Dinamarca precisou de missionários para
enviar aos seus súditos, na colônia dinamarquesa de Tranquebar, não
encontrando em seu reinado quem se dispusesse a faze-lo, recorreu ao
pietista alemão August H. Francke (1663-1727), que lecionava na
Universidade de Halle, o qual enviou Bartholomew Ziegenbalg (1683-1719)
e Henry Plütschau (1677-1747), os quais partiram da Europa no fim de
1705, chegando em Tranquebar no dia 9 de julho de 1706, sendo os
primeiros missionários, não católicos, a chegarem na Índia, provenientes
da Europa.
Apesar de não serem bem recebidos pelos colonos dinamarqueses,
Ziegenbalg e Plütschau não se intimidaram, iniciando os seus estudos do
idioma nativo, tendo Ziegenbalg se destacado pela facilidade em aprender
outras línguas. Eles traduziram para o tamil o Catecismo de Lutero,
orações e hinos luteranos. Em 1711, por questões de saúde, Plütschau
regressou definitivamente para a Europa. Ziegenbalg continuou o seu
trabalho; compilou uma gramática tamil, escreveu uma obra sobre o
Hinduísmo, traduziu para o tamil o Novo Testamento (1714) e o Antigo
Testamento até o livro de Rute. Ele fundou uma escola industrial e outra
para a preparação de catequistas e, também, a primeira imprensa
evangélica da Ásia (esta com a ajuda financeira da Sociedade Anglicana
para a Promoção do Conhecimento Cristão).
Quando Ziegenbalg morreu em 1719, existia em Tranquebar uma comunidade
luterana de cerca de 350 pessoas.
Poderíamos citar muitos outros missionários e missionárias, verdadeiros
“heróis”, deste período. Inclusive, é importante frisar que mesmo que a
história escrita tenha se concentrado nos homens, muitos deles só
puderam realizar a obra devido ao apoio de suas esposas.
MISSÕES PARA OS ÍNDIOS AMERICANOS
Nenhuma outra população nativa tem sido tão solicitada e perturbada por
autoridades governamentais, políticos e líderes religiosos do que os
índios americanos.
John Eliot (1604-1690)
Foi um dos primeiros e talvez o maior de todos os missionários para os
índios americanos, conhecido como “Apóstolo dos Índios”. Nasceu na
Inglaterra em 1604, mas somente aos 40 anos começou seu trabalho
missionário. Chegou à América em1631.
Pertencia a Missão Indígena dos Puritanos da Nova Inglaterra e trabalhou
duramente toda sua vida tentando alcançar os indígenas.
Em 1645, fez seu primeiro sermão a um grupo de índios. À medida que as
semanas e meses se passavam, alguns índios foram convertidos em menos de
um ano. Eliot documentou o seguinte: “ Os índios abandonaram
completamente suas cerimônias de conjuração. Estabeleceram períodos de
oração em suas tendas, de manhã e à noite”.
A estratégia utilizada pela missão de Eliot foi:
Evangelizar, principalmente através da pregação;
Reunir as pessoas convertidas em igrejas locais; e,
Fundar cidades cristãs, numa forma de segregação da sociedade corrupta.
O missionário sempre se preocupa com o bem estar social dos índios. Ele
queria mais que simples profissão de fé. Buscava maturidade espiritual
de seus seguidores. Por isso, em 1649, começou traduzir a Bíblia no
idioma Moicana. Pouco antes de morrer em 1690 com 85 anos, John Eliot
disse: “Pouco posso fazer; todavia, tomei uma decisão pela graça de
Cristo, jamais, deixarei o trabalho, enquanto tiver pernas para andar”.
David Brainerd (1718-1747)
Depois de John Eliot, Brainerd foi o mais famoso daqueles que
trabalharam entre os índios. Nasceu no ano de 1718 em Haddam,
Connecticut. Brainerd havia sido expulso do curso teológico de Yale por
afirmar que um certo professor não tinha mais a graça de Deus do que uma
cadeira. Seus primeiros passos como missionário foram solitários e
deprimentes: “Meu coração estava abatido, parecia-me que jamais teria
êxito junto aos índios. Minha alma estava cansada da vida. Eu desejava a
morte, acima de tudo”.
Em 1745, houve um reavivamento entre os índios quando as fontes dos
esforços de David se evidenciaram. Em 1746, convenceu os índios
dispersos em Nova Gersey a se reunirem em Cranbury, onde logo foi
estabelecida uma igreja. Após um ano e meio os convertidos chegavam a
quase 150. Brainerd morreu dia 9 de outubro de 1747, acometido por
tuberculose. David Brainerd foi um desses homens.
Tem sido dito que Brainerd orava nas florestas até que a neve se
derretesse debaixo de seus pés. Mesmo assim, Brainerd viveu menos de
trinta anos. De 1743 a 1747, ele se esforçou para alcançar os índios da
América para Cristo. Ele lutava constantemente em oração pelas
multidões. Sua curta vida foi um impacto para todo o mundo cristão. A.
J. Gordon disse a respeito de Brainerd: “ Esse homem orava secretamente
nas florestas. Um pouco mais tarde, William Carey leu sobre a sua vida
e, impulsionado pela leitura, foi à Índia. Payson, ainda jovem, com
pouco mais de vinte anos, após ter feito a mesma leitura, disse que
nunca ficou tão impressionado com qualquer coisa em sua vida, como com a
história de Brainerd. Murray McCheyne disse que ele, de igual modo,
ficou impressionado com aquela leitura”.
Brainerd morreu na casa de Jonathan Edwards, que foi poderosamente usado
por Deus no primeiro Grande Despertamento na América. Sobre Brainerd,
Edwards falou: “ Eu louvo a Deus porque foi por sua providência que ele
morreu em minha casa, para que eu pudesse ouvir suas orações,
testemunhar sua consagração e ser inspirado pelo seu exemplo”.
À medida que corria o século as missões entre os índios decresceu. Os
missionários dirigiam-se para as terras exóticas, onde a população
nativa não podia interferir com o avanço da sociedade americana. Muitos
eruditos concordam que a evangelização dos índios como de um todo, não
foi uma história de sucesso, sendo o fator principal o intenso conflito
entre as duas culturas com vistas ao domínio da terra e a crença
arraigada dos Estados Unidos de raça branca de que, os índios eram
racialmente inferiores e que, não valia a pena preservar aquelas
culturas.
Após a morte de David Brainerd, outros nomes se destacam nas missões
indígenas americanas: Eleazar Wheelock, David Zeisberger, Isaac McCoy,
Narcissa Whitman, Henry Spaulding.
MISSÕES NA ÁFRICA
Durante séculos a África Negra foi conhecida como “Cemitério do Homem
Branco”.
Nesta região a evangelização tem tido um empreendimento dispendioso.
Embora as missões protestantes tivessem começado tarde na África, ela
tem sido um dos campos missionários mais produtivos no mundo. Calcula-se
que neste século 50% da população será composta de cristãos. A maior
parte desse crescimento surgiu no século XX, no século IX o trabalho foi
lento, mas, foram os missionários pioneiros daquele século que
arriscaram tudo para abrir caminho ao evangelho na África.
O futuro o cristianismo na África segundo os missionários, dependia da
influência européia e do comércio. Poucos missionários se opunham aos
conceitos subjacentes do imperialismo que está sendo destacado em anos
recentes. Os missionários foram seriamente criticados devido a essa
influência, porém, eles travaram longas e amargas batalhas, algumas
vezes fisicamente, contra o tráfico de carga humana. E depois do
desaparecimento do mercado de escravos, lutaram contra outros crimes,
incluindo as táticas cruéis usadas pelo rei Leopoldo para extrair
borracha no Congo. Os missionários eram pró-África e sua defesa da
justiça racial muitas vezes fez com que fossem desprezados pelos seus
irmãos europeus.
Podemos afirmar que sem a consciência das missões cristãs, muitos crimes
praticados pelo colonialismo teriam continuados impunes. As missões
protestantes para a África começaram na Colônia do Cabo com os morávios
no século XVIII. Em princípios do século XIX, os missionários estavam
penetrando em três das principais cabeças de praia. Começaram na Costa
Oeste entrando em Serra Leoa, na Costa Leste a partir da Etiópia e
Quênia e no Sul estabeleceram sua missão base na cidade do Cabo.
Robert e Mary Moffat (1795-1883)
Este homem foi o patriarca das missões na África do Sul. Teve
significativa influência nesta parte do mundo durante mais de um século.
Embora durante sua vida sempre foi ofuscado pelo seu genro sendo sempre
chamado de “o sogro de David Livingstone”, entre os dois ele foi o maior
missionário. Ele era um evangelista, tradutor, educador, diplomata e
explorador, combinando eficazmente esses papéis e se tornando um dos
maiores missionários na África de todos os tempos.
Nascido na Escócia em 1795 foi criado em circunstância humilde sem
nenhum treinamento bíblico formal. Ele não tinha grande inclinação pelos
assuntos espirituais, embora seus pais fossem presbiterianos com forte
zelo missionário. “Fugiu para o mar” por algum tempo e aos 14 anos
tornou-se um aprendiz de jardineiro, aprendendo uma arte que praticou
pelo resto de seus dias.
Em 1814, na cidade de Cheshire, Inglaterra, entrou em uma pequena
Sociedade Metodista cujas reuniões eram realizadas numa casa de fazenda
nas vizinhanças. Essa associação aquecera seu coração. Em 1815, quando
ouvia uma mensagem pelo Rev. William Roby, um dos diretores da Sociedade
Missionária Londrina, se ofereceu à mesma para servir como missionário.
Sendo rejeitado, porque o achou incapaz de efetuar esse sofrido
trabalho. Moffat não desanimou, começou estudar teologia com Roby.
Depois de um ano se candidatou novamente à SML, sendo então aceito.
Logo, foi enviado à África do Sul e depois de 85 dias no mar chegou a
cidade do Cabo.
Os hardships e as circunstâncias primitivas não o deterão, enquanto
introduziu para o norte no interior, onde ganhou para Cristo o mais
perigosos outlaw o chefe nessa região.
Retornando a Capetown em 1819, encontrou-se a jovem missionária Mary
Smith, a qual Moffat havia conhecido na Inglaterra. Casaram-se
permanecendo assim durante 53 anos. Em 1827, Moffat, deixou sua mulher
com os seus filhos pequenos e foi estudar por onze semanas a língua de
uma tribo africana chamada Kuruman, onde assegurou o papel de líder.
Ao voltar estava pronto para iniciar a tradução da Bíblia neste idioma,
passando 29 anos para completar. Em 1829, quase dez anos da chegada de
Moffat em Kuruman, foi realizado o primeiro batismo e em 1838, uma
grande Igreja de pedra foi construída existente ainda nos dias de hoje.
Embora a carreira de Robert Moffat seja geralmente associada a Kuruman,
sua obra se estendeu muito além dessa área. Na verdade o núcleo de
crentes em Kuruman não passou de duzentos, mas, sua influência fez-se
sentir a centenas de quilômetros. Chefes ou representantes de tribos
longínquas iam a Kuruman para ouvir suas mensagens. A mais notável
dessas ocasiões foi quando um grande e temido Moselekatse, um dos chefes
tribais mais infames da África, enviou cinco representantes para visitar
Moffat e leva-lo de volta com eles. O encontro entre Moffat e
Meselekatse foi inesquecível. Embora Meselekatse nunca houvesse se
convertido, ele permitiu que missionário inclusive o filho e a nora de
Moffat, John e Emily, estabelecessem um posto missionário entre sua
tribo. Contudo, por mais longe que Moffat viajasse, seus pensamentos
nunca se afastavam de Kuruman, a qual se tornara um cartão de visita da
civilização africana.
Três de suas crianças morreram. Mary, a filha a mais velha tornou-se a
esposa de David Livingstone.
O trabalho de Moffat era a pedra basilar que outro usou em espalhar o
evangelho durante todo "o continente escuro”. Abriu muitas estações de
missões e serviu como o missionário pioneiro em uma área de centenas de
milhas quadradas. Traduziu a Bíblia na língua do Bechwanas.
Em 1870 após 53 anos na África, ele sua esposa retornaram a Inglaterra
onde um ano mais tarde Mary morreu. Moffat por mais 13 anos continuou a
promover missões estrangeiras, viajando pelas ilhas Britânica,
tornando-se estadista missionário, desafiando adultos e até jovens com
as tremendas necessidades do continente Africano.
Levantou fundo para um seminário para que fosse construído na estação de
Kuruman onde os estudantes nativos foram preparados para o trabalho
missionário entre seus próprios povos. Em sua morte em 1883, os jornais
de Londres escreveram: Talvez não mais alma genuína respirada sempre...
Não se dirigiu às audiências cultivadas dentro dos salões majestosos da
abadia de Westminster com a mesma maneira simples em que conduziu à
adoração nos huts dos selvagens.
MISSÕES NA EUROPA
O período de 1000 a 1500 é marcado pela expansão da Igreja ao norte
europeu e pelas lutas em torno do Mediterrâneo, as chamadas Cruzadas.
Notamos que a expansão da Igreja, assim como o combate aos muçulmanos,
se dá muito mais em função de interesses políticos, do que por questões
espirituais ou religiosas.
Naturalmente, existem exceções que deixam algum saldo positivo do
período.
Segundo os cálculos de Dionízio Exíguo, a era da Igreja estava chegando
ao fim no finam de mil anos. Pensava ele que, esta data marcada por
tremendas calamidades, daria início ao terrível juízo final. Na
realidade nada demais aconteceu, contudo o ano deve ser tomado como uma
espécie de marco divisório. Uma Europa que possuía por fim um contorno
cristão começava sair dos piores horrores da idade média e acumulava uma
energia interior que iria se manifestar no decurso dos quatro séculos
seguintes, através do comercio, aventuras militares, arte, arquitetura e
felizmente na construção do edifico do pensamento teológico.
A primeira tarefa, portanto, consistia na Europa difundir o Evangelho
até aos seus próprios limites. Porém, a Escandinávia vivera durante
séculos num quase completo isolamento em relação ao resto do mundo.
Durante anos os Nódicos permaneceram nas suas terras distantes, lutando
entre si. De repente, no século VII, começaram a expandir tornando-se o
terror no mundo civilizado e em particular do mundo cristão. A variedade
das suas devastações é assustadora e a destruição por eles provocada
quase não conheceu limites.
A Inglaterra foi uma das primeiras vítimas. Lindisfarne viu-se saqueada
em 793. Jarrow em 194. o reino saxão de Northumbria caiu em chamas em
867 e durante certo tempo, pensou-se que a Inglaterra seria uma colônia
dinamarquesa. No entanto foi a Irlanda que sofreu mais os ataques dos
Vikings, tendo sido completamente destruída a grande e bela civilização
cristã e a fonte de muito esforço missionário. Em 851, o norueguês Olaf,
o branco, se estabeleceu em Dublin, criando um reino pagão que iria
durar cerca de três séculos.
No continente europeu eram os dinamarqueses que tomavam a chefia, em
relação aos noruegueses. Toda Europa Ocidental foi sistematicamente
devastada. Na França do norte e na Holanda, vastas áreas
transformaram-se em desertos e os cristãos, sempre que possível, fugiam
da tempestade destrutiva. Os normandos conseguiram se agrupar na Itália
meridional e na Sicília e o seu reino floresceu gradualmente até atingir
uma alta civilização, cujo período culminante se verificou durante o
reinado do imperador Frederico II (1194-1250), e que aproveitou
elementos da Grécia, do mundo muçulmano, da tradição latina e do norte
da Europa.
A Dinamarca encontrava-se em maior contato com a Alemanha e, portanto,
com o mundo cristão. Seria ali, naturalmente que o cristianismo teria
suas primeiras penetrações com êxito. Anskar conseguiu fundar um certo
número de Igreja na Dinamarca, mas, a pressão da evangelização não podia
manter-se e a vida da Igreja era incerta. Mas, em 1104, Lund, onde é
hoje a Suécia, e que era então a principal cidade dos domínios
dinamarqueses foi elevada á categoria de sede arcebispal e um
dinamarquês nomeado seu arcebispo. A Igreja dinamarquesa ganhava assim,
sua estrutura própria, independente de qualquer prelado vizinho.
Na Noruega, como na Dinamarca, o pode real desempenhou um papel
importante na introdução da fé cristã. O primeiro herói importante da
campanha da fé cristã, se tal nome lhe pode atribuir foi o viking
espadachim Olaf Tryggvesson (995-1000), que havia sido educado numa
colônia escandinava na Rússia, onde iniciara sua carreira como
guerreiro. Em 995 depois de seu batismo Olaf votou à Noruega onde foi
eleito rei de todo o país.
Logo após haver sido eleito, Olaf dedicou-se à tarefa de fazer do
cristianismo a religião dos noruegueses. Olaf morreu no ano 1000, porém,
sua obra foi continuada por outro Olaf: Que tinha por sobrenome
Haraldsson (995-1030), conhecido depois como “santo Olaf”, este fez com
que o evangelho penetrasse profunda e permanentemente no povo.
Pro volta do ano 1220, quase toda Europa era cristã numa certa medida.
Porém, uma vasta área permanecia no paganismo. Os pagãos por sua vez
convocaram uma grande reunião em que decidiram sacrificar 2 homens em
cada trimestre e pedir aos deuses pagãos que os livrasse de sofrer do
cristianismo e impedisse a expansão deste pelas suas terra. Mas, os
cristãos também, organizaram uma reunião e falaram:
“Os pagãos sacrificaram os piores homens e atiraram-nos pelos
desfiladeiros abaixo; nós, porém, sacrificaremos os melhores homens,
como dádiva a nosso Senhor Jesus Cristo e comprometemo-nos a viver
melhor e com menos pecado e ofereceremos como penhor de vitória de nosso
Trimestre”.
As Cruzadas (1096-1291)
O primeiro grande empreendimento da Europa renascido foi as Cruzadas,
iniciadas em 1096, prosseguindo até o ano de 1291. Mas, o movimento das
Cruzadas durou até 1492, quando os mouros foram definitivamente
vencidos.
A idéia de libertar os lugares santos cristãos das mãos dos infiéis não
era em si mesma ignóbil. Os homens já lutaram por causas menos elevadas
que esta. Porém depois de ter dito tudo o que se pode dizer de favorável
em relação às cruzadas, o que o cristão deve considerar é que
representou um desastre irreparável a causa cristã.
Havia entre os cristãos homens retos e de espírito superior, como
Bulhão, o primeiro rei cristão de Jerusalém, mas, para a maioria dos
guerreiros cristãos, os muçulmanos eram infiéis, sem direito a
existência, cuja fé não era necessária conservar e que podiam ser
chacinados sem dó nem piedade, para a maior glória do Deus cristão.
Evidentemente, o ódio cria ódio e o fel engendra fel. Os serracenos
sentiam-se igualmente felizes ao poder chacinar os cristãos o que
perante o seu próprio juízo se encontrava bem justificado.
As principais razões para o uso da ofensiva armada dos cristãos nos
países do sul europeu foram:
Sentimento religioso – o desejo de se fazer peregrinações a Jerusalém,
em poder dos muçulmanos;
Salvação pelas almas – sendo que a participação numa cruza era contada
como uma boa obra diante de Deus;
Busca de aventura – atraindo os homens para as longas e demoradas
viagens.
Desejo de unir as igrejas ocidental e oriental;
A miséria e a fome que predominavam o mundo da época trouxeram um
profundo desejo de mudanças e de novas conquistas, além de um
fortalecimento do sentimento religioso que levaram muitos a buscarem a
realização do monasticismo e do ascetismo.
A primeira cruzada vai de (1096-1099).
A Segunda de (1147-1149) e a Terceira de (1189-1192).
De três formas deixaram as Cruzadas a sua marca indelével na história
cristã:
1. Lesaram para sempre as relações entre os ramos ocidental e oriental
da cristandade. O mal atingiu o clímax quando a quarta cruzada se
desviou de seu objetivo, saqueando Constantinopla em 1204 e, instalando
um precário império latino sobre a ruína oriental assim que fora
destruído. Sessenta anos depois os bizantinos reagiram, expulsaram os
estrangeiros e criaram novamente o seu próprio império oriental. Mas,
este era uma sombra do anterior, permanentemente enfraquecido pela luta
infindável contra os muçulmanos. Quando Constantinopla caiu nas mãos dos
turcos em 1453, revelou-se toda a extensão das culpas dos cruzados.
2. Os cruzados deixaram um rastro de amargor nas relações entre cristãos
e muçulmanos que continua sendo um fator vivo na situação mundial de
nossos dias. Para os muçulmanos, o ocidente é o grande agressor. Há
cerca de 900 anos, participou deliberadamente deste papel em nome de
Cristo e hoje é muito difícil apagar esta imagem, que continua presente
no espírito muçulmano. Porém, isto não quer dizer que os muçulmanos
hajam sido sempre ternos e gentis. Também foram bastante agressivos
sempre que se viram com força e autoridade para aplica-la, mas, em
qualquer caso, os muçulmanos não pretendem ser seguidores do Príncipe da
Paz. Para cada muçulmano das terras mediterrâneas, as cruzadas foi um
acontecimento de ontem e as feridas estão prontas a abrirem-se de um
momento para outro.
3. As cruzadas explicaram a descida da temperatura moral da cristandade.
Uma cruzada dirigida contra o barbarismo pagão do Norte poderia
tornar-se grande catástrofe. É impossível discordar do juízo moderado de
um historiador das cruzadas, dos nossos dias: “Visto dentro da
perspectiva da história, todo o movimento das cruzadas foi um vasto
fiasco”. “Os triunfos das cruzadas foram triunfos da fé”. Mas a fé sem
sabedoria é perigosa. O historiador quando regride nos séculos
observando a sua história galante, acaba por encontrar a sua admiração
vencida pela tristeza, ao verificar as limitações da natureza humana.
Havia muita coragem e pouca honra; muita devoção e pouca compreensão. Os
grandes ideais foram maculados pela crueldade e pela avidez.
Viram-se afetados por uma retidão cega e estreita que a própria Guerra
Santa foi nada menos que um grande ato de intolerância em nome de Deus,
o que é um pecado contra o Espírito Santo.
Contudo, as cruzadas foram os primeiros sintomas do despertar da Europa
e de uma nova capacidade, por parte dos povos europeus de agirem
juntamente como um todo. Embora alguns cristãos afirmassem que o
serraceno só era bom depois de morto, havia outros que pensavam
diferente e acreditavam que por meio da pregação clara e piedosa do
evangelho, os serracenos seriam ganhos para a fé em Cristo.
Cruzadas contra os judeus
Um dos maiores missionários que surgiu nesta época da história foi
Raimund Lull, nascido em 1235, na ilha de Maiorca e dedicando-se à Seara
do Mestre durante 50 anos. Luul escreveu dizendo: “ Os missionários
converterão o mundo por meio da pregação, mas, também, vertendo lágrima
e sangue através de grandes trabalhos seguidos de mortes amargas”.
Não era este um homem que formulasse pensamentos que não estivesse
pronto para traduzir em atos. Visitou quatro vezes a África do Norte
para pregar aos muçulmanos e discutir com eles em pessoa. Na quarta
destas visitas, em Gugia, em 1315 foi de tal modo agredido que morreu em
resultado dos ferimentos recebidos.
MISSÕES NA ÁSIA
O primeiro grande avanço das missões estrangeiras deu-se ao Sul da Ásia
Central. Foi muito difícil a obra do Senhor neste lugar, pois, ali eram
praticadas as religiões mais velhas e complexas do mundo, como o
hinduísmo, budismo, islamismo, sikismo ou jainismo. Que atração poderia
haver numa tradição dogmática como o cristianismo? Os hindus com seus
milhares de deuses pensavam ser superiores ao cristianismo que lhes
apresentava um único Deus.
Mas, o cristianismo como William Carey e os que o sucederam demonstraram
que tinham tudo a oferecer ao povo da Ásia Central. Mesmo sem levar em
conta o dom gratuito da salvação e da vida eterna, só o cristianismo
oferecia as pessoas à libertação das cadeias do antiqüíssimo sistema de
castas e do processo interminável de reencarnações que os escravizava.
Só o cristianismo se aproximava dos “intocáveis” e lhes oferecia
esperança para o momento presente. Só o cristianismo estava disposto a
sacrificar seus jovens, homens e mulheres nos perigos do Sul da Ásia com
seu clima excessivamente quente, num amor desprendido, a fim de erguer
espiritualmente seu povo.
Os sacrifícios de Carey, Judson e outros que trabalhavam na Índia e na
Ásia foram imensos. Carey e Judson sepultaram duas esposas cada um,
assim como filhos pequenos, mas, nenhum preço era considerado alto
demais para o privilegio de levar o Cristo a essa área do mundo.
MISSÕES NA AMÉRICA CENTRAL
Em fins de 1880 essa área do mundo chamou a atenção de C. I. Scofield,
americano que se tornou famoso pela sua Bíblia editada em linguagem
popular. Nesta época os missionários já estavam em quase metade do
mundo, porém, haviam se esquecido de seus vizinhos do lado. Baseando sua
estratégia como considerava um princípio missionário em Atos 1.8,
Scofield decidiu corrigir seu erro: “ Tanto em Jerusalém, como em toda a
Judéia e Samaria – América Central é o campo não ocupado mais perto de
qualquer cristão nos Estados Unidos ou no Canadá! Nós nos esquecemos da
nossa Samaria”.
Scofield nasceu em Michigan em 1843 e cresceu no Tennessee. Tendo
estudado Direito foi admitido na Ordem dos Advogados em Kansas em 1869.
Serviu na Assembléia Legislativa e veio ser mais tarde Procurador dos
Estados Unidos sob o Presidente Grant.
Em 1879 quando exercia sua profissão, um cliente testificou a ele e o
resultado foi sua conversão ao cristianismo. Para ele que era escravo da
bebida sua conversão foi dramática.
Em 1883, iniciou um estudo intensivo da Bíblia. Durante 13 nos serviu
como Pastor em Dallas e depois fundou a Faculdade Bíblica Filadélfia. Em
1890, fundou o MAC, depois de quatro meses a missão já tinha o primeiro
candidato para Costa Rica. Em 1894 já havia sete missionários na Costa
Rica.
Em 1899, a Guatemala foi atingida e em 1900, a MAC chegou a Nicarágua.
Após 10 anos a missão possuía 25 missionários trabalhando em cinco áreas
da América Central e apesar das dificuldades continuou crescendo e está
em atividade até hoje, com cerca de 300 missionários em seis repúblicas
centro-americanas, além do México.
Porém, se certas sociedades missionárias se interessavam pela América
Central a outra América, a Latina foi negligenciada durante séculos
pelos protestantes. Em fins do século IXI, a percepção desse
esquecimento começou a aumentar. Lucy Guineess, escreveu um livro
chamado, “O Continente Negligenciado”, sublinhava a negligencia
espiritual da América do Sul e ajudou a despertar muitos cristãos para
sua responsabilidade. Homens que deram suas vidas pelas missões Latinas:
Dave Bacon, Cecil Dye, Geroge Hosback, Bob Dye e ldon Hunter.
MISSÕES NO SÉCULO DEZOITO
• 64 – Começa a perseguição de Nero
• 67 – Martírio de Pedro e Paulo
• 70 – Destruição de Jerusalém
• 156 – Martírio de Policarpo
Mundo Mediterrâneo
• 165 – Morte de Justino Mártir
• 203 – Morte de Perpétua
• 303 – Começa a perseguição de Dioclécio
• 313 – Constantino expede o Edito de Milão
• 325 – Concílio de Nicéia
• 340 – Início do Ministério de Ulfilas com os Godos
• 595 – Gregório, o Grande nomeia Agostinho
• 638 – O Islã conquista Jerusalém
• 1095 – Início das Cruzadas
• 1276 – Lull abre o mosteiro em Maorca
• 1316 – Morte de Raymond Lull
Europa Septentrional e Ocidental
• 361 – Martin de Tours começa seu trabalho missionário
• 432 – Patrício chega à Irlanda
• 496 – Conversão de Clóvis
• 563 – Columba chega à Escócia
• 716 – Bonifácio inicia seu trabalho missionário
• 732 – Batalha de Tours
• 744 – Fundação de Fulda
• 800 – Carlos Magno coroado imperador
• 827 – Anskar chega à Dinamarca
• 1212 – Francisco de Assis inicia sua missão para a Síria
• 1216 – Fundação dos Dominicanos
• 1219 – Franciscanos enviados para África do Norte
• 1534 – Fundação dos Jesuítas
• 1622 – Fundação de Propaganda
• 1705 – Fundação da Missão Dinamarquesa
• 1722 – Zinzerdorf estabelece Herrnhut
• 1773 – Jesuítas reprimidos pelo papa
Ásia e África
• 635 – Nestorianos chegam à China
• 1219 – Frei John chega à Pequim
• 1542 – Xavier chega à Índia
• 1583 – Ricci chega à China
• 1606 – de Nobili chega à Índia
• 1706 – Ziegenbalg, na Índia
• 1737 – Geroge Shimt, na África do Sul
• 1750 – C. F. Schwartz chega à Índia
Novo Mundo
• 1510 – Dominicanos chegam a Haiti
• 1523 – Las Casas une-se aos dominicanos
• 1555 – Calvino envia colonos ao Brasil
• 1625 – Brébeut nomeado para Nova França
• 1646 – John Eliot faz o primeiro sermão aos Índios
• 1675 – Guerra do rei Felipe
• 1722 – Egede chega à Groelândia
• 1732 – Morávios enviam missionários às Ilhas Virgens
• 1733 – Christian David chega à Groelândia
• 1743 – Brainerd inicia trabalho missionário
• 1744 – Zeiberger começa ministério aos Índios
MISSÕES NO SÉCULO XIX “O GRANDE SÉCULO”
Índia e Ásia Central
• 1793 – William Carey chega à Índia
• 1806 – Chegada de Henry Martyn à Índia
• 1812 – Partida dos primeiros missionários americanos
• 1819 – Fundação do Colégio de Serampore
• 1824 – Prisão de Judson
• 1830 – Chegada de Alexander Duff à Índia
• 1834 – Morte de Carey
• 1845 – Licença de Hudson nos E.U.A.
• 1850 – Morte de Hudson
• 1870 – Dra. Clara Swain chega à Índia
• 1878 – Batismo em massa de John Clough
• 1896 – Amy Carmichael começa obra em Tinnevelly
África Negra
• 1799 – Vanderkemp chega ao Cabo
• 1825 – Moffat se estabelece em Kuruman
• 1841 – Livingstone chega à África
• 1844 – Krapt chega a Quênia
• 1864 – Crowther consagrado bispo
• 1873 - Morte de Livingstone
• 1874 – Stanley começa a jornada de 999 dias
• 1875 – Grenfell chega ao Congo
• 1876 – Mackay chega à Uganda
• 1890 – O bispo Tucker chega à Uganda
• 1896 – Morte de Peter Cameron Scott
Extremo Oriente
• 1807 – Morrison chega à Cantão
• 1814 – Morrison batiza o primeiro convertido
• 1840 – Gutzlaff inicia ministério na costa chineza
• 1842 – Tratado de Nanguim
• 1854 – Taylor chega a Changai
• 1859 – Missionários protestantes chegam ao Japão
• 1865 – Primeiro missionário protestante chega a Coréia
• 1867 – Morte de Gracie Taylor
• 1868 – Incidente de Yagchow
• 1870 – Morte de Mary Taylor
• 1877 – Jannie Taylor volta sozinha à China
• 1900 – Rebelião dos Boxes
lhas doPacífico
• 1796 – Duff viaja para o Pacífico Sul
• 1817 – William chega aos Mares do Sul
• 1819 – Batismo de Pomare
• 1820 – Início da Missão Havaiana
• 1837 – Coan começa
• 1838 – A Bíblia é publicada em italiano
• 1839 – Martírio de Williams
• 1848 – Gedie chega a Aneityum
• 1855 – Patterson viaja para os Mares do Sul
• 1858 – Paton chega a Tanna
• 1866 – Chalmers viaja para os Mares do Sul
• 1871 – Martírio de Patterson
• 1873 – O padre Damião chega a Molocai
• 1882 – Florence Young inicia ministério em Fairymead
• 1901 – Martírio de Chalmers
Europa e América do Norte
• 1795 – Fundação da Sociedade Missionária Londrina
• 1799 – Fundação da Sociedade Missionária da Igreja
• 1810 – Fundação da Junta Americana de Comissionários para Missões
Estrangeiras
• 1835 – Whitman viaja para Óregon
• 1837 – Remoção dos Cheroquis
• 1847 – Massacre de Waiilatpu
• 1865 – Fundação da Missão para o Interior da China
• 1886 – Nascimento do Movimento Voluntária Estudantil
• 1887 – Fundação da Aliança Cristã Central
• 1890 – Fundação da Missão Americana Central
• 1892 – Grenfell chega ao Labrador
• 1893 – Fundação da Missão para o interior do Sudão
• 1895 – Fundação da Missão para o interior da África.
MISSÕES NA AMÉRICA LATINA
É impossível descrever o movimento missionário no mundo do século XX e
início do século XXI, em todos os seus lances, num período de grandes
mudanças e de muitas iniciativas missionárias. O enfoque, portanto, será
dado ao contexto latino-americano de forma geral. Recomendamos o estudo
do avanço missionário em outras regiões do mundo na literatura produzida
em cada região. A história do ponto de vista do norte está nas obras
tradicionais e clássicas.
A Chegada das Missões à América Latina
Através dos descobrimentos e das iniciativas de colonização dos paízes
católicos romanos do sul da Europa, as missões cristãs chegaram ao nosso
continente. Como já vimos, em 1492, Cristóvão Colombo chega às Bahamas;
em 1500, Pedro Álvares Cabral ao Brasil; em 1519, Hernán Cortés ao
México; e, em 1531, Francisco Pizarro ao Peru. Além do governo de seu
país, representavam a fé cristã, que pouco a pouco, invadia as antigas
terras indígenas do Novo Mundo.
Três aspectos que caracterizaram as missões católicas que chegaram à
América Central e do Sul:
Imposição – a cristianização à força
Superficialidade – não atingiu a alma do povo
Sincretismo – aproveitou-se elementos religiosos já existentes e não fez
clara distinção entre o cristianismo e o animismo. Inclusive facilidade
pelo misticismo espanhol e português.
Nem todos os franciscanos, jesuítas e dominicanos que chegaram ao Novo
Mundo eram solidários com os governos conquistadores e colonizadores da
Espanha, Portugal e Itália. Um excelente exemplo é o dominicano
Bartolomeu de Las Casas (1474-1566), que lutou a favor dos indígenas nas
Ilhas do Caribe – Espanhola (República Dominicana e Haiti).
As reduções na região das Missões, principalmente no atual Paraguai,
iniciadas pelos jesuítas, foram modelos de cidades que visavam o
desenvolvimento político, social, cultural, tecnológico e religioso dos
Guaranis.
Costuma dividir-se este tempo de missões católicas em três fases:
Heróica – a conversão e o batismo dos indígenas sem critérios
Missionária – o ensino mais sistemático sobre a doutrina e a prática
cristã
Paroquial – o estabelecimento do sistema católico mais sólido.
As Missões Protestantes
A primeira tentativa como sabemos foi feita pelos huguenotes franceses,
com a chegada de Villegagnon ao Brasil em 1555. Os franceses foram, no
entanto expulsos em 1567 e nada sobrou do seu empreendimento
“missionário”. A segunda foi a dos reformados holandeses entre os anos
1624 e 1654, que também poucos vestígios deixou. Tentativas parecidas
ocorreram, por exemplo, no Panamá pelos escoceses entre 1698 e 1700. Os
missionários morávios também trabalharam no continente latino-americano,
principalmente em ilhas do Caribe e na Guiana Holandês.
As primeiras igrejas protestantes que chegaram ao continente e que
permaneceram, vieram no começo do século XIX, através dos imigrantes,
principalmente alemães, ingleses, italianos (valdenses) e americanos,
além de outros grupos europeus. Uma das primeiras igrejas fundadas e que
existe até hoje foi a Igreja Anglicana do Rio de Janeiro, em 1819.
Os primeiros missionários, enviados pelas principais denominações da
época, chegaram nos seguintes anos:
Presbiterianos: Argentina 1823, Colômbia 1859, Brasil 1859, México 1871
e Guatemala 1882;
Metodistas: Brasil 1835, Argentina 1835, Uruguai 1835, México 1872,
Chile 1877 e Bolívia 1901.
Batistas: México 1870, Brasil 1881, Argentina 1881 e Bolívia 1895.
O crescimento do movimento evangélico na América Latina tem sido forte
durante o século XX, principalmente na sua segunda metade. Alguns dados
estatísticos:
Em 1900, havia nas Guianas, onde a concentração de evangélicos era
maior, em torno de 14.000 membros. No Brasil eram um pouco mais de
11.000 e nos países de fala espana 5.200.
Em 1916, o número total de evangélicos no continente latino-americano
tinha subido para 378.000.
Em 1925 tinha alcançado 756.000; em 1936, sete milhões; em 1967, 15
milhões; em 1987, 37 milhões e no ano 2000, em torno de 80 milhões.
A conferência de Edimburgo em 1910 não considerou a América Latina como
campo missionário por já ser católica, mas, o encontro alguns anos mais
tarde no Panamá, 1916, mudou esta visão e há um aumentou de investimento
em missões no continente. A igualdade de direitos dos evangélicos em
relação aos católicos (no Brasil, já em 1890) foi também um fator que
colaborou com a entrada de missionários e o desenvolvimento da igreja
evangélica.
Em termos do movimento missionário latino-americano, as primeiras
iniciativas têm sido por parte das denominações, que desde o fim do
século XIX, começaram a enviar missionários para campos pioneiros dentro
do seu próprio país e no começo do século XX também para outros países.
Hoje é, principalmente, o COMIBAM (Cooperação Missionária Ibero-
americana) que representa o movimento missionário da América Latina.
MISSÕES NO SÉCULO VINTE
África Negra
• 1910 – C. T. Studd chega à África
• 1913 – Schweitzer chega à África
• 1915 – Morte de Mary Slessor
• 1928 – Carl Becker viaja para o Congo
• 1931 – Morte de C. T. Studd
• 1953 – Helen Roseveare chega ao Congo
• 1960 – Independência do Congo
• 1964 – Rebelião de Simba
• 1964 – Morte de Paulo Carison
• 1964 – Ataque do Quilômetro Oito
Extremo Oriente e Ilhas do Pacífico
• 1905 – Martírio de Eleanor Chestnut
• 1907 - Goforth inicia ministério de reavivamento na Coréria e
Manchúria
• 1930 – Gladys Aylward vai para China
• 1932 – Martírio de onze missionários em Team
• 1934 – Martírio de Stm
• 1940 – Gladys Aylward leva crianças para lugar seguro
• 1945 – Morte de Eric Liddell
• 1945 – Morte de R.A. Jafray em campo de concentração japonês
• 1948 – CREO inicia programa de rádio em Manilla
• 1958 – Cho inicia ministério de tenda na Coréia
• 1962 – Captura de Mitchell, Gerber e Vietti
• 1962 – Don Richardson chega a Írian Gaya
• 1964 – Myron Braomley entra no Vale Balim
• 1968 – Morte de Betty Oslen
América Latina
• 1917 – W.C. Townsend chega a Guatemala
• 1929 – Townsend completa NT Cakchiquet
• 1931 – HCJB começa
• 1936 – Ken Pique começa trabalho no México
• 1941 – Wlater Herron começa ministério de aviação
• 1943 – Martírio de 5 missionários das Novas Tribos na Bolívia
• 1948 – Nate Saint chega ao Equador
• 1956 – Massacre Auca
• 1956 – Mariana Slocum completa NT Tzeital
• 1957 – Rachel Saint e Dayuna correm os U.S.A.
• 1981 – Martírio de Chet Bitterman
Oriente Próximo, África do Norte e Ásia Central
• 1900 – Ida Scudder funda Escola de Medicina em Vellore
• 1901 – Mause Cary viaja para Marrocos
• 1912 – Zwemer inicia obra no Cairo
• 1917 – E. Stanley Jones chega a Índia
• 1928 – Conferencia Missionária Mundial de Jerusalém
• 1933 – Morte de Johanna Veenstra
• 1938 – Conferencia Missionária Mundial de Madras
• 1951 – Morte de Amy Carmichael
• 1962 – Viggo Olsen chega ao Paquistão Oriental
• 1967 – Marrocos fechado para missionários
• 1973 – Morte de E. Stanley Jones
Europa e América do Norte
• 1908 – Grenfell salvo da icebergue
• 1910 – Conferencia Missionária de Edimburgo
• 1920 – Convenção MVE de De Moines
• 1932 – Publicação de “Reavaliação das Missões”.
• 1934 – Fundação do Instituto Lingüístico de Verão
• 1939 – Joy Ridderhof funda a gravadora “Gospel Recordings”
• 1942 – Fundação da Missão Novas Tribos
• 1945 – fundação das Asas de Socorro
• 1946 – Primeira convenção Missionária Trienal “Urbana” em Toronto
• 1950 – Fundação da “Visão Mundial”
• 1954 – Fundação da Radio “Trans -Mundial”
• 1955 – Morte de Mott
• 1976 – Fundação do Centro das Missões Mundiais nos E.U.A.
MISSOES A PARTIR DO BRASIL
O Brasil tem hoje uma das maiores igrejas evangélica do mundo. Superado
pelos Estados Unidos da América e pela China, vem em terceiro lugar com
cerca de 35 milhões de evangélicos, segundo estimativas. Durante mais de
cem anos, os pais têm recebido missionários de fora e ainda trabalham no
Brasil em torno de 2.600 missionários estrangeiros.
Missionários Pioneiros
Como já vimos, também no Brasil foi a Igreja Católica Romana que
primeiro chegou como o Cristianismo. Somente no fim do século XVIII
começaram a chegar imigrantes que trouxeram consigo a Igreja Protestante
e ao longo do século XIX varias igrejas se estabeleceram no Brasil, a
partir das colônias étnicas que surgiram.
Iniciativas missionárias, com o intuito de alcançar a população
brasileira, ocorreram mais tarde. Os primeiros missionários estrangeiros
que chegaram aos nossos pais foram:
Justino Spaulding Daniel e Cynthia Kidder
Missionarios americanos da Igreja Metodista Episcopal. Spaulding chegou
ao Brasil em 1836 e o casal Kidder em 1837. Estabeleceram a primeira
escola dominical, venderam Bíblias e deram inicio ao trabalho metodista
no país. Cynthia faleceu de febre amarela em 1940, levando o seu esposo
a voltar aos Estados Unidos. Spaulding regressou a sua pátria no ano
seguinte. A Igreja Metodista não chegou a ser organizada neste período
inicial, somente 1876 em quando um novo missionário J.J. Ranson foi
enviado ao Brasil.
Robert e Sarah Kalley
Chegaram ao Brasil em 1855 vindos da Escócia. Robert era medico e pastor
de origem presbiteriana. Juntos fundaram a primeira igreja protestante
de língua portuguesa, a Igreja Congregacional no Rio de Janeiro.
Ashbel Green Simonton
Enviado pela Junta de Missões da Igreja Presbiteriana, como seu primeiro
missionário ao Brasil, chegou em 1859. Fundou no Rio de Janeiro a Igreja
Presbiteriana e iniciou um jornal evangélico e um seminário para
formação de pastores brasileiros.
Ana e William Bagby
Casal norte-americano que iniciou o trabalho batista no Brasil. Eles
chegaram em 1881, estabelecendo a primeira Igreja Batista em Salvador no
ano seguinte, juntamente com o recém-chegado casal Kate e Zacarias
Taylor. William faleceu em 1939 e Ana 1942.
Gunnar Vingren e Daniel Berg
Missionários suecos que, via Estados Unidos, chegaram ao Brasil em 1910
estabelecendo o trabalho das Assembléias de Deus na cidade de Belém, PA.
Gunnar faleceu em 1933 e Daniel em 1963.
Erik e Anna Jansson
Missionários batistas suecos da Missão de Orebro, que chegaram ao Brasil
em 1912-1914, respectivamente, para dar atendimento espiritual a colônia
de imigrantes suecos no Rio Grande do Sul. Logo estabeleceram trabalho
também entre os brasileiros sendo a primeira igreja brasileira
organizada em 1915 na cidade de Ijui. O trabalho dos batistas suecos deu
origem a Convenção das Igrejas Batistas Independentes, organizada com
liderança nacional em 1952. Erik faleceu em 1971 com 86 anos de idade.
Muitos outros missionários chegaram ao Brasil ao longo dos anos. Vindos
principalmente dos Estados Unidos, do Canadá e paises europeus como
Alemanha, Inglaterra, Escócia, Holanda, Suíça, Suécia e Noruega,
ajudaram a estabelecer a igreja evangélica em nosso país.
MOVIMENTOS DE DESTAQUE
As ultimas décadas tem sido influenciadas, em termos de missões, por
vários movimentos.
Destacam-se:
1.- O MOVIMENTO DE LAUSANNE
A partir da conferencia missionária em Lausanne, na Suíça, em 1974, o
mundo evangélico é levado a refletir sobre sua tarefa missionária e
sobre a cooperação no cumprimento da missão. Com o lema”Toda igreja
levando o evangelho a todo homem em todo mundo”, a conferencia alcançou
bem amis do que os participantes, criando um movimento mundial com
benefícios incalculáveis para as missões. Conferencias regionais foram
realizadas e, em 1989, Lausanne II em Manila.
O movimento de Lausanne quer:
• Dar uma orientação teológica, baseada na Bíblia, acerca da motivação
missionária e seu conteúdo.
• Estimular os cristãos a uma responsabilidade maior pela evangelização
que já vem ocorrendo nas diferentes denominações e movimentos.
• Inspirar o cristão, individualmente, a um serviço intensivo de
intercessão e de ofertar bem mais para missões.
• Conscientizar os cristãos de que a evangelização e ação social devem
acompanhar uma a outra.
• Possibilitar contatos entre a cristandade evangélica para melhor
planejamento e cooperação.
2.- MOVIMENTO DO CRESCIMENTO DA IGREJA
Os primeiros passos dentro deste movimento foram tomados por Donald
McGavran, professor de missões no Fuller Theological Seminary, Pasadena,
EUA. O movimento tem trazido novos aspectos à analise do evangelismo e
de missões e se baseia nos seguintes aspectos:
• Não cruzar fronteiras de cultura, senão no trabalho
pioneiro-evangelizaçao em grupos homogêneos.
• Investir a maior parte dos recursos onde há receptividade.
• Dividir a igreja em grupos menores.
• Treinamento de leigos
• Investir em pesquisas sobre crescimento
O movimento tem sido fortemente criticado por só se preocupar com o
crescimento numérico mas, ultimamente, os seus defensores vem
enfatizando o crescimento equilibrado da igreja, incluindo além do
crescimento quantitaivo, também o qualitativo e o orgânico.
3.- MOVIMENTO ANO 2000 ( AD 2000)
Em janeiro de 1989, foi realizada em Cingapura, uma consulta global de
evangelização mundial para o ano 2000 e além. Esta consulta deu origem
ao movimento denominado AD 2000. O movimento tem o propósito de: “Em um
espírito de serviço, buscar motivar, fomentar e fazer redes de homens e
mulheres lideres eclesiásticos, que sejam motivados pela visão de
alcançar os não-alcançados até o ano 2000”, cumprindo assim a grande
comissão de Jesus.
Os objetivos deste movimento são:
• Trabalhar, enfocando particularmente aqueles que não têm ouvido a
Palavra de Deus.
• Dar a cada pessoa a possibilidade real de ouvir a Palavra de Deus em
um idioma que possa entender. O alvo é que pelo menos a metade da
população mundial professe sua fé em, Jesus.
• Estabelecer um movimento de plantação de igrejas com orientação para
missões, dentro de cada grupo de pessoas não alcançadas pela Palavra de
Deus.
• Estabelecer uma comunidade cristã marcada pela adoração, discipulado,
evangelismo e de interesse missionário em cada grupo humano.
Um enfoque principal dentro do movimento AD 2000, está para a chamada
janela 10/40. esta janela representa os países no norte da África, sul
da Ásia e todo o oriente médio. Nesta área vivem 97% das pessoas menos
evangelizadas, a maioria delas muçulmanas. A janela 10/40 é também a
região onde menos esforços evangelisticos têm sido empreendidos.
A historia de missões continua a ser escrita e a obra missionária está
mais viva do que nunca.
Deus continua vocacionando vidas para servirem como missionários em
muitas maneiras.
A RESPONSABILIDADE DO JOVEM PELO MUNDO
John R. Mott estava no segundo ano da Faculdade em Cornell, quando certo
dia entrando atrasado em sua sala de aula onde J.K. Studd dissertava,
ouviu que este dizia como se dirigindo diretamente a ele:
“Jovem, buscas grandes coisas para ti mesmo? Não a busques! Busca
primeiro o reino de Deus”.
A subseqüente conversão e consagração de Mott colocaram-no no caminho
que o conduziu a participar da Conferencia de Monte Hermon em 1886,
ocasião em que surgiu o Movimento Voluntário Estudantil e do qual se
tornou um voluntário e líder. Ele serviu na primeira Comissão Executiva
do Movimento e por mais de trinta anos foi seu presidente.
Liderando ao mesmo tempo, com grande capacidade, dois movimentos de
forte ênfase evangelística para a época: A Associação Crista de Moços e
a Federação Crista Estudantil Mundial. Laourette faz o seguinte
comentário:
“Mott se tornou um dos mais destacados lideres de toda a historia do
cristianismo, combinando sua fé singela, fruto de uma completa dedicação
a Cristo, com uma liderança marcante, uma visão que abrangia o mundo
todo, uma capacidade para identificar e alistar jovens hábeis e uma
capacidade para conquistar a confiança de homens de negócios, ao mesmo
tempo em que, atravessava barreiras eclesiásticas para unir os cristãos
de muitas tradições no esforço de ganhar toda a humanidade para fé
crista”.
Ate’ sua morte ele se tornou, um simples evangelista. Em 1901, aplicou a
seguinte mensagem:
“ E’ um fato muito inspirador que os jovens desta geração não duvidem da
causa das missões mundiais. O cristão que se acanha em nossos dias de
participar desta causa deve ser considerado ignorante e insensato. O
individuo que, põem em duvida a causa de missões suspeita na verdade de
toda a religião duradoura, pois, como disse Max Muller, ‘as religiões
não cristas estão morrendo ou estão mortas”.
Ele duvidava abertamente do cristianismo por ser em essência um
empreendimento missionário. Duvida da Bíblia porque missões constituem
seu tema central. Duvida da oração do Pai nosso e do credo Apostólico,
bastando repetir suas frases familiares para que se sinta humilhado com
a idéia. Ele duvidava da paternidade de Deus e com isto, também, da
fraternidade dos homens.
Se for cristão, suspeita do vigor de sua vida espiritual e na pior das
hipóteses, duvida de Jesus Cristo, que e’ a propiciacão não só dos
nossos pecados, mas, dos pecados de todo o mundo. Reputo, portanto, ou
ele e’ ignorante ou insensato.
TODA A HUMANIDADE NA PERSPECTIVA MISSIONARIA
Perspectiva alguma da raça humana pode ser resumida sem que haja uma
tendência simplista. Quando Deus escolheu Abrão e sua descendência,
tanto para uma bênção especial como para uma responsabilidade especial
de partilhar aquela bênção com “todas as família da terra”, Gn 12.3;
18.18, etc., Abrão misericordiosamente não entendeu como essa tarefa era
grande e complexa.
Agora, entretanto, 4 mil anos depois, mais da metade de “todas as
famílias da terra” são pelo menos o que Taynbbe chama de “judaicas” em
religião e certamente receberam pelo menos alguma bênção direta através
de pessoas com uma fé semelhante a de Abrão e através da obra redentora
daquele para quem Abrão olhou (Jo 8.56).
Se levarmos em consideração influências, seria possível calcular que
nove décimos de toda a humanidade já recebeu parta dessa bênção, mesmo
quando misturada com outros elementos.
.
UM FUTURO REAVIVAMENTO
O mundo vai passar por um grande reavivamento antes do fim dos tempos?
Esta possibilidade tem sido discutida pelos cristãos que crêem que as
ultimas lutas convulsivas de nossa civilização já começaram.
As Escrituras parecem aludir a um reavivamento mundial, embora, esta
interpretação não seja de maneira nenhuma unânime. Muitas referencias
estão ligadas a outras situações históricas, tais como a volta dos
judeus do cativeiro e a restauração de sua nação. Também é preciso levar
em consideração como uma pessoa encara o milênio, a tribulação e o
arrebatamento. A complexidade destas profecias faz com que nenhuma
conclusão seja definitiva. Mas, reconhecendo que atualmente vemos
obscuramente como através de um vidro embaçado, podemos encontrar
algumas vagas indicações de um ultimo e poderoso despertamento
espiritual.
• O reavivamento será um derramamento universal do Espírito Santo.
• O reavivamento vira num período sem procedentes de tribulação.
• O reavivamento purificara o povo de Deus e este será levado a
verdadeira beleza de santidade.
• O reavivamento vai preparar o caminho para a vinda do Rei.
Finney comentando sobre este assunto disse: “Reavivamento é renovada
convicção de pecado e arrependimento, seguida de um intenso desejo de
viver em obediência a Deus. É a entrega da vontade a Ele em profunda
humildade”.
Charles Finney
“Avivamento é santidade, humildade, crucificação do ego, amor fraternal,
paixão pelas almas perdidas. É o sopro do Espírito para acordar o que
dorme, para o crescimento na graça, na alegria e na paz”. Enéas Tognini
.
CONCLUSÃO
Poucas vezes foi possível, na historia da Igreja ou do mundo, indicar
algo que seja inconfundivelmente novo. Mas, no século XX surgiu um
fenômeno que ‘’e sem duvida novo, pela primeira vez existe no mundo uma
religião universal, o cristianismo.
Foi esta a única religião entre o Budismo e o Islamismo, a saber,
adaptar-se em cada continente e quase que em cada pais. Em muitas zonas
a situação pode ser precária e pequeno o numero de fieis, contudo, em
cada pais a religião crista mostra ser uma minoria dinâmica que se
enraíza a cada dia mais fortemente, não por importações estrangeiras,
mas, como Igreja universal do Senhor Jesus Cristo.
.
BIBLIOGRAFIA
Gonzalez, Justo L., “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, 1ª Edição,
1984, Sociedade
Religiosa Edições Nova Vida, São Paulo - SP.
________________ “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, (A era dos
Altos Ideais),
Vol. 4, 2a. edição, 1986. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São
Paulo, pp. 185.
A. Tucker, Ruth, “... Até aos Confins da Terra”. 1ª Edição, 1986,
Sociedade Religiosa
Edições Nova Vida, São Paulo - SP.
Ekström, Bertil, História da Missão. 1a Edição, 2001, Editora
Descoberta, Londrina, PR,
pp.136.
Neill, Stehen, Historia das missões. 1 Ediçao, 1997, Editora Vida Nova,
São Paulo – SP
JORGE MANRIQUEZ
MESTRANDO EM MISSIOLOGIA
SERRA NEGRA 10 de Agosto de 2004.

Mensagens
Aqui você tem um estudo sobre Missões.
Uma mensagem preparada numa mente alcança uma mente; uma mensagem preparada
numa vida alcança uma vida. (Bill Gothard)
Missões é ouvir o gemido das almas como nosso Deus ouvia; Deus, em Ex 3:7,
disse: "Tenho visto a aflição do meu povo que está no Egito, e tenho ouvido
o seu clamor".
Missão é contemplar o mundo agonizando e fazer depressa a Obra de Deus. Os
discípulos estavam preocupados em comer e beber, mas Jesus disse em Jo 4:35:
"Não dizeis: ainda há quatro meses até a ceifa?
Eu vos digo: Erguei os vossos olhos, e vede os campos! Já estão brancos para
a ceifa".
Devemos olhar para os sinais que se cumprem a cada momento, e levantar os
nossos olhos e ver como Jesus via.
Missão é sentir o que Jesus sentia; sentiu compaixão pela multidão.